Julho 9, 2021
Do Passa Palavra
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Por João Aguiar

Após a instigante reflexão do João Bernardo sobre os gestores ideológicos, acrescento aqui mais algumas considerações.

1. Ainda o identitarismo. Exemplo da transformação da esquerda

Caro João,

A expansão do ecologismo e dos identitarismos não se explica unicamente por serem ideologias pairantes na sociedade. De facto, desde O inimigo oculto que identificaste a existência de gestores focalizados em práticas (e correspondentes mundivisões) fundamentalmente ideológicas. Ideológicas aqui no sentido em que não têm apenas uma função para o capitalismo, mas que o podem encaminhar para uma sociedade meta-capitalista. É nessa tensão entre a função de fragmentarem os trabalhadores no atual capitalismo em múltiplas comunidades fictícias, e a potencialidade de avançarem com um programa genocida/anti-racionalista que me parece que esta camada de gestores desempenha um papel crescente. Claro que, à esquerda, muitos deles derivam historicamente de uma esquerda ortodoxa, mas esta estava ligada ao enquadramento e à regulação da força de trabalho no fordismo (sindicatos, partidos, etc). A função dessa esquerda era controlar as lutas sociais e inseri-las nos mecanismos do aumento da produtividade do trabalho. Apesar de todos os seus vastos defeitos, tinha uma dimensão iluminista, digamos assim, já que contribuía para o avanço da mais-valia relativa.

Hoje, pelo contrário, grande parte do que se convenciona denominar de esquerda transmutou-se num oposto guiado por vários irracionalismos e que se propõem “superar” o capitalismo pela direita. Conforme te recordarás, há dez anos, essa esquerda andava naquela atitude “que se lixe a troika”. Ou seja, tinham e continuam a ter como programa a rejeição liminar do existente (vd. secção 2.3 do meu artigo incial). Sem alternativa dentro do sistema, já que não se relaciona diretamente com os mecanismos da produtividade do trabalho, esta camada limita-se a transformar uma classe social num arquipélago de traços inventados. E que se baseiam em conceções que há algumas décadas eram exclusivo da extrema-direita, como a ênfase e a valorização da raça como uma categoria para ler a sociedade, e como uma categoria política.

Dado o contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, nalguns países alguma extrema-direita só consegue fazer crescer a sua obsessão rácica porque do outro lado tem uma certa esquerda a viver obcecada com a raça. Os supremacistas brancos crescem nas pequenas e médias cidades americanas apoiantes do Trump, ao mesmo tempo que a influência nos media do ativismo do tipo Black Lives Matter determina a agenda política identitária e cultural. Não há hoje muitas séries televisivas que não estejam condicionadas a uma abordagem reverente e submissa quando surgem situações de natureza criminal ou rácica. Não são poucas as personagens ou os atores que têm de pedir desculpa pelo seu “privilégio branco”, como se todos os brancos fossem racistas, como se as classes não se repercutissem em todas os segmentos de uma população, ou como se fosse mais importante assumir a “culpa” de um pretenso privilégio, em vez de se lutar para fazer pontes entre todos os trabalhadores, de todas as cores, orientações sexuais, etc.

Por sua vez, a população que passou a apoiar os supremacistas, ou simplesmente a ficar-lhes indiferente, descreve-se hoje como branca, quanto mais não seja porque os lenhadores, os camionistas ou os operários fabris do Iowa, do interior da Pennsylvania são acusados de “privilégio branco”. É a ênfase na raça, a partir das duas margens do espectro político, que alimenta uma espiral crescente de delírio rácico. Não estou com isto a dizer que ambas as extremidades contribuem igualmente para a ligação de camadas da população a ideários racistas. Para se utilizar um exemplo da historiografia. Há pouco mais de uma década, um historiador escreveu um livro onde, a meu ver, demonstrou como o nacionalismo do Estado Novo não tinha contraponto alternativo na corrente maioritária da esquerda oposicionista do regime. Ou seja, apesar de distintos na sua substância e no seu impacto, os nacionalismos do regime fascista e dos opositores ligados ao PCP (Partido Comunista Português) criavam uma estrutura de pensamento e de ação política encaixada com um ideário nacional. O que deixava a discussão política marcada pelos limites do nacionalismo. Em termos análogos, o mesmo acontece com o identitarismo. Ao racismo dos supremacistas, a esquerda identitária não consegue apresentar e opor uma alternativa classista, mas raciocina e atua a partir do pressuposto da raça: da classificação dos Censos, ao acesso ao Ensino universitário, a quadros na Assembleia da República ou até na transformação de problemas sociais em problemas rácicos (habitação, emprego, pobreza, saúde).

