Abril 5, 2022
Do Passa Palavra
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Por Judite Strozake, María Gabriela Guillén Carías, Maria Orlanda Pinassi e Silvia Adoue

Há tempos que o mundo anda à deriva sem qualquer tipo de controle que não seja contingente. Do ponto de vista do capital, o acúmulo global de crises de toda natureza — social, econômica, política, ambiental, humanitária — necessita, urgentemente, de um comando suficientemente forte para conter as ameaças que isso tudo representa para a reprodução do próprio sistema. Do ponto de vista da humanidade, não seria necessário dizer como é urgente uma saída radicalmente oposta a qualquer solução que dê fôlego ao inferno que representa o capital.

Pois então, esse ataque que o povo ucraniano vem sofrendo de Rússia e OTAN não é somente mais uma demonstração bestial do belicismo patriarcal do sistema. É o oxigênio a impulsionar uma nova ofensiva ancorada, desta vez, em formas de controle que a burguesia transnacionalizada inventou para postergar seu esgotamento definitivo. Essa guerra, portanto, é muito mais do que um fenômeno passageiro, ela é o estopim de uma sobrevida ao capital em crise estrutural, um buraco ainda mais profundo rumo ao abismo absoluto. Enfim, vamos lá.

Começamos pela constatação de que o sistema de metabolismo social do capital inaugurou uma temporalidade ímpar em toda história das sociedades humanas. Sua abrangência totalitária e de totalidade vem da genética necessidade de expandir para acumular. A dinâmica dessa temporalidade se recria e se reproduz incessantemente como fundamento essencial à destruição de outras formas societárias e à exploração do sobretrabalho social. A única forma de satisfazer sua imperativa pulsão à rapina e impor outro modus operandi (o tal progresso civilizatório) é praticando um truculento movimento de espoliação e brutalização de povos inteiros, de devastação de tudo o que se coloca como obstáculo aos seus interesses que se modificam na medida do seu avanço espacial e temporal. A acumulação originária, cujo epicentro foi a Inglaterra, expulsou e expropriou os bens dos camponeses. Transformou-os em trabalhadores livres e despojados para criarem uma crescente massa de riqueza apropriada pelo alheio, base do processo civilizatório em germe. As grandes navegações partem da “velha” Europa em busca de um mundo a ser domesticado e subserviente a ela. Para isso, criou um tipo de escravidão moderna que durou 400 anos e elevou o grau de violência e exploração sobre o trabalho forçado de indígenas e africanos colocados sob seu domínio.

As revoluções burguesas do século XIX vão abolir o monopólio colonial e instituir a liberdade concorrencial movida pelo mercado. Essa nova ordem liberal era mais dinâmica, complexa e eficiente, já que controlada pela “mão invisível” e pela “paz perpétua” para dar ensejo à ascensão do desenvolvimento capitalista, ascensão que se manteve até os anos de 1960 [1]. Regulamentou o roubo original mediante a fundação de instituições aptas a naturalizar e reproduzir hierarquias materiais, raciais, sociais e nacionais, marcas do seu padrão societário competitivo, individualista e alienado. Uma outra internacionalidade em marcha comporia então a relação desigual entre um punhado de nações industrializadas e as outras, as muitas nações quiméricas e produtoras de bens primários. Disso decorre o avanço de um novo modo de dominação concorrencial, no qual o “ex” mundo colonial permaneceria na forma incurável de periferia.

A ofensiva do capital: quem lucra com a guerra e o espólio da América Latina?

A sociedade burguesa vai assim constituir os instrumentos de mediação política da luta de classes, bem como viabilizar os meios necessários — e as formas de controle adequadas — aos saltos do capitalismo. Os “restos” humanos da colonização foram desdenhados pelo que restara do Iluminismo e atirados aos rancores dos eternos senhores de segunda ordem e suas milícias.

