Dezembro 1, 2020
Do Passa Palavra
236 visualizações


Por Corentin

O dia de 28 de novembro amanheceu ensolarado nas ruas parisienses. O cair das folhas de outono apontava para uma temperatura que oscilaria entre os 12ºC e 1ºC. Apesar desta variação térmica, boa parte da população demonstrava entusiasmo com o início da flexibilização do último confinamento que estava prestes a durar um mês. A abertura do comércio e serviços, além da possibilidade de circulação em um raio de 20 km de sua residência (até então o limite era de 1 km), aqueceu o ânimo das festas de fim de ano diante de uma enfeitada Paris.

Se por um lado o glamour da nova iluminação natalina é ostentada na avenida dos Champs-Elysées, por outro, não menos minuciosamente planejado, ocorre o debate do projeto de lei sobre a “sécurité globale” na Assembleia Nacional. Dentre outras coisas, destaca-se o artigo 24, que propõe mudanças no tocante da lei de liberdade da imprensa criada em 1881. Segundo resolução de tal apontamento, o indivíduo responsável pela “difusão da imagem do rosto ou qualquer outro elemento de identificação de um funcionário da polícia nacional ou guarda militar” é passível de uma pena prevista de um ano de prisão e multa de 45.000 euros. Segundo a lei, o uso de tais gravações poderia “minar a integridade física ou mental” dos profissionais em operação.

Ainda como tentativa de amenizar os entraves com a liberdade de imprensa, o artigo estabelece que, referente às gravações, não “há obstáculo à comunicação às autoridades administrativas e judiciárias competentes”. Desta forma, limita-se sua disseminação por outros meios de divulgação capazes de mobilização popular.

Para além dos rastros de fumaça branca que saem dos aviões e cobrem o céu desta cidade, outro artigo que causou grande reação é o 22, ao tratar da utilização de dispositivos de “caméras aéroportées”. Desta maneira, drones e helicópteros estariam habilitados para capturar imagens visando “a prevenção de atos de terrorismo” ou de situações que “suscitem receio de graves perturbações da ordem pública”.

Pois é diante destes acontecimentos que o último sábado de novembro de 2020 se distende diante das árvores quase desnudas. Porém, não é só a desesperança que marca essa transição entre o verão e o inverno. Apesar da Primavera de Stravinsky soar longe dos dias de hoje, manifestações contrárias a este projeto de lei ocorreram em diversos locais da França. Segundo os organizadores, cerca de 500.000 pessoas participaram dos atos.

Recentemente ocorreram dois fatos que suscitaram ainda mais questionamentos sobre este assunto. Um é a agressão do produtor musical Michel Zecler por três policiais no interior de seu estúdio e o outro é a repressão policial no acampamento de aproximadamente 500 migrantes que ocupavam a Praça da République. Estes acontecimentos ocorreram respectivamente nos dias 21 e 23 deste mês e possuem em comum o uso das imagens como comprovação da violência policial.

Assim, por meio de canções como “Tout le monde déteste la police!” “Todos detestam a polícia”, o boulevard Beaumarchais aglutinava dezenas de milhares de pessoas. Entre as praças da République e a Bastille, os blocos de partidos políticos, sindicatos, associações, organizações estudantis secundaristas, anarquistas e feministas de várias tendências, gilets jaunes (coletes amarelos) e demais correntes políticas se misturavam com a população que seguia o caminho detalhadamente delineado pelo barão Haussmann.

Os vidros dos bistrôs, ainda fechados pelo confinamento, e das boutiques refletiam os muitos cartazes que evocavam os princípios da Revolução Francesa: “Liberté, Égalité, Laisse-nous filmer” (“Liberdade, Igualdade, Deixa-nos filmar”), “Liberté, Égalité, Impunité” (“Liberdade, Igualdade, Impunidade”). Outros cartazes, em referências à obra 1984, de George Orwell, proclamavam: “Big Macron is watching you” e “1984 = 2020”. Ou até mesmo com os dizeres “Eu não sou contra a polícia, tenho um pai policial”. Apesar da ausência de vento, bandeiras vermelhas e pretas, apenas vermelhas ou apenas pretas insistiam em tremular com outros tecidos de composição azul, branco e vermelho.

Resta então saber até quando as fantasmagorias teimarão em permanecer nas encruzilhadas de nosso cotidiano.




Fonte: Passapalavra.info