A esquerda radical transformou-se de uma parte do aparelho de Estado na administração da força de trabalho, numa parte heterogénea dos gestores ideológicos. Dos sindicatos para as redes sociais, os trabalhadores tomaram um sumiço.

2. As redes sociais: massa e micro-agressões

João, a pergunta mais importante que me endereçaste foi esta:

“as redes sociais surgiram autonomamente, como um fenómeno de massas crescente, ou não? Parece-me que elas surgiram de baixo para cima, e não de cima para baixo. Sendo assim, como é que os gestores ideológicos podem depender de uma infra-estrutura que, relativamente a eles, nasceu aleatoriamente?”

Mas será que os artífices das redes sociais não foram primeiro as empresas? Por exemplo, o Facebook e outras redes sociais surgiram da ação de gestores. Claro que, na altura do surgimento, não havia maneira de se saber da sua viabilidade futura. Mas havia uma tendência de fundo, isso parece-me incontestável. Os blogues prenunciaram as redes sociais, e hoje em dia quem liga aos blogues? Nesse início do século 21 já havia uma busca pela trollagem na internet. Longe estávamos de saber que a coisa ainda iria piorar muito.

Voltando à tua questão. Não sei se será correto, mas estarão as massas para os gestores ideológicos como a classe trabalhadora está para os gestores clássicos? Ou seja, se para o desenvolvimento do capitalismo e da dinâmica da mais-valia relativa foi absolutamente imprescindível a existência de lutas sociais dos trabalhadores enquanto classe, será que para os gestores ideológicos teremos na desorganização colossal da classe trabalhadora (a massa/as massas) o fermento para o seu ascenso?

É impressionante como, independentemente de upgrades contínuos no capitalismo como a uberização, entre outros, o toyotismo enquanto forma genérica de organização do capitalismo já terá qualquer coisa como quase 50 anos. A absorção das lutas sociais pelo toyotismo foi de tal ordem que continua a evoluir sem precisar de constantes lutas sociais que exijam a evocação económica da classe trabalhadora no que toca a reivindicações. Ou seja, no fordismo, após as derrotas da classe trabalhadora no início dos anos 1920, a presença da (evocação da) classe trabalhadora no campo político e económico era necessária. As reivindicações salariais impulsionavam e pressionavam o desenvolvimento da mais-valia relativa. No toyotismo, após as derrotas das lutas dos anos 1960 e 70, a classe foi tendo um apagão progressivo do discurso político.

Ao mesmo tempo, explode o consumo e o consumismo. E o aumento dos níveis de bem-estar cria novas necessidades, um pouco na lógica do que tentei evocar da dupla espiral com as raízes de costas voltadas. Essa dupla espiral implica que a expansão do capitalismo no plano económico convive com a explosão de irracionalismos, como se a realidade aos olhos de muita gente não dependesse das estruturas materiais. Até a pseudociência se tornou num imenso mercado em crescimento. Ora, muitos destes novos produtos, bens ou serviços surgiram a partir da base, da seleção económica da competição entre milhares de pessoas com ideias de negócio sobre as coisas mais bizarras possíveis. Por exemplo, muito do sucesso das “medicinas” alternativas advém também de médicos, psicólogos e profissionais de saúde que abandonaram carreiras regulares de assalariados para se tornarem mestres do coaching, da acupuntura, da indústria de suplementos, etc. Ou seja, apesar de minoritários relativamente aos seus (anteriores) colegas de profissão, eles tornaram-se em empresários de todo o tipo de tretas. Onde uma perspetiva de classe seria a luta por sistemas de saúde públicos para todos, pela difusão dos conhecimentos científicos e suas aplicações médicas e pela valorização das carreiras dos profissionais de saúde, a transformação da classe numa massa talvez tenha ajudado esta postura de seleção do que viriam a ser alguns dos gestores ideológicos na área da pseudociência.

Outro aspeto muito importante para a formação das massas dos dias de hoje terá sido a vitória do pós-modernismo e da ascensão do Foucault ao patamar do padroeiro dos gestores ideológicos à esquerda. Se o poder está em toda a parte, então tudo pode ser alvo de agressões em catadupa: as micro-agressões. Este enfoque tem, pelo menos, duas consequências.