Aos trancos e barrancos, o processo civilizatório permanentemente usurpador, desigual e combinado, reinventa os imperialismos, atravessa crises globais cíclicas, revoluções populares nos chamados “elos frágeis”, guerras mundiais na Europa, guerras territoriais, ascensão de totalitarismos locais, breves períodos de calmaria e avanço da luta institucional da classe trabalhadora — desde os sindicatos e partidos operários dos países do centro. Completam, em parte, o quadro, a Guerra Fria — resultante da Conferência de Yalta — e a constante instabilidade econômica e política nas periferias, produto das transferências das contradições criadas no centro.

O esgotamento dessa forma de controle significa o fim do ascenso histórico do desenvolvimento capitalista e o início da sua decadência, ou crise estrutural do capital. Foi necessário aposentar a teoria anticíclica de Keynes e colocar em prática o receituário neoliberal articulado por Hayek, Von Mises, Friedman e outros figurões do Nobel de Economia. A crise estrutural do capital, entre outras causas, precipita-se pelo acúmulo de contradições jamais superadas e permanentemente criadas pela geração de novas tecnologias, por novas divisões sociais e internacionais do trabalho, pela incapacidade de continuar garantindo a empregabilidade plena e os benefícios concedidos pelo Estado social intervencionista à classe trabalhadora, passo que aliás será fundamental à sua domesticação.

Na nova divisão internacional do trabalho, o Estado continua a ser fundamental para o controle sociometabólico e disciplinamento dos trabalhadores com a finalidade de garantir a reprodução do capital, gerenciando com enormes dificuldades seus defeitos estruturais que tendem internamente à incontrolabilidade e à fragmentação das economias nacionais pelo seu viés transnacionalmente expansionista. No plano global, o imperialismo hoje está constituído por um sistema hierárquico de Estados-nação que são potências econômicas, militares e tecnológicas em graus e modalidades variados, que quando necessário lançam mão da sua capacidade militar para defender os interesses dos conglomerados financeiros em permanente concorrência econômica e geopolítica.

A guerra da Ucrânia aparece como uma polarização entre eixos de Estados-nação cujos capitais se encontram profundamente imbricados em nível global e se beneficiam com o negócio da guerra. Lançam mão, de um lado e do outro de expedientes de nacionalismo, racismo e violência estatal para manipular segmentos da classe trabalhadora, contra imigrantes, negros, indígenas, mulheres etc., recriando a barbárie em todos os cantos do planeta.

Apesar de tudo, o capital em crise prossegue em sua luta para minimizar os efeitos daquilo que mais lhe dói nos calos: a queda tendencial da taxa de lucro, para o que acelera o processo de obsolescência programada das mercadorias e amplia a esfera de atuação do mercado financeiro. Esta queda tendencial levou a uma outra configuração global de acumulação na década de 70, que não corresponde mais aos arranjos da época fordista, quando o conjunto de países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, contava com economias integradas e planificação estatal central e uma alta concentração industrial, em espaços nacionais bem definidos, para a manufatura em série de produtos completos.

As forças centrífugas do capital se ativaram e o resultado foi a constituição de uma rede produtiva global formada por uma multiplicidade de cadeias de valor interconectadas que produzem peças e partes em distintas regiões do mundo, substituindo os grandes centros industriais europeus e estadunidenses por centros fabris menores cuja característica principal é a terceirização, quarteirização, …, as contratações temporárias e a flexibilização do trabalho.

Atualmente essa rede produtiva global converge predominantemente para os países do Leste Asiático, onde a maior parte do valor é produzida. A China se destaca por concentrar os processos de acumulação baseados na reprodução ampliada e por ser o lugar para onde fluem as commodities agrícolas, minérios e produtos semi-manufaturados dos países da periferia. Esses capitais aparentemente dispersos são controlados por grandes monopólios financeiros e corporações transnacionais sediados nos centros imperialistas que continuam a manter o monopólio da inovação tecnológica e dos mercados globais, se beneficiando com a abertura comercial que permite o fluxo livre de mercadorias e capitais e condena a periferia a ser uma constante reserva de força de trabalho superexplorável, de minérios e combustíveis fósseis.

Neste momento, essa dinâmica põe em marcha um processo de expansão e acumulação mediante gigantesco e irreversível processo de destruição generalizada da vida no planeta, seja ela humana/animal, vegetal, mineral.

