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Opinião Anarquista | Março 2022 – versão para impressão

O período da pandemia tornou a vida das mulheres muito mais difícil. Esses dois anos de uma complicada situação causada pela COVID-19 e por sua resposta abriu caminhos para a intensificação de nossa exploração, a precarização da vida e o acirramento da violência contra as mulheres. Aproveitando o caos gerado pela peste, os de cima também colocaram em prática uma política de extermínio de direitos, impedindo o avanço de pautas essenciais às mulheres.

O impacto mais profundo se sente na mesa: vivemos uma situação de miséria generalizada, a palavra carestia voltou a nossas bocas quando o custo da comida, do gás e tudo o que é mais básico ficou muito mais caro. A comida acabou na geladeira de muitas casas, o desemprego se intensificou e os poucos trabalhos que restaram pagam mal e têm poucas garantias – muitos não trazem direitos essenciais como o salário mínimo, afastamento em momentos de doença, férias e 13º salário. Quando a fome atinge o povo tão drasticamente, atinge diretamente a vida das mulheres. Muitos lares são mantidos por  mulheres, sendo elas, muitas vezes, as únicas provedoras das crianças. O mesmo agronegócio que exporta soja, incentivado também com dinheiro público, enquanto padecemos a  alta dos preços da comida, envenena nossa saúde e o leite materno com o uso dos agrotóxicos. E isso nos mostra o quanto esse cenário de miséria é produzido pela aliança entre Estado e capitalismo. Assim, somos atingidas triplamente por uma política da fome e da morte e da retirada de direitos.

Quando o desemprego bate mais forte nas mulheres, especialmente quando uma em cada três mulheres negras estão desempregadas, a dependência econômica e junto a ela as agressões psicológicas, morais, sexuais e físicas, passam a fazer parte do cotidiano de muitas. Além disso, com todo o adoecimento, sobrou para as mulheres o trabalho de cuidar. Mais da metade das mulheres de nosso território passou a cuidar de outras pessoas, acumulando o trabalho de prover e pagar as contas, o cuidado da casa e dos doentes. Condenadas a sair para trabalhar sem conseguir se proteger do vírus e ficar o resto do tempo em casa para se afastar da chance de infecção, muitas companheiras mulheres se depararam com a violência e o feminicídio.

A subnotificação desses casos sempre foi grande e piorou ainda mais com o os ataques e o desmonte progressivo do Sistema Único de Saúde – SUS e do Sistema Único de Assistência Social – SUAS, além da dificuldade de acesso à denúncia e às medidas protetivas, dada a paralisação, o despreparo e a ineficácia do atendimento em delegacias especializadas e instituições jurídicas e de apoio. Com isso, sentimos o luto de quatro assassinatos de mulheres todos os dias em 2021, cometidos por seus próprios maridos ou ex-maridos, namorados, noivos, mantendo o Brasil na 5ª posição mundial em taxa de feminicídios.

Desse modo, as dificuldades que nós mulheres – negras, indígenas e periféricas – enfrentamos para viver aumentaram de uma forma alarmante. Ocupadas e assoladas por esses ataques, foi necessário nos mobilizar para sobreviver, para construir redes de solidariedade, apoio mútuo e autodefesa de nossos corpos e de nossas comunidades. Estagnaram nossos avanços em muitas outras pautas, como a luta pela educação sexual; ampliação de acesso a métodos contraceptivos e aborto de gestação; meios de proteção contra a violência doméstica e patriarcal; e a garantia de trabalho e remuneração dignos para as mulheres. Todas essas lutas urgentes para garantir as nossas vidas.

Resistir aos ataques

Este 8 de março anuncia a entrada de um ano difícil e fundamental para a luta dos e das de baixo. Um ano no qual se acirram as tensões políticas e as ameaças de ataques cada vez mais profundos dos capitalistas e da direita conservadora e protofascista, que desejam destruir ainda mais os direitos das mulheres trabalhadoras.

Para este ano, nossa resposta é fincar cada vez mais nossos pés no território e nos espaços sociais das classes oprimidas. É tomar para nós a responsabilidade por nossa libertação, e pela construção e luta por pautas que ampliem nossos direitos. Nosso caminho é a auto-organização, o ombro a ombro, e a rebeldia de quem já busca no hoje a construção de um mundo novo com socialismo e liberdade, e, por isso, necessariamente feminista, antirracista e anticapitalista.

ARRIBA LAS MUJERES QUE LUCHAN!
CONTRA O ESTADO, O CAPITALISMO E O PATRIARCADO!
MULHERES FORTES CONTRA A POLÍTICA DA FOME E DA MORTE!

Coordenação Anarquista Brasileira
Março de 2022




Fonte: Cabanarquista.org