Abril 14, 2022
Do Jornal Mapa
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Publicamos três cartas que nos chegam de diferentes prisões com denúncias que evidenciam a falência completa da assistência de saúde às pessoas encarceradas, a arbitrariedade e o racismo com que são tratadas as presas estrangeiras, as negociatas que se aproveitam da situação de vulnerabilidade dos presos e presas, e um sistema prisional que quotidianamente devora milhares de pessoas que sobrevivem em condições degradantes e sujeitas a todo o tipo de torturas.

01 de fevereiro de 2022

Percurso prisional de A no EP, (desde a sua entrada em 2019) até aos dias atuais…

No E.P. demorei 8 meses no pavilhão Y para conseguir um trabalho na oficina da dona V onde trabalhei no corte e molde no fabrico de bolsas e carteiras feitas de lona e materiais recicláveis, fiquei nesta atividade durante um ano! Após este tempo fui mudada para o pavilhão Z das condenadas, onde estou até hoje e nunca trabalhei mesmo pedindo sempre à minha educadora um trabalho laboral!

Aqui passei por um período terrível da minha vida que foi quando contraímos o COVID-19 em massa no E.P., ficámos em quarentena nas celas e não saímos nem para fazermos as refeições, mas além disso não me lembro de termos tido algum tipo de tratamento fora o paracetamol, não me curei por completo como diversas reclusas e o COVID reverteu em meu organismo para uma infeção urinária. Eu reclamara de dor para urinar todos os dias para diversas enfermeiras, mas ouvia sempre a mesma frase, que era norma, que era impressão minha por causa de alguma sequela do COVID!

Eu pedi muitas vezes para fazer uma análise de urina, mas não fui atendida.

Até ao dia 19/12/2020 tive o que a princípio parecia uma crise de pânico, comecei a ter tremores violentos no corpo e não conseguia ter controle sobre o meu corpo e meu maxilar que batia descontroladamente. A guarda do piso foi chamada, nem a porta da cela abriu e não quis chamar a enfermeira, fui negligenciada totalmente pois meus estado à tarde já era crítico e a tal guarda falou pela fresta da porta para minhas colegas de cela me darem chá de camomila com açúcar, para eu me acalmar e parar de tremer!

Quando as portas foram abertas para a janta, meu estado estava deplorável, chamaram a enfermeira que foi até à cela e mediu a minha febre que estava 41,2º, por isso este meu estado, estava quase delirando, não falava nada, a enfermeira não sabia como proceder e mandou a guarda chamar o INEM e os bombeiros para ver qual chegava antes, pois a minha infeção, que ninguém deu atenção, tinha se agravado de tal forma que tinha me deixado naquele estado.

Os bombeiros chegaram e me levaram entubada para o hospital, eu já estava em coma, só ouvia as vozes, mas não conseguia me mexer, ouvia os bombeiros dizerem que eu não iria sobreviver, e eu escutando tudo sem conseguir mexer!

Essa minha 1ª internação no Hospital de Santa Maria durou 22 dias, e demorei uns 15 dias para conseguir me lembrar o meu nome e onde eu estava, essas lembranças essenciais.

No dia em que acordei, estava uma guarda sentada ao meu lado me olhando, eu amarrada na cama, porque ela me contou que eu me batia e arrancava os acessos das veias para a entrada da medicação, por isso que eu estava amarrada, estava usando fraldas, argoliada, sem noção de nada do que estava acontecendo.

A guarda que estava comigo me explicou tudo o que tinha acontecido comigo, e que tinha sido realmente feia a minha situação e que eu já tinha feito uma cirurgia na uretra pois tinham descoberto 7 pedras no meu rim, 6 no esquerdo e 1 no direito, então enquanto eu estava inconsciente, me fizeram uma cirurgia para me colocarem um dreno na uretra para abrir a passagem uretral, para talvez descer alguma pedra no rim por este dreno!

Imagina meu estado físico e psicológico para eu nem me lembrar que foi feito este procedimento em mim.

Depois de uns dias passados tive uma obstrução neste dreno causado por uma pedro do rim direito que ao passar pelo dreno, em vez de descer, “entalou”, e trancou o dreno me causando uma reação terrível, febres altíssimas novamente a urina não descia mais pela argolia. Me levaram até ao Hospital de Cascais para fazer um TAC, e ver o que se passava desta vez, aí então que fiz a minha 2ª cirurgia para retirada do dreno destruído, fiquei mais 18 dias internada. Nesse tempo em que fiquei no hospital não tive contacto com a minha família e quando meus familiares ligavam para o E.P. diziam apenas que eu estava no hospital e estava me recuperando e quando chegasse ao E.P. eu entraria em contacto com a minha família.