Pelo andar da carruagem, tudo indica que o caráter do capital, enquanto relação social reproduzida pelos indivíduos em seu cotidiano em contínua degradação material e moral, continuará a se reproduzir como causa sui, ou seja, sem que considere qualquer necessidade à existência dos seres orgânicos e inorgânicos. Portanto, que se exploda a humanidade e seu planeta, sobretudo a imensa parte localizada na periferia que jamais foi contemporânea do Estado de bem-estar social, mas sente muito mais profundamente os efeitos da decadência civilizatória. Por isso mesmo é que consideramos que o resultado dessas demonstrações de força das potências em disputa, qualquer que seja ele, nos é indiferente, pois aqui, a guerra é permanente, o que sempre escancarou o caráter ilusório dos rituais democráticos.

Numa breve linha do tempo, é nesse imbróglio que nos encontramos. E é de uma periferia que ousamos falar sobre essa guerra a que assistimos impotentes.

Pois bem, este movimento irremediavelmente contraditório do metabolismo descrito teve e, ainda mais hoje, tem o desafio de capacitar novas personificações para o controle do seu funcionamento. Entretanto, uma varredura na história mostra que nunca existiu e por certo não existirá personificação habilitada ao controle perene de um sistema que se autotransforma o tempo inteiro. Foi assim que o absolutismo de Portugal, Espanha, Itália foi superado pela ousadia da Inglaterra, cujo capitalismo industrial foi ameaçado pelo imperialismo (concorrencial) da Alemanha nazista e superado pelo imperialismo concorrencial, mas de fato monopólico dos EUA.

Pois hoje essa potência está em risco iminente diante dos inúmeros tentáculos do imperialismo chinês, cuja hegemonia vai depender muito da sua capacidade de ser ainda mais inescrupuloso, autoritário, militarmente forte e detentor de uma massa inimaginável de informações de toda ordem. Além disso, China tem sido bastante eficiente na arte de produzir e distribuir mercadorias pelo mundo; de replicar à perfeição tecnologias globais de produção; de criar e transferir matrizes de produção para a periferia como se, com isso, aliviasse o peso da espoliação praticada durante muito tempo pelo imperialismo ianque. Há quem acredite!

A Rússia de Putin

A Rússia articula-se a essa história dando contribuição essencial ao exercício da nova ofensiva pretendida por China, tendo em vista as dimensões militar e paramilitar, o papel estratégico para a relação eurasiática, a função ideológica nos moldes da Guerra Fria anterior, a capacidade de disseminar fake news em processos eleitorais pelo mundo afora (enterrando de vez as ilusões da democracia participativa) e ao entrelaçamento dos negócios legais e os até aqui ilegais, o mundo e o submundo das mercadorias, o mercado e o tráfico. Uma forma de Estado, aos moldes de Putin, é muito conveniente a tudo isso.

Fazemos aqui uma breve digressão para avivar a memória das velhas e novas gerações sobre o significado das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores na Revolução Russa. Só se entende a realidade da revolução como uma necessidade manifesta com ganas por homens e, principalmente, por mulheres e suas crianças em seus limites humanos. As coisas vistas desse modo visam combater mistificações que enaltecem símbolos, forjam heróis e depreciam os seres descalços que enfrentam a realidade dura da revolução nas ruas, nos campos, no frio e na fome.

Desde muito cedo, no entanto, os lutadores foram sendo abatidos por circunstâncias históricas que não os beneficiaram em nada. Muito ao contrário. O fracasso da revolução alemã e a expectativa frustrada com o internacionalismo rumo ao Ocidente, os atropelos do “socialismo num só país”, a reconstrução de uma autocracia nacionalista inspirada no czarismo; a repressão sobre os protestos contra a ditadura do partido que se iniciava — lembrando aqui de Makhno e de Kronstadt —; da burocracia e da pesada militarização sobre o trabalho; a ascensão de Stalin e os retrocessos patriarcais das conquistas que as mulheres alcançaram no momento inicial. Mas, o pior de tudo foi a idealização do taylorismo e extração do sobretrabalho pelo Estado que, na ausência do burguês privado, passa a exercer o controle político e econômico da recente sociedade. Fundava-se ali um pós-capitalismo em que aspectos necessários ao funcionamento do capital foram preservados, em particular a exploração do trabalho; outros, no entanto, foram dificultados pelo fechamento do círculo, ou seja, o caráter internacional vital à expansão e acumulação de riqueza extraída da massa trabalhadora.