Em primeiro lugar, implica equivaler as relações sociais estruturantes de uma sociedade capitalista – o trabalho assalariado – a todas as interações inespecíficas e quotidianas. Esta vitória ideológica é um cartão de visita dos gestores ideológicos aos capitalistas. Ou seja, ao diluir os traços do capitalismo, os gestores ideológicos contribuem para fragmentar os trabalhadores.

Por outro lado, em segundo lugar, o enfoque nas micro-agressões introduz o subjetivismo total – o irracionalismo – nas avaliações políticas. Ora, a exploração económica pode ser expressa em termos relativamente objetivos e implica que, na sua perceção, se construa racionalmente um sistema de conexões objetivas. Diferentemente, o subjetivismo das micro-agressões foca-se em detalhes e minudências relacionados com a linguagem, o vestuário, os penteados, as entoações, as vozes de personagens de desenhos animados, estátuas, passagens de personagens em romances, etc. que se torna virtualmente impossível alguém externo ao universo ativista identitário acompanhar todos os procedimentos e códigos tidos por corretos atribuídos pelo universo ativista.

Aqui o poder destes gestores ideológicos reflete-se na difusão de uma outra modalidade de irracionalismo: o moralismo. O incumprimento das normas subjetivistas definidas pelos gestores ideológicos desagua em sanções à margem do sistema legal, que podem ir dos insultos nas redes sociais até ao que no Brasil se denomina de escracho, sem esquecer as pressões para saneamentos laborais de opositores. O que em Foucault era um apontamento teorético, com o ativismo identitário tornou-se numa prática disseminada. Na prática de uma massa, base de manobra para a expansão e para a sustentabilidade futura do poder dos gestores ideológicos.

Em suma, as redes sociais refletem a transformação da classe trabalhadora numa massa, facto aproveitado pelos gestores ideológicos para fazerem avançar os seus projetos políticos. Aliás, importa salientar que também os supremacistas aproveitaram enormemente as redes sociais para os seus projetos. Lembro só o exemplo absolutamente bizarro e demencial do QAnon. Mas poderia também falar nas teorias da conspiração sobre os UFO’s escondidos pelo Deep State, dos governantes que não passariam de reptilianos disfarçados ou do delírio dos chips 5G em vacinas ou do grande Reset.

A profusão de uma multiplicidade de narrativas é um sinal de força dos gestores ideológicos. A transformação da esquerda num dos seus componentes – algo que até há algumas décadas era quase exclusivo de alguma direita – revela um similar e paralelo sinal de força dos gestores ideológicos.

3. Uma classe em vias de se tornar duas?

Tudo o que diz respeito a esta galáxia de narrativas é ainda mais intricado, porque a fragmentação dos trabalhadores propulsionada pelos identitarismos, corresponde a uma fragmentação anexa/paralela das inúmeras instâncias comandadas/administradas pelos multiformes gestores ideológicos (movimentos identitários à esquerda e à direita; pseudociência; ecologistas; supremacistas). Para o capitalismo isto é ótimo porque amplia o mercado de uma maneira espantosa e em infinitos ramos. Esta é a inserção dos gestores ideológicos na atual configuração do modo de produção capitalista: produzir o consenso societal por via do dissenso individual ou tribal. Por outras palavras, nunca a exploração económica foi tão pouco questionada no capitalismo como nas décadas mais recentes. O papel do aumento dos níveis de bem-estar não pode ser menorizado. Tal como o papel das múltiplas narrativas fragmentárias sobre todo e qualquer aspeto de cariz extra-económico, que transformou a classe trabalhadora numa massa.

Mas se isto permite manter as relações capitalistas afastadas de qualquer tipo de polémica ou contestação, existe um outro lado da moeda: a ascensão paulatina de gestores ideológicos rumo a uma autonomização crescente, que se forem capazes de unir os seus ramos principais podem impulsionar lutas por metacapitalismos. No entretanto criam massas, já não uniformizadas, como no passado, mas organizadas em múltiplas comunidades/tribos e que, em determinados momentos, se sobrepõem e comunicam (por exemplo, a defesa de mezinhas tradicionais nos meios identitários ou a contestação ao conhecimento científico). Porém, a criação da realidade da massa que descreves no Labirintos do fascismo está lá. Estará a massa para os gestores ideológicos, como a classe económica para os gestores clássicos e a mais-valia relativa?