Agora, imagina a minha família preocupada sem saber nem o motivo pelo qual eu tinha sido internada.

Fiquei 40 e poucos dias entre os 2 hospitais internada e fiz 2 cirurgias.

Assim que fui liberada com 15 quilos a menos e muita medicação, além do que as que eu já tomo psiquiátricas, e sem meu problema resolvido, (pois tenho até hoje pedras nos rins e tenho crises renais frequentes), pois os médicos me disseram que é pra eu me tratar no meu país, no caso, tirar as pedras do rim no Brazil sendo que com tanto tempo de internação eles já podiam ter feito isso a lazer tranquilamente!

Bom, voltei para o E.P. e fui para o isolamento, ou seja, Ala C, permaneci no isolamento por 127 dias direto, com idas e vindas ao hospital por diversos motivos, inclusive desmaios que tinha seguidos na cela sozinha de fraqueza pois acabei virando uma cobaia de testes de medicações pois sentia muitas dores, não parava de perder peso e tinha dias que não conseguia me levantar da cama, meu estado de saúde só decaia, tinha diarreias constantes por causa de muita medicação, então tomava remédios para parar a diarreia e ficava até 18, 20 dias sem defecar, e assim foi indo meu dia a dia na ala C (isolamento). Na minha opinião sofri muitas negligências desde que tive o surto (19/12/2020) até hoje, pois ainda tenho crises renais e me levam ao hospital, me medicam e me trazem de volta ao E.P.

Sobre o meu relatório do E.P. nem consta as minhas internações e o dia que fui na audiência para falar com a juíza para se ela me cedia meu meio da pena, ela nem sabia do meu estado de saúde, mas nem isso fez ela me dar o meio da pena!

O TEP me concedeu meu meio da pena, mas a juíza me deu o corte e agora vou embora só aos meus ⅔ que são em outubro!

Desde que estou no Pavilhão Z nunca trabalhei. Não foi por falta de pedidos!

A comida daqui do E.P. muitas vezes não é comestível, às vezes nos faltam a medicação.

Temos problemas sérios com a contabilidade, nossa família transfere dinheiro para nossa conta e o dinheiro “desaparece”. Não sobre pra cantina no dia do carregamento da quinzena, então temos que esperar a próxima quinzena pra ver o que acontece, porque reclamar no escritório não adianta nada…

Agora estou eu aqui com mais nove meses pela frente para viver nesse inferno sem saber como vai ser o dia de amanhã!

Para as estrangeiras, não é facilitado em nada o reabrimento de encomenda, a troca de roupa ou coisas do gênero como se nós tivéssemos a facilidade de uma reclusa portuguesa de receber uma encomenda na data certa, sendo que as nossas encomendas muitas vezes vêm do Brazil que é do outro lado do Atlântico e não chegam no pequeno espaço de tempo da semana de troca (1 semana).

É muita burocracia!

Já não temos visitas de nossos familiares, as encomendas, quando chegam para recebermos é terrível por causa das datas, as chamadas de vídeo nos escolhem “aleatoriamente” e demoram até 6 meses para nos chamarem entre uma chamada e outra!

Quando troquei de pavilhão fiquei 14 meses sem fazer chamadas de vídeo, sem ver meu filho!

Enfim, resumidamente é isso! Sem falar na parte psicológica e psiquiátrica que tomo medicação para depressão, para moderar o humor, para dormir, para controle da raiva porque o convívio com as mesmas pessoas fazendo os mesmos conflitos diários a gente sobrevive só com medicação, afinal são 3 anos presa nesta mesma rotina.

Começo a minha história a partir do momento em que achei que resolveria uma parte dos meus problemas!