Aquele Estado, contrariamente ao que dizia Marx, se agigantava ao invés de desaparecer, pressupondo controlar a União Soviética através de uma economia meticulosamente planificada. Constituía-se, assim, em uma ditadura contra o proletariado, dando continuidade à obscura relação com os grupos criminais que desde o século XVIII se praticava na Rússia para garantir a segurança dos czares. No caso da URSS, a KGB foi legatária da prática de garantir o privilégio concedido então aos ricos burocratas.

Isto não é um dado acessório quando evocamos as origens do atual presidente da Rússia, personificação na qual se entrelaçam diversos sentidos históricos em que o limite entre a legalidade estatal e a ilegalidade paramilitar e mafiosa parece dissolver-se constantemente.

Não surpreende, portanto, que daquele final lamentável do socialismo realmente inexistente não tenha surgido sequer uma nação economicamente soberana, muito menos um Estado preocupado com o bem-estar do povo trabalhador que outrora ousou ser radical nas exigências de transformar a própria história. Após 70 anos de intensas violações à liberdade e aos anseios sobreviventes de superação real dos males ante e pós-revolucionários, vimos a queda daquele sistema. Entre 1989 e 1991, despontou um país socialmente debilitado, mas cientificamente adiantado na arte da guerra e do poderio militar, um país que refletia muito mais as falsas polarizações da Guerra Fria do que os processos revolucionários de 1905 e 1917.

Pois bem, desde as primeiras ameaças de Putin de que invadiria a Ucrânia, a atenção do mundo voltou-se para a Europa do Leste, essa grande desconhecida desde fins da URSS. As notícias que nos chegam dali ora aludem às disputas da Rússia com ex-repúblicas soviéticas pelo controle vital dos recursos naturais, ora ao enriquecimento parasitário das oligarquias (burguesias) mafiosas que replicaram naquele canto do mundo, e se projetaram por meio de negócios “ilícitos” (e cada vez mais normais) do capital pelo mundo afora. Além disso, um generalizado perfil nacionalista de extrema-direita da região se mostra bastante profícuo para borrar de vez a história popular e revolucionária de Rússia e Ucrânia. Mas, sabemos bem que não é só isso. Há vários territórios e setores sociais que não se alinham a essa política e vêm fazendo forte resistência a ela.

Entre os vários aspectos envolvidos nesse momento de mais-desordem, chama a atenção o caráter político e histórico de Vladimir Putin. Ex-agente da KGB, desponta como a grande figura da burocracia russa pós-URSS. Começou na política como assessor de Anatoly Sobchak, prefeito eleito de Leningrado, atual São Petersburgo. Em 1991, foi nomeado presidente do Conselho de Relações Internacionais da Prefeitura de São Petersburgo. E, em 1999, já era primeiro-ministro do país. Em 2000, elegeu-se presidente pela primeira vez assumindo conduta autocrata. Há 22 anos acumula poderes e já é considerado o mais antigo líder do Kremlin desde Stalin (1927-1953).

Observando mais de perto sua trajetória, Putin parece resultar de três temporalidades históricas: czarismo, pós-capitalismo, capitalismo em crise estrutural. Ele evoca e atualiza o nacionalismo czarista (adotado também pelo “socialismo num só país”) para uma Rússia que, apesar de passar pela reprimarização da sua economia, se encontra em uma posição chave na hierarquia do sistema imperialista pelo seu poderio militar. Lembremos que, em 1949, a União Soviética e seus aliados integrados ao Conselho de Assistência Econômica Mútua (COMECON) [2] desenvolveram uma economia com cadeias produtivas distribuídas e integradas. A queda da União Soviética impediu que as burguesias emergentes nesses países mantivessem a capacidade produtiva articulada, levando ao sucateamento e conversão do parque industrial de cada país, dissolvendo a potência econômica dos tempos em que operavam coordenados. O mesmo aconteceu na Rússia que manteve, porém, o seu aparato militar e o patrimônio de conhecimentos e quadros científicos, de formação custosa e demorada. A articulação Rússia-China altera completamente os alinhamentos das cadeias de acumulação.

