Abril 8, 2021
Do Passa Palavra
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Por Ricardo Mezavila [*]

O coletivo do Passa Palavra, entendendo ser necessário promover um debate o mais amplo e plural possível sobre o restabelecimento dos direitos políticos de Lula e a possibilidade de que volte a disputar a Presidência da República, decidiu pedir a alguns de seus colaboradores frequentes que escrevessem textos sobre o assunto. Esperamos que esses textos e o debate por eles suscitado possam estimular a reflexão em torno dos desafios com que depara a esquerda no momento.

Mais de três décadas se passaram desde a histórica eleição presidencial de 1989, a primeira depois da restauração democrática, após vinte e um anos de ditadura militar. A partir de então, o Partido dos Trabalhadores estabeleceu-se como o principal partido de oposição do país, sua estrutura partidária evoluiu e sua militância cresceu. O ex-metalúrgico e líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva esteve no cerne de todas as oitos eleições nesse período. Perdeu duas em primeiro turno, uma em segundo turno, venceu duas eleições como candidato, fez sucessor em outras duas e não participou da última, mas o candidato do seu Partido chegou ao segundo turno.

Com a possibilidade de conquistar seus direitos políticos em definitivo, Lula coloca-se mais uma vez como o principal candidato de oposição, tanto da esquerda, como da direita e do centro. Não apareceu ninguém capaz de enfrentar o establishment com a envergadura de Lula? A esquerda alimentou e deu oportunidade à classe trabalhadora, realizou sonhos e deu dignidade aos historicamente excluídos, as minorias se viram representadas e toda a sociedade experimentou momentos únicos de otimismo e desenvolvimento real.

A dependência de Lula nos mantém sentados na poltrona

Paralelo ao novo mundo onde o pobre passou a ser consumidor e peça fundamental no giro da economia, a escuridão permaneceu sem ser provocada a acender suas velas e revelar o passado de dominação e extermínio daquele novo comprador, cliente, freguês e usuário. É compreensível que o status prevalecesse, a princípio, sobre o estudo crítico de como a sociedade foi organizada e o que teria de ser feito para que ela fosse transformada. Foi assim quando ocorreu a revolução industrial, as vagas na produção formaram operários especializados, o furacão capitalista se sobrepôs ao contexto decadente, mas a classe operária se organizou criando sindicatos.

Talvez a origem sindical de Lula nunca tenha saído dele, mesmo quando era assediado por líderes mundiais, quando era elogiado por Obama como o “político mais popular da Terra”, quando participava como convidado de encontros do G7, quando atravessava o corredor da Universidade de Lisboa pisando sobre as capas atiradas pelos estudantes perfilados. A essência de Lula é a do torneiro mecânico, do marido e pai que bate o ponto e passa na padaria e no açougue antes de ir para a casa. Coube a Lula a função de garantir o sono do homem e da mulher trabalhadores que colocam a cabeça no travesseiro tranquilos por poderem cumprir com suas responsabilidade perante seus filhos.

Durante todo esse tempo ficamos admirados com a força e superação de um nordestino que subiu a rampa do Palácio do Planalto, que foi festejado, perseguido e preso, mas em que em momento algum deixou de pensar no bem-estar social do mais necessitado.

A dependência de Lula nos mantém sentados na poltrona

Perdemos tempo aplaudindo Lula e não fomos capazes de abrir a cortina e contar outra história, com o protagonismo de outros personagens. Será que somos tão dependentes que não conseguimos preparar alguém que não tivesse corrido o risco de morrer de fome aos cinco anos de idade? Lula está de volta e sua presença necessária é um remake do que fomos durante esses anos todos. A classe política precisa fortalecer os Partidos e seus Programas e não os seus candidatos. Se não mudarmos esse roteiro, quebrarmos a corrente ou desviarmos o curso da história, outras gerações conhecerão o que é um golpe, uma operação Lava Jato, um genocida.

[*] Ricardo Mezavila é cientista político.

As imagens que ilustram o texto são da autoria de Hugo Simberg (1873-1917)




Fonte: Passapalavra.info