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Pelo tratado de Brest-Litovski assinado em 3 de Março de 1918, o governo russo dos bolcheviques fizera uma paz separada com as Potências Centrais, deixando os Aliados em piores condições para enfrentar um último esforço militar da Alemanha a Ocidente. Não é, por isso, de estranhar que Franceses, Ingleses e Americanos se dispusessem a prestar auxílio aos generais “brancos” envolvidos em sangrenta guerra civil contra o Exército Vermelho de Trotsky e Lénine. No Sul, sobre Sebastopol, Odessa e outros portos da Ucrânia, houve mesmo acções de bombardeamento naval. Mas as ideias comunistas tinham também já penetrado em algumas guarnições da frota francesa ali em operações e, sob a instigação de futuros líderes políticos (como André Marty, que veio a ser conhecido na Espanha de 36-39 como “le boucher d’Albacete”), os marinheiros dos navios de linha Waldeck-Rousseau e France (onde embarcava o almirante Amet) recusaram-se ao cumprimento dessas ordens, manifestando solidariedade revolucionária para com os “vermelhos” de Moscovo e Petrogrado. Contudo, os diários de Lisboa quase não deram conta destes acontecimentos, sendo aqui transcritas apenas algumas notícias publicadas sobre a “frente do Mar Negro” e uma única referência encontrada sobre esta revolta em jornal socialista do Porto. Já então a imprensa servia também notícias falsas e efeitos de propaganda. JF

Diário de Notícias, 14.Abril.1919:

«Os bolchevistas no sul da Rússia

Londres, 12 – A Agência Reuter sabe que depois da evacuação de Odessa, as forças aliadas retiraram sobre o Dniester e os bolchevistas estão agora na Crimeia.»

Diário de Notícias, 18.Abril.1919:

«Os bolchevistas – Ameaças a Sebastopol

É para lamentar que, à semelhança dos nossos aliados britânicos, pelo que se refere à frente de Arkangel, escreve o Matin, não estejamos ao corrente, por comunicados periódicos, dos acontecimentos a que fazem face as tropas francesas desembarcadas na Rússia meridional. Que é feito desses soldados, após a entrada em Odessa das tropas vermelhas?

A acreditar em Trotsky, não chegaram a embarcar, e, o que é mais, não chegaram à linha do Dniester, estando entrincheirados na aldeia de Tatarka, a três quilómetros a sudoeste dos arrabaldes de Odessa e a 4 quilómetros da beira-mar. […] Porém, se, como é possível, os bolchevistas, graças à sua superioridade numérica, têm em seu poder, para os lados de Majeka, as proximidades das bocas do Dniester […] a retirada provável deveria ser, portanto, efectuada por meio de um embarque numa praia descoberta e sob o canhão inimigo, operação delicada em todas as circunstâncias.

Da mesma forma, na Crimeia, pretendem os boletins de Moscovo que, após o rompimento forçado do istmo de Perekop, obtido em consequência da chegada tardia dos contingentes helénicos, as tropas vermelhas, tendo marchado rapidamente, tomaram Sinterokop, de onde estão apenas a uns 50 quilómetros de Sebastopol. […]»

Diário de Notícias, 20.Abril.1919:

«As causas da evacuação de Odessa

Londres, 15 – Segundo o Pirata, em telegrama de Constantinopla, a evacuação de Odessa causou ali certo desânimo entre os elementos amigos e fez renascer, entre os elementos hostis, boatos absurdos relativos à aliança de Enver-Pachá [líder dos ‘Jovens Turcos’] com os bolchevistas.»

Diário de Notícias, 21.Abril.1919:

«A evacuação de Odessa

Basileia, 18 – Segundo novas notícias oficiais, confirmam-se as informações recebidas acerca da evacuação de Odessa pelas tropas inter-aliadas e coloniais estrangeiras.

Dos súbditos gregos residentes em Odessa, que são cerca de 10.000, retiraram uns 8.000 para fora da cidade, ficando os restantes por sua livre vontade.»  

O Século, 21.Abril.1919:

«Os navios aliados bombardeiam Odessa

Paris, 19 – Dizem de Atenas que alguns refugiados gregos, provenientes de Odessa, declaram que os barcos de guerra dos aliados efectuaram três bombardeamentos dos bairros bolcheviques.»

O Século, 24.Abril.1919:

«Os bolchevistas em Sebastopol

Paris, 19 – Telegrafam ao Matin que os bolchevistas entraram em Sebastopol, sem resistência por parte das tropas que guarneciam a cidade, de acordo com as autoridades aliadas.»

O Século, 27.Abril.1919:

«Sebastopol não foi tomada

Paris, 23 – O Jornal dos Debates publicou um telegrama de Salónica, datado de 20 do corrente, no qual se confirma não só que Sebastopol não foi tomada, mas também que as hostilidades parece terem sofrido uma pausa no sul da Crimeia, onde os bolcheviques são violentamente atacados pela artilharia dos aliados.»

Diário de Notícias, 28.Abril.1919:

«Os franceses tomam Sebastopol

Londres, 25 – Diz a agência Reuter ter-se dado, diante de Sebastopol, um vivíssimo combate entre franceses e bolchevistas. E ter sido tomada a cidade por aqueles, numa carga de baioneta.

Os russos sofreram gravíssimas perdas, e propuseram ao Estado-Maior francês um armistício durante 7 dias, com o fim de comunicar, entretanto, com o governo bolchevista sobre a situação.

O Estado-Maior francês aceitou o armistício, que terminará impreterivelmente decorridos que sejam estes 7 dias. Também se permitirá a organização de um Soviet local.»

República Social, Porto, 7.Junho.1919:

«Pela Revolução russa

Como é conhecido, as grandes potências aliadas, levando a reboque as pequenas, têm procurado por todos os meios, ainda que os mais infamantes, esmagar a grande revolução socialista na Rússia.

Apesar de apregoarem hipocritamente que não intervêm na contenda que se debate na Rússia, ninguém ignora que o bloqueio, com que se pretende esmagar o povo russo pela fome, e os exércitos que manobram nas suas fronteiras são alimentados e encorajados pelos naipes aliados da Conferência da Paz, a que preside o tique Clémenceau.

Todos os ataques à República Socialista russa têm, porém, fracassado: o ex-radicaleiro Clémenceau acaba de apanhar mais um cheque na sua dúbia política, com o facto dos marinheiros da esquadra francesa do Mar Negro se recusarem a combater contra o governo de Lénine.

Tomando conhecimento deste importantíssimo gesto, para o futuro da revolução socialista, a assembleia nacional da Confederação Geral do Trabalho francesa votou a seguinte mensagem, para ser dirigida aos referidos marinheiros:

“O Comité Nacional da Confederação Geral do Trabalho, sabedor de que os marinheiros de guerra da esquadra francesa do Mar Negro se negaram a lutar contra os revolucionários russos, obrigando o governo a fazer regressar a França essa esquadra, felicita os ditos marinheiros pelo seu valor e vontade, solidarizando-se com eles e declara-se disposto a defendê-los por todos os meios que possa contra os castigos individuais ou colectivos que o governo francês queira impor-lhes.”

A mesma atitude tomou o Partido Socialista francês.

Foi um eloquente acto, o dos marinheiros franceses, que saudamos, fazendo votos para que encontre eco em todos os elementos similares.»




Fonte: Aideiablog.wordpress.com