Agosto 3, 2021
Do Facção Fictícia
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Este texto a seguir, extraído do livro “Anarquismo é Movimento“, de Tomás Ibanez, coloca em questão a distinção, propagada por Murray Bookchin e ainda muito influente nos meios anarquistas atuais, entre anarquismo social e anarquismo como estilo de vida. Tomas Ibañez explora os limites dessa distinção no que se refere ao próprio sentido histórico do anarquismo, que sempre operou na destituição das dualidades próprias à política da representação. De fato, chamar algo de ‘mero estilo de vida’ significa na maioria das vezes um qualitativo depreciativo, quase um xingamento, que procura situar por oposição aqueles assim adjetivados na esfera do não-sério; não-organizado ou não-comprometido. Ibañez, por outro lado, problematiza a própria noção de organização assim definida como uma idealização, mostrando que de fato não existe jamais um grupo, seja de afinidade, seja voltado à realização de uma atividade qualquer pontual, que esteja totalmente desorganizado, pois existem níveis de organização determinados por aquilo a que se deseja ou necessita. O desejo da organização ideal, única, totalizante é muitas vezes um fetiche oriundo de nossa educação institucional e estatal, que não nos permite ver a organização estabelecida pela prática concreta. Adicionalmente, a separação entre ‘social’ e ‘estilo de vida’ é filha da separação entre público e privado; político e pessoal; vida e gestão da vida, entre outras… separações estas que se estabelecem sempre já desqualificando um dos seus termos, até que a vida concreta mesma seja colocada na esfera do ‘nenhum valor em si’, pois o seu valor estaria sempre no âmbito abstrato das suas representações, seja política ou econômica, organizadas. Mas é justamente contra estas separações rígidas, no capitalismo; no Estado e na representação, que nós anarquistas nos insurgimos. É justamente a distinção entre o viver e o organizar a vida que nós recusamos. Sendo assim, Ibañez nos ajuda a ver que refundar essas distinções danosas no seio da luta libertária só pode nos levar à confusão ou à criação de microestados em nossos meios. A multiplicidade das práticas anarquistas e suas potências estão em não separar a luta da vida, que é talvez o que constitui sua maior força. Em máximo grau, nós anarquistas queremos uma sociedade na qual não estejam separados o modo de viver do próprio viver, e é por isso que em nossa prática não precisamos opor rigidamente o social ao ‘estilo de vida’. Muito por outro lado, desejamos uma política que vem, e que não se separa da vida, que é antes de tudo uma forma de viver.

A importância de revisar as práticas de dessubjetivação hoje coloca diretamente em questão a famosa dicotomia que Murray Bookchin estabeleceu, em meados da década de 1990, entre anarquismo social e anarquismo de estilo de vida, pois os dois tipos de anarquismo, longe de serem opostos, estão de fato intimamente ligados. Com efeito, a necessária construção de uma subjetividade diferente através das lutas, sejam elas de uma perspectiva global ou local, implica que não existe um anarquismo social que não carregue componentes existenciais fortes e que não existe um anarquismo de estilo de vida que não esteja impregnado de componentes sociais. Apesar disso, costuma-se dizer que, ao contrário do que acontece com as revoltas ancoradas na questão social, as revoltas classificadas como existenciais são totalmente inócuas para o sistema porque, embora ultrapassem a esfera estritamente privada, não deixam de ficar presas a espaços confinados que não podem perturbar o bom funcionamento do sistema.

No entanto, este não é exatamente o caso. Se o anarquismo – que também é, acima de tudo, diriam alguns, um modo de ser, um modo de viver e sentir, uma forma de sensibilidade e, portanto, uma opção claramente existencial – representa um problema para o sistema, é, em parte, porque ele opõe uma forte resistência, não só contra sua intimidação repressiva, mas, acima de tudo, contra suas manobras de sedução e integração. Na verdade, apesar das exceções óbvias, acontece com bastante frequência que aqueles que foram profundamente marcados por uma experiência anarquista permanecem irrecuperáveis ​​para sempre.

