Outubro 8, 2021
Do Jornal Mapa
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«A rua está morta. Esta descoberta coincidiu com tentativas frenéticas para que ela seja ressuscitada.»
Rem Koolhaas

Enquanto a metrópole se espalha indefinidamente…
A metrópole é o território por excelência do «tempo moderno», no qual reina, autista e solitário, o indivíduo. «Metrópole» e «indivíduo» não são mais do que o corolário natural dos processos que abalaram a longa história da modernidade: o advento do trabalho assalariado e da produção massificada de mercadorias, a expansão das mobilidades, a explosão dos «mass media», a «revolução digital» (computador, internet, «smart phone», «redes sociais»), etc. Estes processos, que promoveram a vertiginosa «aceleração» que modificou profundamente as formas de viver e da qual hoje tanto se fala 1, são igualmente constitutivos do capitalismo. As resistências que o capitalismo encontrava na «velha» cidade, como eram a memória, a comunidade ou a identidade, desaparecem da geografia metropolitana. Encontrando-se num estado de expansão permanente, a metrópole é uma expressão da hegemonia e do gigantismo do projecto capitalista. Se no capitalismo os lucros devem crescer incessantemente, também nas suas geografias se devem multiplicar permanentemente os investimentos. Desta forma se explica porque é que cada metrópole aspira a um crescimento incessante que a faz acabar por unir-se com metrópoles «vizinhas». Nascem assim as «megalópoles». Unificam geografias e populações incomensuráveis, devorando pelo caminho milhares de cidades, vilas e aldeias. A inauguração, em 2018, do sétimo anel rodoviário de Pequim, com a espantosa extensão de 940 km, revela a escala actual do fenómeno.

Se os impactos da «metropolização» afectaram em primeiro lugar as grandes cidades, eles abalam hoje igualmente as mais pequenas, onde os arrabaldes campestres, subitamente terraplanados, vêem também brotar modernas «zonas» urbanas – residenciais, comerciais, industriais, empresariais, hospitalares, lúdicas –, ligadas entre si por redes viárias cada dia mais congestionadas, que fazem das ruas espaços mortos que apenas se atravessam. Este zoneamento do território, que define a organização geográfica de qualquer metrópole, serve hoje de modelo a uma infinidade de cidades de pequena dimensão, como Leiria, Santarém ou Coimbra. Estas tornam-se assim «metrópoles emergentes», onde é desagregada a comunidade e encolhida a espacialidade dos habitantes, à medida que se alarga a extensão dos seus trajectos diários, bem como a dependência do automóvel. Como as grandes metrópoles, também elas exigem aos habitantes que se entreguem à vertigem da circulação solitária e frenética entre não-lugares igualmente despersonalizados, nos quais deverão sobretudo realizar tarefas produtivas e consumos instantâneos. A velocidade e as mobilidades deixaram de constituir uma obsessão exclusiva das metrópoles de maior dimensão, que a enorme concentração de movimentos pendulares ameaça de paralisação e colapso. A mesma neurose apoderou-se dos decisores políticos que planificam as pequenas urbes. A verdade é que até vilas e aldeias, onde praticamente já ninguém se desloca a pé, se assemelham cada vez mais a minúsculos embriões de metrópoles: nas margens do central e pitoresco largo da igreja, que é devidamente patrimonializado para alimentar formas incipientes de turismo e gentrificação, surgem novas «zonas» desenhadas a régua e esquadro, como bairros residenciais de vivendas ou até miniaturas de «parques industriais e tecnológicos».

