Janeiro 15, 2021
Do Passa Palavra
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Por Leonardo Gomes Miranda

Foi uma ótima surpresa ler o texto A pandemia e o fracasso político da existência gay, de Jorge Luiz, neste site. O autor fala das aglomerações vistas em festas gays em alguns centros urbanos e expõe a tese de que o desrespeito a normas de isolamento social, algo característico de negacionistas e conservadores aloprados, só fortaleceria, ainda que indiretamente, um modelo político que sempre atacou minorias, incluindo o próprio público LGBTQ. Tratar-se-ia, portanto, de um boicote autoimposto.

Achei a tese sedutora. Afinal, a premissa maior dela é a necessidade de isolamento social em uma época de recrudescimento de casos e hospitalizações, o que não se discute. A conclusão do raciocínio, embora mais discutível, e que não decorre necessariamente dessa premissa, é a de que o descumprimento de normas sanitárias por minorias acaba tendo um efeito político adverso e imprevisto sobre elas. No entanto, penso que a causa dessas aglomerações nesse momento inoportuno, e não a consequência delas, é de fato o problema sobre o qual devemos nos debruçar.

É inegável que a existência gay em centros urbanos gira em torno de festas e baladas. Sufocados pelo preconceito diário, cansados dos cálculos que têm de fazer a todo momento sobre o custo de exporem sua sexualidade no trabalho ou mesmo na família, alguns indivíduos veem esses momentos de lazer como uma oportunidade de escapar do fardo de ser diferente. Esses locais são para muitos gays a única oportunidade de existir em sua inteireza.

Infelizmente, a necessidade de isolamento social imposta pela pandemia acabou privando muitos gays dessa única rota de fuga e, em alguns casos, os trancafiou em lares homofóbicos, com parentes fundamentalistas. Com o passar do tempo, a pressão de estar em uma situação que já seria muito difícil de suportar passa a ser intolerável com a impossibilidade de manter uma vida social que os distraia de seus problemas. A solução adotada por muitos passa a ser então a ida a festas, um estilo de vida já conhecido e que lhes traz algum conforto.

Não há aqui uma tentativa de justificar festas e aglomerações em uma pandemia, o que pode implicar, na prática, a morte de outras pessoas. Seria raso também dizer que todos que se aglomeram são pessoas de alguma forma expostas a situações de extremo estresse decorrente de preconceito de gênero. Apenas se aponta aqui que o problema é muito mais complexo do que apenas afirmar que tais pessoas são irresponsáveis e endossam um projeto político violento e homofóbico. A pandemia só deixou mais visível algo que já existia antes dela e que continuará a existir depois de seu fim. É necessário se perguntar por que as pessoas se engajam em tais comportamentos e, o mais importante, por que a única opção para algumas delas é participar de tais festas. O que está acontecendo em suas vidas e seus lares? Por que não conseguiram ajuda? Por que não encontraram outros lugares de acolhimento além de festas?

É muito sintomático que festas como as que foram noticiadas na mídia ainda sejam o principal lugar de convivência social do público LGBTQ. O caminho não passa por apontar dedos para uma classe inteira, e tentar imputar a ela uma responsabilidade adicional à do resto da sociedade, mas sim por tentar compreender por que a luta pelos direitos LGBTQ ainda não refletiu com seriedade sobre a razão de o culto ao hedonismo descompromissado ainda ser a principal característica dessa comunidade. Talvez seja o momento de problematizar alguns lugares-comuns que ouvimos e nos quais passamos a acreditar sem questionamento. Será que somos realmente tão mais aceitos na sociedade do que antigamente? Por que só festas acolhem homossexuais, e não a família ou a igreja?

O papel central que festas ainda possuem na comunidade LGBTQ pode ser um sinal de que tais eventos ainda funcionam, em pleno 2021, como lugares de liberação sexual e comportamental. Ou seja, ainda é necessário que existam, e isso deve nos incomodar. Não que estejamos pregando um movimento LGBTQ sisudo e chato, mas devemos nos questionar por que ainda precisamos nos refugiar em tais lugares. Por enquanto, precisamos nos manter isolados, e deve ser assim até o fim da pandemia, mas as imagens vistas de aglomerações em festas gays nos fazem questionar o quão livres realmente somos ou se ainda somos vistos, ou pior, ainda nos vemos, como um gueto que se contenta com a balada como prêmio de consolação após uma semana inteira de opressão.




Fonte: Passapalavra.info