Ao manter viva sua alteridade irredutível em relação ao sistema, eles obviamente representam um perigo para ele. Não é apenas que eles o desafiam permanentemente com sua mera existência, mas também servem como um retransmissor para o nascimento de novas sensibilidades rebeldes. Isso guarda alguma relação com o que Christian Ferrer, um bom amigo e filósofo anarquista que vive na Argentina, costumava me dizer: “O anarquismo não se ensina e não se aprende nos livros – embora possam ajudar – mas se espalha por contágio; e quando alguém está infectado, na maioria das vezes, é para sempre.

Então eu entendo que o anarquismo social, também chamado de anarquismo organizado, e o anarquismo de estilo de vida estão mutuamente implicados. Com efeito, é esse o caso na medida em que, por um lado, o desafio que representa a adoção de um estilo de vida diferente daquele preconizado pelo sistema instituído e a recusa em participar nas suas normas e valores constituem uma forma de luta que corrói sua pretensão de hegemonia ideológica e que gera conflito social, quando o sistema toma medidas normalizadoras ou quando dissidentes realizam atividades hostis. Em qualquer caso, o anarquismo de estilo de vida produz efeitos de mudança social que, às vezes, podem ser notáveis. Por outro lado, é óbvio que ninguém pode lutar pela emancipação coletiva e se engajar em lutas sociais sem afetar profundamente seu estilo de vida e modo de ser. Acontece também que as duas formas de anarquismo frequentemente coincidem no terreno das lutas concretas.

Isso não impede que certos setores do movimento anarquista se esforcem para erguer barreiras entre essas duas formas de praticar o anarquismo. É porque estou convencido de que essas barreiras enfraquecem o anarquismo que gostaria de argumentar aqui brevemente contra aqueles que se esforçam para consolidá-las: em geral, aqueles que são classificados, na maioria das vezes contra sua vontade, como partidários do anarquismo estilo de vida – que incluiria a maioria dos neo-anarquistas – mostra pouca beligerância com a diferenciação das correntes ideológicas libertárias e se sente pouco interessada nas lutas internas dentro do movimento. Em vez disso, são os defensores do anarquismo social ou anarquismo organizado – que se sobrepõe, em grande medida, às orientações comunistas libertárias – que se esforçam para estender seu raio de influência dentro do movimento e confinar os anarquistas estilo de vida às suas margens. São, portanto, os seus argumentos que gostaria de discutir aqui, mas não sem antes especificar alguns pontos para evitar mal-entendidos. É óbvio que o anarquismo “sem adjetivos”, só é sustentável como tal se estiver comprometido com a justiça social e a liberdade entre iguais. O anarquismo não só deve denunciar a exploração e as desigualdades sociais, mas também combatê-las com a maior eficácia possível; deve estar presente entre aqueles que se envolvem nessas lutas e deve tentar expandir sua influência entre aqueles mais diretamente afetados pelas injustiças do sistema. Nada a dizer, portanto, contra os esforços feitos por certos anarquistas para se organizarem especificamente a fim de ajudar a desenvolver melhor essas lutas, muito pelo contrário. No entanto, também é óbvio que o anarquismo social ou organizado muitas vezes transmite suposições e práticas políticas que o distanciam sub-repticiamente de suas raízes libertárias, seja porque adota estruturas insuficientemente horizontais – senão no papel, pelo menos na prática -, seja porque se deixa tentar por uma certa vanguarda, seja também porque é propenso a desenvolver práticas sectárias, entre outras coisas.

O capitalismo é, por hipótese, nosso inimigo mais direto e não temos que lhe dar trégua. A luta contra ele constitui um requisito inalienável para o anarquismo. No entanto, considerando a diversidade de natureza cultural ou outra que caracteriza os mais de sete bilhões de seres humanos que povoam a Terra, não é razoável pensar que nossos valores e nossos modelos sociais possam refletir as preferências das pessoas. Perspectivas totalizantes não nos sustentam, portanto, nem dentro da estrutura do vasto “mundo mundial”, é claro, nem dentro da estrutura de uma sociedade particular.

Se não quisermos ressuscitar as ilusões escatológicas, devemos admitir que aqueles entre nós que se engajam nas batalhas pela emancipação nunca conhecerão o sucesso final dessas batalhas, nem o advento do tipo de sociedade com que sonhamos. O que conheceremos será apenas a experiência dessas lutas e seus resultados nunca definitivos. Consequentemente, o anarquismo, social ou não, organizado ou não, está, em última instância, modificando o presente – uma modificação necessariamente local e parcial – na qual devemos apostar, fazendo ouvidos moucos aos cantos das sereias totalizantes, e abandonando as ilusões escatológicas: se o comunismo libertário generalizado não pode ser estabelecido, nem toda a humanidade, nem uma sociedade particular, ser anarquista, o que pode o anarquismo reivindicar e o que nos resta?

Bem, mesmo assim, ainda temos a luta contra a dominação em suas múltiplas facetas, e isso inclui, é claro, o domínio da esfera econômica, embora vá além desta amplamente. Ficamos também com a transformação do presente, sempre localizada e parcial, mas radical, e isso inclui também a nossa própria transformação. E nos resta, enfim, a saída de nosso confinamento, de nosso gueto, para atuar junto com os outros, não para convencê-los, mas para aceitá-los; não por uma preocupação estratégica, mas por princípios.

Agir com outras pessoas? Pois é, camaradas que lutam no seio do anarquismo que se proclama “organizado”, agir com os outros, como vocês costumam fazer, e isso os honra, também significa agir com anarquistas que não se inscrevem sob a bandeira de organizações que afirmam ser “anarquismo social”, mas que, longe de se refugiarem na esfera privada, são também comprometido com lutas radicais. Na verdade, como quase sempre acontece com as dualidades, a dicotomia sugerida por Bookchin distorce a realidade porque não existem duas categorias de anarquismo, mas um continuum. Encontramos, em um extremo, um anarquismo de estilo de vida retraído em si mesmo e totalmente indiferente às lutas sociais, enquanto, no outro extremo, existe um anarquismo social impenetrável à qualquer coisa que não seja a luta social contra o capital. Entre esses dois extremos, se desenrola uma extensão onde estão representadas todas as dosagens entre os dois tipos de anarquismo.

O que cria a dicotomia, pela simples razão de que só deixa em aberto duas possibilidades, é a possibilidade de pertencer ou não a uma determinada organização. Mas se a dicotomia se origina desse fato, obviamente não pode funcionar dizer que o “anarquismo social” se encontra de um lado, e que o que se encontra do outro não é social.

O mesmo ponto pode ser aplicado à expressão “anarquismo organizado”. Não existe anarquismo organizado, por um lado, e um que não é, por outro lado. É claro que você tem que se organizar e que o desenvolvimento de qualquer tipo de atividade coletiva exige sempre alguma forma de organização, bem como o desdobramento de determinada atividade organizacional, mesmo que seja apenas para editar algumas folhas ou para debater um tema. Portanto, a questão não é organizar ou não, mas como organizar? E a resposta é que, para sabermos nos organizar, é preciso sabermos a razão pela qual queremos nos organizar. Isso condiciona a forma da organização.

O modelo tradicional pressupõe a criação de uma estrutura permanente, estável e abrangente, articulada em torno de bases programáticas e objetivos comuns de caráter suficientemente geral para que a estrutura tenha uma perspectiva temporal ampla. É um modelo pouco condizente com as condições sociais atuais, e que perdeu muito de sua eficácia, em tempos que correm sob o signo da velocidade, caracterizados pela rapidez das mudanças. A realidade atual exige modelos muito mais flexíveis, mais fluídos, orientados por objetivos simples de coordenação para realizar tarefas concretas e específicas. Na medida em que, para ser eficaz, a forma da organização deve ser adaptada à natureza das tarefas e aos objetivos para os quais é criada, e na medida em que estes são diversos e, por vezes, variáveis ​​e transitórios, é uma multiplicidade de formas organizacionais que devem coexistir da maneira mais complementar possível, não hesitando em desaparecer ou transformar-se ao ritmo das mudanças e acontecimentos sociais.

A questão da organização provavelmente deve ser repensada e ressignificada, no estilo do que aconteceu com o conceito de ‘revolução’, não para proclamar a ausência ou inutilidade da organização, mas para renovar seu conceito, suas formas e suas práticas. É claro que o fascínio atualmente exercido, em certos setores militantes, pelo antigo modelo de organização – criado como uma panaceia para aumentar a eficácia e difusão do anarquismo – não facilita em nada essa tarefa. Os esforços dedicados à construção de uma organização anarquista e a prioridade dada a essa tarefa se desviam de outras tarefas focadas mais diretamente nas lutas, e alimentam a ilusão de que as dificuldades que afligem as lutas atuais se devem principalmente à ausência de uma grande organização libertária e que irão desaparecer assim que esta vier à luz.

A preocupação com a organização e a atividade organizacional deve ser constante para que as atividades coletivas possam ser desenvolvidas. No entanto, isso é muito diferente de tentar construir uma organização. É por isso que o uso da expressão “anarquismo organizado” é enganoso. Esta expressão se refere, na realidade, ao anarquismo enquadrado em uma organização clássica, ou ao anarquismo focado no esforço de construir tal organização,e sugere que, não importa quão altamente organizados certos grupos ou coletivos anarquistas sejam para realizar tarefas concretas e específicas, eles não fazem parte do anarquismo organizado.

Expressão enganosa, mas também perigosa, porque introduz, como quase todas as dicotomias, uma dissimetria de valores e uma hierarquia entre os dois polos da dualidade criada. Assim, uma vez que organizar é obviamente um valor positivo, o anarquismo válido é o anarquismo organizado e o outro tipo de anarquismo é desprezível. Obviamente, a diferença entre eles não se deve ao fato de serem organizados ou não, ambos o são, mas porque um faz parte de determinada organização ou busca construí-la, e o outro não. Mas, é claro, se as coisas fossem ditas dessa forma, o efeito avaliativo e hierárquico que emana da expressão “anarquismo organizado” se perderia e o chamado para construir “a organização” seria enfraquecido. Minha maneira de tratar essa questão não deveria ser interpretada como um apelo por um anarquismo travado na esfera individual e relutante a qualquer ação organizada. Com efeito, questionar a dicotomia criada pela referência ao anarquismo social e ao anarquismo organizado não significa dizer que o anarquismo não deva atingir uma projeção social e, mais precisamente, uma projeção nos movimentos sociais. Se o anarquismo ressurgiu hoje, é justamente porque esteve presente nas grandes mobilizações populares deste início de século; e é óbvio que, se o anarquismo quer ter algum tipo de validade, deve permear o mais amplo movimento social possível – como, por exemplo, o anarquismo espanhol fez até o final dos anos 1930. Isso implica, é claro, que esses movimentos não podem ser compostos principalmente por anarquistas, nem devem ser especificamente anarquistas. Essa impregnação libertária, pela presença de militantes anarquistas, bem como de pessoas e grupos que atuam de forma libertária, mesmo que não se definam como tal, pode ser observada mais recentemente nas mobilizações massivas que não param de crescer e se radicalizar na França, de 2008 até hoje; contra a construção de um aeroporto em Notre-Dame-de-Landes, na Bretanha; ou nas mobilizações contra despejos na Espanha. Se o anarquismo contemporâneo muda, é precisamente porque está envolvido, com outros grupos, nas lutas atuais e porque incorpora ao seu próprio passado as principais características dessas lutas. Em sintonia com essas lutas, o neo-anarquismo participa de seu imaginário e incorpora alguns de seus aspectos a um imaginário anarquista que não pode deixar de ser modificado. Em última análise, o anarquismo que muda é o anarquismo que luta e que luta no presente.

Para Ler Mais:

O Anarquismo como Catapulta: Entrevista com Tomás Ibáñez

“Anarquismo es Movimiento” – livro completo em espanhol




Fonte: Faccaoficticia.noblogs.org