O maior trunfo de Putin é valorizar e barganhar sobre essa condição: a de produzir e fornecer algo vital à economia e à vida da Europa Ocidental e a de ser uma potência militar que interessa à China. Ao mesmo tempo representa aquele setor mafioso gestado ainda sob a vigência da ex-URSS e, mais, ativo participante das tomadas de decisão do Estado russo.

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Os EUA e as sanções

A trajetória dos Estados Unidos ao longo do século XX apresenta um sentido histórico paralelo/semelhante: são a maior potência militar e financeira do planeta, mas já não estão no controle completo das cadeias produtivas das quais participam. Não tem capacidade de planificação sobre elas. E já que, em seu próprio território, contam com a presença de cadeias associadas a investimentos dos fundos de outras procedências, como os chineses, por exemplo. Assim, a capacidade dos Estados Unidos de disciplinar econômica, política e militarmente os países da União Europeia e da OTAN também se reduz significativamente. É isso que se escancara nas últimas semanas.

O ataque militar à Ucrânia por parte do governo Putin, portanto, precisa ser contextualizado numa conjuntura de maior duração, na medida em que ele se articula aos planos e possibilidades de expansão de determinadas cadeias e fundos de investimento em detrimento de outros. A oportunidade com que Putin agiu lhe permite tirar vantagens não previstas pela aliança do Ocidente. Em primeiro lugar, o mais visível e explícito é que o governo ucraniano não poderá, contando apenas com forças militares próprias, impedir a destruição da sua bem inferior capacidade bélica. E a participação da OTAN diretamente no campo de batalha não parece razoável.

Do mesmo modo, já não haveria alinhamento automático dos membros europeus com o comando estadunidense, uma vez que as consequências de uma confrontação com Rússia para Europa Ocidental seriam desastrosas. O fornecimento de insumos energéticos e outros produtos primários que abastecem a Europa Ocidental provém da Rússia. As sanções que o governo estadunidense quer que o Ocidente aplique à Rússia prejudicariam ainda mais as economias europeias, provocando uma contração econômica que intensificaria ainda mais a recessão que só aumenta desde 2008. A exclusão da Rússia do sistema Swift apressa o deslocamento da enorme economia russa para o sistema chinês. A Índia já está em negociações para ter um sistema de pagamento em rúpias para driblar as consequências das sanções. E ameaça o ingresso de parte da economia do Ocidente.

Os efeitos negativos imediatos dessa contração sobre as economias europeias serão sentidos particularmente pelas classes trabalhadoras dos seus países e das cadeias das quais participam, provocando uma reestratificação nos respectivos mercados de trabalho. Mesmo os restos do que foram os Estados de bem-estar social, irão naufragar, achatando de vez as condições de vida até agora protegidas dos trabalhadores europeus, aproximando-os das condições que sofrem hoje os trabalhadores imigrantes.

China

O capital está vivendo uma reacomodação intensa das cadeias de acumulação de alcance planetário. Nesse quadro, temos a seguinte situação. De um lado, a economia chinesa se beneficia utilizando de uma dupla prática: planificando a partir dos sinais do big data e do seu mercado financeiro. Assim, com isso, otimiza os resultados da planificação da expansão do capital considerando com os dados dos prognósticos da flutuação da demanda. Sua economia de escala só tem a ganhar na associação “sem limites” (como anunciaram recentemente Xi Jiping e Putin) com a Rússia.

