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O levantamento insurreccional da Comuna de Paris em Março-Maio de 1871, simultaneamente contra o governo de Thiers, refugiado em Versalhes (após a derrota e resignação do imperador Napoleão III), e contra o exército prussiano que cercava a capital, foi um facto histórico que marcou profundamente várias gerações de europeus, pelo menos até à revolução russa de 1917. Geralmente visto nos meios socialistas e revolucionários como a primeira tentativa de estabelecimento de uma nova ordem social, favorável aos trabalhadores, foi muitas vezes tido como a prova-de-fogo da concepção anarquista de revolução social. O próprio Marx escreveu nessa base as suas obras mais “insurreccionalistas”, que foram A Guerra Civil em França (1871) e a Crítica ao Programa de Gotha (1875). Mas sendo aqui impossível entrar pela análise dos acontecimentos ou pela apresentação dos melhores relatos de intervenientes (por exemplo, o livro Histoire de la Commune de 1871, de P.-O. Lissagaray), optámos por repescar uma passagem do historiador anarquista alemão Max Nettlau, que nos dá uma imagem fugaz mas menos habitual dessa revolta que, lembre-se, foi castigada por uma impiedosa repressão militar que se terá saldado em cerca de 20 mil mortos, que ainda hoje o Mur des Fédérés homenageia, no cemitério do Père Lachaise.  [João Freire]   

Max Netllau (30 de Abril de 1865 – 23 Julho 1944), historiador e anarquista alemão

A guerra franco-alemã de 1870-71 pôs fim, no seio da Internacional, à elaboração de ideias a discutir em congresso, e em Setembro de 1869 (no congresso de Basileia) os autoritários e os libertários só se encararam como inimigos letais, cada um prisioneiro da sua própria doutrina. O desejo de revolução social reavivou em Bákunine, em Agosto de 1870, as antigas paixões nacionalistas. Os planos, até então teoricamente esboçados em escritos, a maior parte dos quais ficaram muito tempo inéditos, revelaram-se fracos e inadequados face à realidade (tentativas de levantamentos em Lyon e Marselha). Ele refugiou-se então no trabalho de crítica que, dadas as paixões da hora, atingiram em breve o seu apogeu filosófico em manuscritos inacabados como “O Fantasma divino” e sobretudo aquele que veio a ser chamado “Deus e o Estado”.

Este trabalho foi interrompido pela Comuna de Paris, e Bákunine, na impossibilidade de lhe levar uma qualquer ajuda (em Maio de 1871 ele encontrava-se no Jura suíço), analisou-a a fundo e tomou a sua defesa, bem como a de todo o socialismo, contra Mazzini, que a vilipendiara. A defesa da Comuna valeu a Bákunine estabelecer em Itália numerosas novas relações, e a Internacional implantou-se profundamente neste país, conquistado pelas ideias do socialismo anarquista e pela táctica preconizada por Bákunine, ao ponto de, em Agosto de 1872, ter sido criada a Federação Italiana. […]

A Comuna de Paris foi o produto de múltiplos factores, o que lhe valeu um preconceito favorável, de ideias muito diversas, e não somente liberais e libertárias. Gerou-se o velho antagonismo entre a cidade e o Estado; o orgulho da capital mostra um governo e um Estado sem prestígio, humilhados perante a opinião pública (de Setembro a Março); o reagrupamento de forças operárias e socialistas durante o cerco, que se terminou com uma espécie de ditadura militar do proletariado armado, em oposição à ditadura feroz dos generais: havia de tudo, menos o espírito federalista, e ainda menos o espírito francamente anti-estatista desejoso de substituir o Estado francês pela Federação das 40.000 comunas –  que Elisée Reclus, no seu discurso de Berna (em 1868) havia definido como satrapias formadas de obedientes e contribuintes, com todos os seus juízes, conselheiros municipais, sacerdotes e outros funcionários, até ao guarda rural mais modesto, ávidos de governar alguém. Eram, no entanto, boa gente, amigos do progresso e que saudavam esta nova tentativa como um protesto social contra a impotência e a secular crueldade do Estado.

Considerada em si mesma, a Comuna, contrariada e empurrada para o autoritarismo pela sua defesa desesperada contra os ferozes inimigos que se cevavam no seu sangue, foi um microcosmo autoritário, pleno de paixões partidárias, de burocratismo e de militarismo. Por causa do fim heroico da Comuna, estes factos foram muitas vezes considerados como secundários por libertários que bem os haviam conhecido e que, de resto, não podiam impedir os contactos com os numerosos refugiados, em Genève e outros lugares. Em alguns dos melhores representantes da Comuna, como Gustave Lefrançais (um velho comunista de 1848), o seu anti-estatismo era total, mas no seio da Comuna em construção havia restos indisfarçáveis do governamentalismo municipal, autárquico, e desconfiança para com o anarquismo. Em suma, tal como existia a teoria do ‘Estado mínimo’, governado o menos possível, também se acreditava na ‘Comuna mínima’, governada o menos possível, mas apesar disso governável. Os libertários que combatiam ao lado destes comunalistas, foram simultaneamente atraídos e repelidos por eles. A ideia da Comuna foi o seu credo e o governamentalismo pareceu-lhes opressivo; no entanto, alguns correram esse risco e, com Paul Brousse, foram absorvidos e ficaram perdidos para as nossas ideias. Outros, como Elisée Reclus (que foi combatente e ardente partidário da Comuna, e ficou amigo dos seus defensores) não se deixaram seduzir pelo comunalismo e tornaram-se anarquistas mais clarividentes.

Louise Michel, a combatente mais entusiasta da Comuna, tendo visto crescer erros e autoritarismo entre os seus melhores partidários, tornou-se anarquista no navio que a levou para a deportação (em Tahiti, que sofreu até 1899), quando pôde reflectir sobre tudo o que havia observado. Uma outra combatente, Victorine Rouchy, tornou-se igualmente numa das primeiras anarquistas-comunistas de Genève. Bákunine não foi absorvido nem completamente fascinado pela Comuna de Paris, como tantos outros cujo campo visual ficou ofuscado por este grande acontecimento. Em Itália e em Espanha não houve geralmente esta limitação de vistas, mas ela aconteceu noutros lugares e, na minha opinião, isso arrastou uma certa degradação da Internacional.         

(JF traduziu de Max Nettlau, Histoire de l’Anarchie, [Paris], Ed. Cercle/Tête de Fueilles, 1971, p. 130-132; orig. alemão Geschichte der Anarchie, 1927)




Fonte: Aideiablog.wordpress.com