Julho 15, 2022
Do Passa Palavra
292 visualizações

Por Michael Shellenberger

O Sri Lanka faliu. No sábado, milhares de manifestantes invadiram o palácio presidencial. Enquanto a multidão ressentida e enfurecida nadava na piscina do presidente, cozinhava em seu gramado, relaxava em sua cama e punha fogo em sua casa, o presidente era evacuado por um navio na costa do Sri Lanka.

O motivo imediato para o caos é a falência do país, que sofre sua pior crise financeira em décadas. Milhões de pessoas pelejam para comprar alimentos, medicamentos e combustível. Entre junho de 2021 e junho de 2022, os preços dos alimentos subiu em 80%. No último mês, a inflação anual atingiu quase 55%. Desde o começo da pandemia, meio milhão de pessoas caíram na pobreza.

Se você nunca prestou atenção à ilha junto ao litoral sudeste da Índia, pode pensar que as coisas são assim mesmo em países em desenvolvimento. Mas a verdade é que o Sri Lanka vinha se reconstruindo gradualmente — depois de décadas de guerra civil e autoritarismo – e então isso aconteceu. Nós, o Ocidente, temos muito a ver com isso.

A razão subjacente para a falência do Sri Lanka e a queda de seus líderes — começando pelo ex-presidente, Maithripala Sirisena, e depois seu sucessor, o recém-deposto Gotabaya Rajapaksa — tem a ver com o encanto das elites verdes do Ocidente, que promovem a agricultura orgânica e a ESG [1], que diz respeito a investimentos pautados em critérios mais nobres: ambientais, sociais e de governança. O Sri Lanka possui um score ESG quase perfeito (98) — mais alto que o da Suécia (96) e o dos Estados Unidos (51).

O que significa ter um score ESG tão alto? Em suma, significa que os dois milhões de agricultores do Sri Lanka foram forçados a deixar de utilizar fertilizantes e pesticidas, arruinando este setor fundamental da economia (pouco importa que o Índice ESG S&P tenha excluído a Tesla, mantendo a Exxon Mobil no top 10, nada disso faz muito sentido).

Na verdade, outros fatores estão por trás da falência do Sri Lanka. Lockdowns causados pela covid e um atentado a bomba em 2019 prejudicaram o turismo — um ramo que costuma gerar entre 3 bilhões e 5 bilhões de dólares ao ano. O Sri Lanka contraiu uma enorme dívida externa, tomando emprestados bilhões de dólares à China, como parte da Belt and Road Iniciative [2]. Os custos do transporte decolaram, aumentando 128% desde maio, devido ao aumento do preço do petróleo. Tendências econômicas de fundo também não têm ajudado: desde 2012, tem havido uma queda no crescimento.

Mas o principal problema do Sri Lanka é o banimento, aprovado no ano passado, de fertilizantes químicos, central para o esforço do país de adequar-se à ESG.

As estatísticas são chocantes.

Um terço das terras cultiváveis do país permaneceu ocioso em 2021 devido à proibição do uso de fertilizantes. 90% dos agricultores do Sri Lanka usavam fertilizantes químicos antes da proibição. Depois da proibição, houve uma surpreendente queda de 85% nas colheitas. A produção de arroz caiu em 20% e os preços subiram vertiginosamente em seis meses, para 50%. O Sri Lanka teve de importar 450 milhões de dólares em arroz, embora fosse autossuficiente poucos meses antes. O preço das cenouras e dos tomates aumentou em cinco vezes. Tudo isso abalou drasticamente as vidas de mais de 15 milhões de pessoas, num país de 22 milhões de habitantes, que dependem direta ou indiretamente da agricultura.

As coisas ficaram ainda piores para os pequenos agricultores. Na região de Rajanganaya, onde a maioria dos agricultores cultivava lotes de dois acres e meio [3], famílias de agricultores relataram uma queda de 50% a 60% nas colheitas. “Antes da proibição, este era um dos maiores mercados do país, com toneladas e toneladas de arroz e legumes”, declarou um agricultor no início do ano. “Mas depois da proibição, chegou a quase zero. Se você entra em contato com os fornecedores de arroz, eles não têm nada no estoque, porque as colheitas caíram muito. Os rendimentos desta comunidade inteira caíram para um nível extremamente baixo”.

Mas os danos causados à produção de chá são a chave para a falência do Sri Lanka. Antes de 2021, a produção de chá gerava 1,3 bilhão de dólares em exportações anualmente. As exportações de chá pagavam por 71% das importações de alimentos antes de 2021.

A proibição de fertilizantes, a partir de abril de 2021, mudou tudo. Quatro meses depois de ela entrar em vigor, o presidente, percebendo que as coisas não iam de acordo com o planejado, revogou a proibição à importação de fertilizantes químicos — e então, dois dias depois, a reinstituiu.

Os resultados foram devastadores e amplamente antecipados pelos produtores de chá, com as exportações desabando 18% entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022 — chegando ao seu menor nível em mais de duas décadas.

“Não temos fertilizantes químicos o suficiente”, admitiu Rajapaksa em dezembro de 2021, “porque não os importamos. Existe uma escassez”.

Em maio de 2022, o Sri Lanka deixou de amortizar 77 milhões de dólares de sua dívida externa. A soma pode parecer pequena, levando em conta o quadro geral, mas a inadimplência dificultou a contração de novos empréstimos pelo Sri Lanka. Logo, a moeda do país desvalorizou, a inflação subiu para 30% e o governo ficou sem o dinheiro que precisava para importar combustível, alimentos e medicamentos.

O que exatamente tinham Rajapaksa e outros líderes do Sri Lanka na cabeça? Porque se engajaram num experimento tão radical com o ramo mais importante da economia do país?

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Sri Lanka, como muitos outros países pobres, subsidiou os agricultores para que deixassem de usar biofertilizantes, como o estrume, e passassem a usar fertilizantes químicos, no que ficou conhecido como Revolução Verde (popularizada por Norman Borlaug, agrônomo vencedor do Prêmio Nobel). A produção de arroz subiu rapidamente, e o país superou a escassez crônica de alimentos e começou a obter receitas externas com a exportação de borracha e chá.

Com o crescimento da produção, jovens foram capazes de arranjar empregos nas cidades. Os salários aumentaram tanto que o Sri Lanka tornou-se um país de renda média.

Mas o que parecia um sonho para a maior parte do Sri Lanka era mais parecido com um pesadelo para ambientalistas do Ocidente. Em 1970, Paul Ehrlich, biólogo de Stanford, e outros ativistas passaram a denunciar a Revolução Verde. Eles alegavam que a superpopulação causaria sofrimento e extinção em massa e que a humanidade precisava de uma “triagem”. Em outras palavras, tínhamos de deixar alguns morrerem para que o resto de nós pudesse viver.

Traduzido pelo Passa Palavra, a partir do original em inglês publicado no site Common Sense.

A imagem de destaque é da autoria de Ishara S. Kodikara. A outra, cuja autoria desconhecemos, foi divulgada pela AFP.

Notas

[1] Sigla para Environmental, social, and corporate governance. Em português, Governança ambiental, social e corporativa.
[2] Nova Rota da Seda.
[3] Aproximadamente 1,01 hectare.




Fonte: Passapalavra.info