Abril 21, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
60 visualizações

A Internacional das Federações Anarquistas emitiu um comunicado sobre a guerra na Ucrânia, mas consideramo-lo insuficiente. O Comité de Relações da Internacional das Federações Anarquistas ( IFA ), que se reuniu de 19 a 20 de março, discutiu, entre outras coisas, questões relacionadas com a guerra em curso na Ucrânia. Apesar de em algumas questões as opiniões das federações diferirem, elas concordaram em continuar a discussão. Como resultado dos debates, foram encontradas posições comuns, que foram resumidas numa declaração de compromisso intitulada “Contra a guerra, pela solidariedade global”.

A Federação Anarquista Checa (AF) concordou com a declaração, pois expressa alguns princípios gerais que também são nossos, mas, no entanto, internamente está insatisfeita com ela e, portanto, junta-se a uma discussão mais aprofundada. Participamos numa discussão conjunta, fazendo uma exposição das nossas posições, uma referência às nossas atividades e pontos que consideramos essenciais. Mas este não é apenas um debate interno dentro da Internacional das Federações Anarquistas (IFA): as nossas considerações são dirigidas ao movimento antiautoritário mais amplo, em particular na Europa.

Aqui, sucintamente, estão os pontos a serem discutidos do ponto de vista da AF :

1 – Entendemos a declaração conjunta da IFA como um compromisso, mas que não reflete totalmente nossas posições.

2 – Em primeiro lugar, somos a favor de ouvir a opinião de antiautoritários e anarquistas na Ucrânia, Rússia e Bielorrússia.

3 – Consideramos arrogante e demonstrativo da falta de empatia qualquer desrespeito pelas suas posições e decisões, e também uma expressão de uma superioridade ideológica, o que é inaceitável para nós. O bloco ocidental de países há muito que trata a Europa Oriental desta maneira. No movimento anarquista internacional não podemos tolerar nada semelhante.

4 – Apoiamos totalmente as atividades de combate e não combate de antiautoritários e anarquistas na Ucrânia. Conhecemos as suas posições e os seus dilemas. Respeitamos as suas decisões difíceis. Recusamo-nos a julgá-los ideologicamente, enquanto estamos em locais  seguros onde não há guerra.

5 – Reconhecemos que é do interesse da classe trabalhadora na Ucrânia, assim como na Rússia e na Bielorrússia, repelir a invasão russa da Ucrânia o mais rapidamente possível. A única maneira de parar esta guerra é uma derrota militar do exército russo. Atualmente, não há um movimento antimilitarista suficientemente forte na Rússia e na Bielorrússia para sabotar efetivamente a ofensiva e isso não vai mudar no futuro próximo.

6 – Consideramos vergonhosa a afirmação de que os dois lados da guerra na Ucrânia valem o mesmo. O regime de Putin é incomparavelmente mais brutal do que qualquer democracia capitalista, onde há pelo menos algumas possibilidades para o desenvolvimento de redes e relações antiautoritárias. Além disso, o exército russo não respeita absolutamente nenhuma convenção internacional de direitos humanos; pelo contrário, massacra sistematicamente a população civil para minar o moral dos defensores. Por isso, apoiar a luta armada contra os ocupantes é um dever de todos que não se querem desacreditar totalmente aos olhos dos trabalhadores ucranianos.

7- Não concordamos com a afirmação de que esta é uma guerra entre a Rússia e a NATO. Alguns países da NATO são pró-Rússia (Hungria) e a maioria dos países da NATO mantém algum distanciamento ou aderem a declarações e sanções limitadas para não prejudicarem as suas economias. O apoio real da NATO à Ucrânia é absolutamente miserável, indeciso e com álibis. Com esta abordagem, a NATO sacrificou na prática a Ucrânia, colocando todo o peso da invasão russa sobre a Ucrânia e o seu povo.

8 – Apoiamos ativamente os anarquistas vítimas da repressão na Rússia e na Bielorrússia.

9 – Lamentamos que a nível internacional antiautoritários e anarquistas não tenham uma posição mais clara e em conjunto possam desenvolver formas de apoio mais concretas aos anarquistas dos países afetados. Tememos que as declarações derrotistas desacreditem muitas organizações e coletivos aos olhos dos nossos amigos da Europa Oriental. É lamentável que qualquer falha de comunicação, menos flexível e empática, leve as organizações do Leste Europeu a trabalhar menos estreitamente com a IFA, e que isso, por sua vez, crie um círculo vicioso da crescente influência [na IFA] de federações não diretamente afetadas pelo conflito atual.

Claro que poderíamos continuar, mas consideramos que não é necessário. Queremos ouvir os outros com atenção e mostrar uma solidariedade efetiva em vez de slogans que, diante da realidade, parecem desprovidos de conteúdo. Queremos mostrar que as posições de antiautoritários e anarquistas fora dos centros imperiais da civilização ocidental têm peso e merecem respeito. Entendemos o anarquismo como um conjunto de princípios capazes de responder dinamicamente ao que está a acontecer ao nosso redor, e não como uma ideologia congelada que não tem ligação com a realidade. Defendemos, em primeiro lugar, pessoas e comunidades e não os nossos próprios egos presos em fronteiras ideológicas e culturais.

AF: Contra a invasão, mas sem hipocrisia (Declaração da Federação Anarquista Checa de 25 de fevereiro de 2022 sobre a invasão do exército russo na Ucrânia)

Federação Anarquista Checa

Também aqui: https://avtonom.org/news/na-polyah-odnogo-zayavleniya-cheshskaya-anarhistskaya-federaciya-o-voyne-v-ukraine




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com