Ideologicamente, a história chinesa acumula muito mais afinidade com a Rússia do que com o Ocidente, mas é na atualidade política e estratégica que essa afinidade se consolida. Rússia, nesse sentido, não é uma peça em si mesma neste jogo, mas o braço armado e desapaixonado de um projeto há tempos articulado. O quadro montado reconstrói uma polarização artificiosa entre uma internacionalidade de capitais transnacionalizados e uma infinidade de nacionalidades a disseminar ódios e fragmentos entre indivíduos mais e mais distantes de qualquer ato de classe efetivo. No centro e na periferia ampliada por essa ofensiva, as contingências obtêm fragorosas vitórias sobre os trabalhadores do mundo. Suas necessidades, porém, só se acumulam. As evidências mostram que as reais e extremas polarizações não se dão no campo ideológico, elas se encontram entre os incalculavelmente ricos que extraem, mais do que nunca, o produto do sobretrabalho dos sobreviventes.

Algumas características da flamante aliança eurasiática precisam ser pontuadas para se pensar o futuro da nossa região. Ela soma potência econômica e possibilidades de rearticulação ao parque industrial da Rússia e seus aliados com o da Ásia. Cabe lembrar que a China é hoje o principal destino das exportações da América Latina, mesmo em países como Brasil, cujo governo se apresenta alinhado diplomaticamente com os Estados Unidos. A China vem traçando uma expansão, a chamada Rota da Seda, que supõe também investimentos de infraestrutura para dotar de flexibilidade as cadeias de acumulação. O país também possui um repertório de propostas às economias dependentes que lhes permite uma especialização produtiva com transferência de tecnologia que responda à planificação chinesa. Os investimentos diretos e indiretos chineses já estão instalados no continente (e inclusive no território estadunidense).

O capital chinês encontra na periferia as reacomodações institucionais, políticas e econômicas de uma burguesia dependente latino-americana, que no passado lançara mão de expedientes autocráticos para industrializar a região em ritmos desiguais e combinados. Hoje essa burguesia mantém-se na retaguarda de um padrão de acumulação extrativista pautado pela reprimarização produtiva da economia, o que significa uma guerra e saqueio permanentes contra o campo e a cidade. A partir dos ajustes estruturais da década de 90 e em função da dívida pública, o salário dos trabalhadores urbanos é saqueado através da superexploração, da privatização de serviços e bens públicos e da expropriação através do custo do crédito para atender aos interesses dos grandes conglomerados financeiros. Ao mesmo tempo, o saqueio dos territórios e a colossal destruição ambiental representa uma guerra constante contra as populações que habitam o campo, em particular, as mulheres indígenas. A América Latina e o Caribe compõem uma área geo-estratégica importante para o capital pela enorme reserva de minérios, biodiversidade, água doce e petróleo que seus territórios possuem. Seus territórios podem ainda servir como extensos corredores de escoamento de produtos semi-manufaturados e grandes plataformas logísticas de exportação de commodities agrícolas e de minérios necessárias às inovações tecnológicas dos países que configuram o sistema imperialista mundial. A intensificação da subordinação na nova divisão internacional do trabalho vem acelerando os ritmos do espólio e a guerra sobre cidades e territórios.

Na América Central, a amostra dos impactos do capital chinês se corporificou nas aventuras de um suposto mega empresário chinês de conectar os dois oceanos a partir de territórios ao longo do Rio San Juan na fronteira de Nicarágua com Costa Rica passando pelo grande Lago de Manágua. Para tal façanha, foram necessários uma visita militarizada de experts chineses aos territórios e a aprovação do projeto de lei para construção do canal em três horas, sem debate com a sociedade, cedendo os direitos exclusivos à empresa chinesa. A lei que aprovou a construção do canal ameaça as comunidades indígenas e camponesas de uma extensa faixa territorial. Qualquer território pode ser expropriado sem nenhuma garantia a estas populações que contabilizam de 200 a 250 mil pessoas, sem falar do grande impacto nos ecossistemas da região. O projeto, que foi clandestinamente discutido e aprovado em 2013, chegou a um ponto morto em 2018 quando os escritórios do megainvestidor chinês foram desmantelados no contexto de um poderoso movimento camponês que impediu a entrada nas comunidades e realizou ao menos 81 marchas de protesto contra o canal. Mas, os capitais chineses não têm deixado de avançar na região centro-americana a partir de projetos menores, que apontam para o fortalecimento da infraestrutura. Recentemente o governo de Daniel Ortega anunciou a retomada do projeto, que na época foi aprovado pela assembleia legislativa com a totalidade de votos dos deputados sandinistas.