Me chamo J. K., hoje tenho 40 anos.
Quando comecei minha campanha de pedido de ajuda para meu filho B. K. pelo facebook, logo me mandaram uma mensagem que me iriam ajudar. O pai dos meus filhos já faleceu e minha mãe tem câncer há seis anos. Minha vida em 4 anos era só hospital, não aguentava mais, então num encontro que tive com este suposto «senhor» que iria me «ajudar» a fazer a cirurgia do meu filho vi uma «luz», mais não esperava que era uma luz negra à qual iria «presa». Ele era um senhor português e me disse «se tu viajar a Portugal a cirurgia do seu filho vai ser paga; pode desde já tirar esse pedido do seu facebook. Ok, foi o que fiz pois uma filha minha já faleceu por falta de médicos para salvá-la, não me imaginava perder mais um filho ainda mais o meu último filho. Pensei por dois meses sobre a proposta pois nunca viajei para for a do Brasil, tinha muito medo mas ele disse «não se preocupe vai dar tudo certo, é para seu filho, você já perdeu um quer perder outro?» Isso foi a frase de um ponto final na minha decisão, então embarquei naquilo que acreditava ser a minha salvação de um dos meus problemas, com meu filho operado, só restava cuidar de minha mãe que nem sequer caminha mais pois o câncer tomou conta da medula óssea L3, L4 e L5. Saí de Curitiba num carro até o aeroporto de São Paulo (Viracópolis) a sensação de nervosismo era tremenda pois moro numa cidadezinha (Pontal do PR) para um lugar imenso, mais ele foi muito convincente disse que a CEF (SEF) era paga para deixar passar a droga, então me entregou a mala e algum dinheiro que foi 1.210 € disse que esse dinheiro seria para me manter por uma semana em Portugal, quando vi a quantia me assustei, nunca vi tanto dinheiro, isso no Brasil aqui vale sete vezes mais, então pensei «ele vai realmente pagar a cirurgia do meu filho…» Mais não foi isso que aconteceu, quando desembarquei em Lisboa passei pela alfândega, já estava prestes a pegar um táxi, pois já via a rua, quando de repente um agente policial me tocou no meu ombro e disse «a senhora pode abrir a sua mala…» Tremia mas abri, não tinha nada e ele disse «a senhora pode me acompanhar…» Pensei «Meu Deus, está tudo acabado, numa sala abri novamente a mala, eles jogaram minha roupa ao chão e começaram a rasgar a mala, minha e de minha prima, cada mala continha 6kg de cocaína, eu chorava sem parar, fui até à casa de banho para outra revista e não tinha mais nada em mim, já tinha falado a eles, mas mesmo assim fizeram a revista, eu e minha prima não sabíamos a quem era para entregar, pois no Brasil esse senhor disse «Chegando no hotel vocês deixam a mala no quarto e saiam por duas horas, pois lá vão buscar, e não foi isso que aconteceu. Os policiais colocaram nossas roupas num saco preto e fomos dar o depoimento, eu sempre disse «não sei para quem é a droga» e ainda disse «por que vocês não nos seguem e pegam o verdadeiro receptor?» Não obtive resposta alguma, só pensava no meu filho e minha mãe e na minha filha tão pequenos. Passou e recebemos a acusação onde falava que a Sarah Carolina Pompeu tinha 2,998,900 gramas de cocaína e eu Joice Ferreira Pinto Kröker tinha 3,001,800 gramas, como, se as nossas malas eram iguais e tinha 6kg cada?! Não questionei nada apenas entregámos ao juiz 50€ o qual o CEF (SEF) disse que iríamos precisar quando chegarmos ao E.P., o juiz perguntou «porque está entregando esse dinheiro?» e eu lhe disse «Comecei errado, não vou terminar errado, na minha cabeça achei que era uma trama para nos testar e mesmo que não fosse achei correto entregar – pois era o dinheiro do crime – não ficaria descansada, já estava presa e não queria mais problema algum. Durante um ano meu companheiro me ajudou depois disso conheceu uma mulher e me abandonou. Estou presa desde 15/02/2020 e sem ajuda de ninguém desde Janeiro de 2021… Não está sendo nada fácil para mim pois faço uso do ETER, tenho hipotiroidismo, asma, e tem dias que acho que vou desmoronar, aqui se uma reclusa não ajudar a outra «principalmente» nós brasileiras não temos nada. A A. me ajudou muito e o carregamento do meu PT foi feito por vocês e agradeço imenso pois faz dois anos que não vejo os meus filhos, isso que teria direito por ser estrangeira a uma vídeo chamada, uma vez por mês e não tive. Só agora depois de dois anos me chamaram com muita insistência. Muito obrigada, graças a vocês vou poder ver meus filhos e minha mãe que já está no oxigénio pois o câncer dela está muito avançado. Não tenho roupas pois as que tinha foram se desgastando, já estou há dois anos presa. Vou à igreja todo o mês, a IURD, a pastora sempre traz kits de higiene, o qual nunca chega em nossas mãos, em dois anos recebi um kit da igreja, apenas um, para onde vai esses kits? Também não sei se gostaria de saber!

Em Junho vou embora e gostaria muito, que até lá pudessem me ajudar, pois não tenho sequer uma mala para levar o pouco que tenho. Se puderem me dar roupas de inverno pois sinto muito frio, (…) Aqui não temos oportunidade de emprego, já tentei inúmeras vezes, nunca tive nenhum castigo, nenhum 111 1, não entendo mais é a vida, isso é um desabafo e tenho certeza que vou ter ajuda de vocês.

Beijinhos J.




Fonte: Jornalmapa.pt