Um mesmo «modelo metropolitano» comanda agora o desenho de todas as aglomerações humanas, independentemente da sua escala. O irrompimento na província deste modelo não deve ser simplesmente visto como o resultado da supostamente interminável explosão geográfica das grandes cidades. Porque «a metrópole brota já espontaneamente em todo o lado». E mesmo a centenas de quilómetros das grandes urbes. Se quisermos ser rigorosos, o que está hoje verdadeiramente em expansão é o território superplanificado da metrópole – desenhado para impedir que possam germinar relações sociais e que os habitantes ocupem o seu tempo com actividades anti-utilitárias – e não aquele, rico em relações e encontros, que caracteriza a cidade. A propagação da metrópole, cujos longos tentáculos alcançam geografias cada vez mais distantes, aí criando novas centralidades, contribui para desertificar a cidade. Esta torna-se obsoleta na sombra dos viadutos, dos shoppings, dos hipermercados e dos loteamentos que animam os jovens núcleos suburbanos das «metrópoles emergentes».

Montjuic, Barcelona, 2015 (Fotografia de Dani Alvarez)

… a cidade obsoleta é revalorizada
No entanto, um outro processo de génese mais recente marca igualmente a conjuntura urbana actual. Enquanto a periferia impessoal, cada vez mais difusa e infra-estruturada, se torna o novo «centro» da vida urbana, os antigos centros citadinos em decadência despertam agora o interesse do investimento capitalista, que durante décadas os ignorou. Isto sucede porque permitem criar mercadorias que são impossíveis de conceber na fria e eficiente metrópole, preocupada acima de tudo com o desempenho. Se até há poucos anos era lucrativo arruiná-los, transferindo as suas dinâmicas de emprego, habitação ou comércio para novos pólos fabricados à pressa na periferia onde, livre de obstáculos, o capital encontrava formas mais eficazes de se multiplicar, agora é o mesmo capital que, robustecido pelos seus investimentos metropolitanos, reocupa na cidade as ruínas que ele próprio gerara – e onde se haviam entretanto instalado formas de vida minoritárias, animadas por imigrantes, subculturas, comunidades lgbt e artistas. É então que investidores, empresários, construtores, credores, seguradoras e poderes públicos, operando coligados, decidem investir no interior desprezado das cidades, que preservava ainda um (último) elemento que não tinha sido trasladado para a metrópole: a «cultura». E é precisamente em torno desta que irão gravitar os seus investimentos e negócios.

Empreendem-se assim dispendiosas operações de «reabilitação urbana» que mobilizam elementos culturais preexistentes muito diversos, como são o património construído (monumentos, arquitecturas, paisagens), a gastronomia, mas também a própria vida artística (exposições, performances, concertos), intelectual (tertúlias, livrarias) e boémia (bares e cafés). Permitem assim que promotores imobiliários anunciem luxuosos apartamentos como parte de um lifestyle cosmopolita, ainda que esses projectos imobiliários acabem por expulsar os antigos moradores e erradicar a(s) cultura(s) preexistente(s), ao redireccionarem a oferta habitacional para um pequeno segmento do «mercado» 2. A finalidade das operações de «requalificação» passa por criar territórios carismáticos, diferenciados, fotogénicos e animados, capazes de promover uma ilusão de cosmopolitismo e comunidade que não é possível simular no território metropolitano – onde o isolamento social e afectivo prolifera no meio de um deserto cultural. Incluem a repavimentação e arborização de ruas, o alargamento de passeios, a melhoria na mobilidade para peões, mais áreas verdes e de lazer, novas ciclovias, a requalificação de praças e frentes ribeirinhas, o restauro de monumentos, a electrificação de autocarros, melhor iluminação, o aumento dos pontos de acesso a Wi-Fi gratuito, a oferta de postos de carregamento eléctrico para abastecer frotas de car sharing, etc.

Os abundantes projectos de arquitectos, paisagistas e designers adoptam um minimalismo que exclui astuciosamente as possibilidades de permanência em espaços públicos a quem esteja habituado a vaguear pela cidade, sem nada desejar consumir.