Como parte dessa estratégia de saqueio, o Brasil lidera, desde os anos 2000 através da mediação de governos neoliberais à direita e à esquerda, a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Esta plataforma de escoamento de mercadorias está reorganizando as fronteiras nacionais dos países da América do Sul a partir de uma infraestrutura de transportes que inclui rodovias, ferrovias, transporte fluvial e aéreo. Com isso, conecta territórios de vários países onde se encontram polos maquileros, jazidas de minérios e grandes extensões de monocultivo de soja, milho e outras commodities a portos em direção aos polos industriais no centro do sistema, especialmente a China. Por estes mesmos corredores interconectados é que recebemos produtos de maior sofisticação tecnológica, celulares, computadores, televisores etc.

Até 2016, a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) estava sob a órbita dos Estados Unidos, com forte intervenção do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e financiamento estatal, no caso do Brasil via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Atualmente os governos da região assumem com o governo chinês compromissos de construção da Ferrovia Transcontinental que ligará os oceanos Atlântico e Pacífico, desde o Porto Açu, no Rio de Janeiro, ao litoral do Peru. Tem também a Ferrovia Bioceânica e o Corredor Bioceânico, nos países do Cone Sul, com grande impacto social e ambiental nos territórios, o que representa um novo ciclo de espoliação de caráter muito mais duradouro e intensivo que os ciclos anteriores.

A reconfiguração das cadeias produtivas no contexto atual de disputa de poder por uma nova ofensiva do capital conecta a IIRSA e o Projeto de Integração e Desenvolvimento de Mesoamérica em escala planetária ao projeto chinês de entrelaçamento intercontinental de Oriente Médio, Europa, África e Ásia, através do projeto “Um Cinturão, uma Rota”. A América Latina se conectará pela Rota Marítima da Seda, através da infraestrutura já criada elevando ainda mais o patamar de periferia regional no sistema internacional, com aumento da dependência externa, violência, saqueio dos recursos naturais, expulsão dos povos indígenas de seus territórios, avanço dos arrendamentos para monocultivo, grilagem e mineração em terras nas áreas de reforma agrária e terras indígenas. A Rota da Seda é uma proposta de planejamento internacional do Estado chinês, que tem poucas perspectivas de funcionar a médio e longo prazos pelas graves contradições do sistema do capital. Independentemente de quem vença as eleições presidenciais no Brasil, o espólio se manterá através das rotas flexíveis de escoamento de bens primários, com a única diferença na eficiência da gestão das articulações nesta perspectiva de integração internacional às cadeias produtivas.

Essa é nossa primeira incursão sobre as implicações que essa agressão contra trabalhadores e trabalhadoras da Ucrânia e as articulações urdidas pelos novos players do capital, localizados na Ásia e em todo Hemisfério Norte, têm e ainda terão sobre a América Latina. Enquanto a real política disputa a “linha ideológica” que será adotada num próximo governo qualquer, optamos por alinhar com quem de fato sentirá as piores consequências de um conflito que parece tão longe e tão perto.

30 de março de 2022

Notas

[1] Mas, o liberalismo, que já havia se desvencilhado da democracia no “mundo livre”, coibindo ao máximo a organização da classe trabalhadora com leis absolutistas, conviveu e serviu-se ainda por mais um século do trabalho cativo das colônias. O Brasil, por exemplo, foi o último país a “abolir” a escravidão (1888).
[2] O COMECON era integrado pela União Soviética, Bulgária, República Democrática Alemã, Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e Romênia.

Os desenhos que ilustram este artigo são do livro Primer nueva corónica y buen gobierno, de Felipe Guamán Poma de Ayala (1534 – 1615).




Fonte: Passapalavra.info