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O mês de junho deflagra, em todo o globo, uma série de ações alusivas às lutas da comunidade de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queers, Intersexo, Assexuais e outros agrupamentos políticos que organizam suas pautas de luta pela vida a partir da defesa de suas identidades de gênero e orientação sexual. A grande sigla, que representa tantas experiências e corpos políticos, resulta de um acúmulo de debates e embates gerados nos confrontos sociais de resistência desses e dessas protagonistas.

Internacionalmente, o dia 28 de Junho constitui um marco significativo para nossa comunidade, uma vez que relembra o episódio ocorrido no bar Stonewall Inn, no subúrbio da cidade de Nova Iorque, EUA, no ano de 1969. A comunidade LGBTQIA+, comunidade latina, negra e artistas como performers e drag queens que frequentavam o espaço – reduto de expressão de vida – enfrentaram a polícia em mais um confronto. Dessa vez, expulsaram a polícia nova-iorquina, avançando, nos dias seguintes, para aquilo que em um futuro breve se tornaria a consolidação do movimento LGBT em terras estadunidenses e a expansão das ocupações de ruas (consequentemente denominadas paradas).

Imagem com um arco-íris, um punho fechado erguido, e a frase "Comunidade LGBTQIA+ forte contra a política de fome e da morte!"

A partir de explosões políticas que ocorrem nos guetos de inúmeras cidades, as paradas, por sua vez, são articuladas e lideradas majoritariamente por pessoas não-brancas e de origem latino-americana. Basta observarmos o protagonismo de Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, mulheres transexuais oriundas das comunidades negra e latina e trabalhadoras pobres. A explosão política era marcada pela confluência de inúmeras outras opressões. A racialidade, o território e a classe eram combustão que também impulsionava as ações dessas mulheres.

Ao aproximar essas lutas do contexto brasileiro e latino-americano, encontramos inúmeros outros episódios de resistência que precisam ser reafirmados e relembrados pela nossa comunidade. Exemplos são as mobilizações do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF), nos anos 1980; os enfrentamentos do jornal Chana com Chana em São Paulo; a criação, em 1978, do Somos em São Paulo e da organização do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB) e o jornal “Lampião da Esquina”, materiais e agrupamentos que lutaram assiduamente contra o regime ditatorial no país; o acolhimento às bichas pretas e nordestinas e os enfrentamentos organizados por Madame Satã, bicha preta pernambucana que montou uma rede de enfrentamento, defesa e trabalho na cidade do Rio de Janeiro, entre os anos 1950 e 1970; a criação do Grupo Gay da Bahia (GGB), no ano de 1980, que se configura como o espaço de atuação mais antigo, sem interrupções, da comunidade LGBT na América Latina, pautando as questões negras e como o movimento ainda se configurava como um espaço elitista e branco.

Esses pequenos resgates dos agrupamentos e episódios que forjam a nossa história precisam ser demarcados e relembrados constantemente, já que, com o decorrer dos anos, o movimento LGBTQIA+ vem passando por uma romantização e glamorização de suas pautas efetivas, perdendo o cerne de que são vidas sufocadas e pisoteadas pelo patriarcado, machismo, sexismo e capitalismo. No Brasil, por mais que houvesse uma aproximação do universo intelectual e acadêmico, as principais organizações e contextos históricos de mobilização da nossa comunidade também se deu com as e os de baixo na motriz da nossa história de luta e resistência. Além disso, diferentemente do contexto dos países do norte global, a evidência das nossas lutas ocorreu em um período abrupto e violento contra o povo, de perseguição direta à nossa comunidade. Durante a ditadura militar, ocorrida no Brasil entre os anos de 1964 e 1984, todas essas pessoas e agrupamentos citados serviam como refúgio e barricada para o nosso povo.

Hoje, nos deparamos com um esvaziamento político do porquê e por quem estamos em luta. Neste ano, por exemplo, a maior parada LGBTQIA+ do país define, em sua cúpula organizativa, que nada referente à política e à conjuntura do país deve ser mencionado nos trios. Algo vergonhoso, justamente, em um país que mata uma/um LGBTQIA+ a cada 29h, por sua orientação sexual ou identidade de gênero. Mortes provocadas pelo sistema que normativa a vigilância e perseguição a quem nós somos, baseados na cultura cruel e brutal da heteronormatividade como essência dentro dos aparatos do capital e da lógica de família nuclear monogâmica e heterossexual.

Por isso, compreendemos que as retomadas das lutas articuladas precisam ser sempre ditas e evidenciadas. As lutas, em suas singularidades de expressão, história e vida, só se tornam orgânicas quando são capazes de irem de encontro aos problemas e senhorios que nos assolam. Luta sem solidariedade entre pessoas oprimidas e que são incapazes de articular o cenário político e econômico se esvaziam porque se fragmentam e caem na individualidade da sobrevivência e não da construção de uma política e projeto de novo mundo que fortaleça todas e todos e não apenas alguns. Sem esse horizonte, o afastamento da nossa luta e do nosso reconhecimento como classe social oprimida só nos enfraquece, enquanto uma boiada sem porteiras pisoteia as nossas e os nossos da forma mais viril e repugnante possível.

Resgatar a ousadia de nossas manas é urgente! Despertar a rebelião entre as nossas monas e minas é justo. Contra a política da fome e da morte que bate em nossos calcanhares e portas todo dia, organizemos e apoiemos a nossa autodefesa, solidariedade, ombro a ombro com LGBTQIA+ do povo, pobres e pretas.

Avante por um 28 de Junho combativo!

Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)
Junho de 2022




Fonte: Cabanarquista.org