Graças à implementação destas «práticas virtuosas», que também replicam as doutrinas «sustentáveis» e «responsáveis» do «capitalismo verde» e do «capitalismo ético», os territórios esquecidos das cidades tornam-se aprazíveis e atraentes a uma burguesia que se fartou do ambiente monótono da periferia metropolitana. Este segmento da sociedade, maioritariamente constituído por assalariados qualificados, investe fervorosamente em consumos de ordem cultural, entendidos como vectores de diferenciação social. É para satisfazê-lo que se elimina desses territórios (escondendo-se algures no espaço desigual da metrópole) aquilo que é por ele considerado desagradável: prostituição, pobreza, tráficos, contaminações, degradação material, etc. Por outro lado, os abundantes projectos de arquitectos, paisagistas e designers, enquanto impregnam esses territórios da estética que define a «cultura da agradabilidade» – bem analisada pelo filósofo Byung Chul-Han 3 – que é cada vez mais cara às classes médias ocidentais, adoptam um minimalismo que exclui astuciosamente áreas confortáveis de repouso e assim reduz as possibilidades de permanência em espaços públicos a quem esteja habituado a vaguear pela cidade, sem nada desejar consumir. Hostilizam em particular drogados, gangues, alcoólicos, imigrantes, refugiados e sem-abrigo. Fazem assim das cidades requalificadas espaços «harmoniosos», privados de elementos dissonantes. E criam, no coração da metrópole gigante e desconfortante, um paraíso circunscrito de bem-estar consumível: aprazível, higienizado, publicitável e permanentemente acessível (a quem tenha dinheiro), a «cidade-marca».

Barceloneta, Barcelona, 2015 (Fotografia de Dani Alvarez).

A «cidade-marca» é o contrário da polis
A cidade torna-se um «produto»: possui um projecto, uma estratégia e um público-alvo; é objecto de branding e de marketing. Já não é concebida pelo poder público – cujo papel é sobretudo o de alavancar investimentos privados – como prestadora de serviços aos cidadãos. Projecta-se agora enquanto território capaz de atrair e activar as dinâmicas do mercado. É a esta luz que deve entender-se a dinamização cultural que as autarquias imprimem às suas cidades, quando promovem feiras de arte, «Semanas de Moda» ou festivais gastronómicos. Visam criar uma imagem de dinamismo e modernidade, apta a tornar os seus territórios competitivos. Comprometida com políticas de promoção turística e captação de investimento externo, a cultura confunde-se então com «marketing». É ela que permite a concepção das cidades como «marcas», através de campanhas que inventam logotipos comerciais e motes publicitários inspirados em empresas multinacionais: «Dallas: big things happen here», «I amsterdam», «Yes we Cannes», «Edinburgh: inspiring capital», «Stockholm: the capital of Scandinavia», «Porto.», «Madrid: about you».

Esta política de tratamento diferenciado do espaço urbano, que concentra os investimentos em zonas cuidadosamente seleccionadas, fragmenta o território e incrementa as desigualdades sócio-espaciais. Faz coexistir intervenções pontuais, muito mediatizadas, com áreas envolventes degradadas, completamente desprezadas. Traduz-se assim, como escreve o geógrafo David Harvey, «na forma de uma cidade dupla, com a regeneração de um centro de cidade decadente e um mar circundante de pobreza crescente». As «classes improdutivas», compostas por quem, pela sua baixa qualificação, o sistema produtivo deixou de dar oportunidades (para lá de biscates precários nos «flexíveis» sectores da limpeza e da construção), são mantidas longe da vista burguesa. Isolam-se algures na metrópole em bairros devidamente segregados da rede de serviços, acessibilidades, equipamentos urbanos e espaços públicos. É nestes «bairros-guetos» que encontra o seu lugar o sector cada vez maior da população que está em excesso do ponto de vista do funcionamento da economia capitalista, dispensado que está da participação no cada vez mais mecanizado, automatizado e informatizado processo produtivo e não conseguindo praticamente integrar o mercado de consumo. Despojada de qualquer estatuto cívico e representatividade democrática, e habitando conjuntos habitacionais quase sempre degradados, uma parte dos seus habitantes encontra no motim urbano uma forma desesperada de reivindicação política, como se verificou em Londres em 2011 e em Paris alguns anos antes.