Para os gestores ideológicos, a massa não representa apenas uma camada de consumo. Pelo contrário, a massa representa a classe trabalhadora fragmentada tendo o troll como sua figura paradigmática. O troll percorre as redes sociais, descobre piadas parvas, vasculha todo e qualquer pormenor sobre um qualquer fenómeno e, quando escolhido o alvo, atira insultos e arrebanha hordas de correligionários para satisfazerem a sua sede de lapidação. O troll, o conjunto de trolls permite que o mecanismo de produção de conteúdos nas redes sociais se exponencie. O circuito de constante viralização de conteúdos, difusão de teorias da conspiração ou de mera discussão de forma superficial não vive sem o papel do troll na produção de novos conteúdos. Por um lado, o troll é fundamental na descoberta e difusão de novas polémicas. Por outro lado, o troll representa a vitória do irracionalismo no seio do próprio indivíduo. Este aspeto parece-me fundamental. Quando alguém menciona que nas redes sociais as pessoas dizem coisas que face a face não teriam coragem, está-se, na realidade, a assumir que ocorre uma cisão interna no indivíduo com repercussões para a sua própria saúde mental. Mais do que os efeitos psicológicos da participação na difusão e ampliação de conteúdos irracionalistas (anti-vacinas, supremacismo branco, QAnon, identitarismos, catastrofismo ecologista, anti-semitismo), a constituição de uma rede heteróclita de trolls por todo o mundo fomenta uma prática política e social igualmente irracionalista. A própria estrutura das redes sociais (um diário, imediato e constante plebiscito sobre tudo e mais alguma coisa) faz com que discursos científicos estejam em concorrência (quase sempre desfavorável) com todo o tipo de narrativas pseudocientíficas ou irracionalistas. Ora, se a tecnologia das redes sociais facilita a ascensão e o triunfo do irracionalismo, talvez se devam pôr de parte as ilusões de que se trataria de um espaço a conquistar ou reformável.

À disposição de múltiplas e diversificadas instâncias de gestores ideológicos, a massa (de trolls e de simpatizantes) é, em simultâneo, um exército à disposição de uma classe social em ascensão e uma gigantesca pool de recrutamento e de ascensão de novos gestores ideológicos. Aliás, na medida em que as redes sociais penetram empresas, universidades, a sociedade toda em geral, o âmbito de recrutamento para renovação dos gestores ideológicos torna-se muito mais vasto. Ou seja, ainda que as redes sociais sejam economicamente controladas por grandes empresas tecnológicas, o seu controlo semântico e de conteúdos pela massa e pelos gestores ideológicos aparenta demonstrar o ponto de ligação – e de tensão – entre os gestores clássicos e os gestores ideológicos. E dos vasos comunicantes entre ambos. Como identifiquei num artigo anterior, Mark Zuckerberg, criador e principal figura da gestão do Facebook, chegou a ser acusado por compactuar com a proliferação do movimento anti-vacinas, com as diatribes de Donald Trump, entre outros exemplos possíveis. Um gestor clássico mas aberto à influência de uma nova classe em ascensão? Mais do que o caso individual, interessa-me salientar que é aqui, nestes setores tecnológicos, (Google, Facebook, etc.) que estes gestores clássicos sentem mais de perto as transformações sociais. No caso, a ascensão do poder dos gestores ideológicos.

Se se reparar, a mais-valia relativa tem-se expandido e ancorado residência nos setores tecnológicos/digitais, onde a criatividade e o desenvolvimento tecnológico são os recursos primordiais da força de trabalho de engenheiros, criativos e designers. Ora, é do enorme desenvolvimento desta espiral que, de um modo simétrico, ocorre uma explosão da evolução dos gestores ideológicos.

Recorro novamente à minha metáfora das duas espirais, de costas voltadas, em incessante crescimento. Para já, a espiral de cima, a espiral hegemónica é a dos gestores clássicos. Estaremos condenados a um capitalismo imbricado numa expansão simultânea da mais-valia relativa, da mais-valia absoluta e dos irracionalismos? Até quando? E a que custo? Metacapitalismo: mera hipótese teórica ou potencialidade histórica?

A imagem de destaque é um detalhe de uma composição de Dean West. As outras duas são obras, respectivamente, de Michał Biegański e de Matthijs Kok.




Fonte: Passapalavra.info