É este o contexto em que se dá a tão celebrada «regeneração» da velha cidade. Não é, pois, enquanto polis, plural e integradora, que esta renasce, mas enquanto mercadoria exclusiva e excludente, que se vende a uma classe média que encontrou no acesso à cultura a sua última fonte de distinção. Este novo território do consumo hedonista 4propõe à burguesia surpreendentes mercadorias culturais, que partilham uma mesma estética glamourosa, como restaurantes e cafés chiques com propostas gastronómicas originais, alojamentos locais em edifícios charmosos, boutiques de roupa ousada, bares com decorações invulgares, lojas de mobília vintage, «mercearias finas». Ele prescinde do espaço público que era, historicamente, o elemento vital das cidades, sinónimo de interacção, socialização e até miscigenação. Sem aquele, estas não seriam sequer possíveis, já que nenhuma cidade foi jamais constituída pela mera soma de espaços e investimentos privados. No espaço público, cada qual era obrigado a confrontar-se com o «estranho», o «contrário», o «diferente». Tratava-se do espaço múltiplo e contraditório que tornava possível a inscrição da democracia na vida quotidiana.

Miradouro das Portas do Sol, Lisboa, 2016 (Fotografia de Dani Alvarez).

Espaços «ideais» da «modernidade capitalista»
A cidade requalificada substitui este espaço público diverso e heterogéneo – que propiciava a criação de redes de convívio, solidariedade e partilha – pelo espaço autoritário, homogéneo e narcísico da mercadoria, onde, remetido para a sua vida privada, cada um é compelido a ocupar-se apenas de si próprio, como se não existissem outras vidas. O transeunte perde assim contacto com os «outros» (grupos e identidades) 5, não circulando senão para encontrar-se a si próprio, nos espaços que lhe vendem as mercadorias que mobiliza para a sua realização individual. É a esta luz que se compreende que a metrópole – que deve apenas ser rápida e friamente atravessada, passando quase despercebida a sua materialidade – e a cidade requalificada – que, pelo contrário, apela a um abrandamento, podendo ser cuidadosamente admirada, saboreada e fotografada – formam hoje, de um ponto de vista económico, e apesar das suas manifestas diferenças sócio-culturais, um perfeito continuum: um território que, estendendo-se desde os bairros gentrificados e turistificados nas prestigiadas «zonas históricas» dos quais foi excluída a circulação automóvel para promover a «qualidade de vida», até às urbanizações periféricas quase apenas acessíveis por autoestradas que brutalizam a paisagem e retalham o território, multiplica ininterruptamente os mecanismos de extracção de valor.

Metrópole e cidade requalificada são espaços «ideais» da «modernidade capitalista». Promovem a ruptura do elo social (que alicerçava a «polis» e a «civitas») e a consumação do eu separado.

Exclusivamente preocupada em satisfazer os requisitos do lucro, a sua gestão dispensa a participação da comunidade, que ambas contribuem para fragmentar e dividir. A vida cívica eclipsa-se sob o reinado ditatorial da economia, tornada a finalidade suprema da vida urbana – e da vida em geral. Faces complementares de um mesmo processo genuinamente «moderno» de decomposição colectiva, metrópole e cidade requalificada constituem os dois primeiros territórios urbanos a serem integralmente concebidos e fabricados pelo capitalismo. São por isso espaços «ideais» da «modernidade capitalista». Promovem a ruptura do elo social (que alicerçava a polis e a civitas) e a consumação do eu separado. E assim completam essa longa construção histórica que é o «sujeito moderno»: atomizado, egoísta, narcisista e desqualificado politicamente.


Texto de Pedro Duarte, blog ‘l’obéissance est morte’
Fotografia [em destaque] de Joan Villaplana, Centro financeiro de ‘La Défense’, Paris, 2009


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020 | Fevereiro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt