Novembro 16, 2020
Do O Abutre
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As montanhas não tinham caminhos nem trilhas,
os lagos não tinham barcos nem pontes
Não faltavam pássaros nem animais
As ervas e as árvores conseguiam perdurar

Chuang Tse, Cascos do Cavalo

A história da civilização é também a história das pandemias. Durante o Neolítico, a expansão da agricultura totalitária a partir do Oriente Próximo, foi o ponto de partida não só para o emergir do Estado, da estratificação social e do Patriarcado, como para o despontar de pestes e pragas até então inexistentes. A progressiva sedentarização, conseguida pela domesticação de animais e plantas, substituiu a diversidade alimentar dos caçadores-recolectores, pela quantidade dos agricultores, resultando no aumento exponencial da população. Doenças infecto-contagiosas como a varíola, a peste, o sarampo, a gripe ou a tuberculose necessitam de grandes aglomerados populacionais para subsistirem. A maioria destas doenças evoluiu de outras semelhantes existentes em animais domesticados, como é o caso do sarampo que surgiu a partir da peste bovina; ou são provenientes de animais sinantrópicos, como algumas espécies de ratos, potenciais transmissores da peste. Com a crescente densidade populacional de vilas e cidades, ligadas por rotas de comércio mundiais, as epidemias tornaram-se pandemias.

A peste bubónica que assolou o império Bizantino no século VI, fazendo milhões de mortos, terá chegado a Constantinopla em navios mercantes, carregados de grão, ratos e pulgas, disseminando-se rapidamente pelo império. Foi uma vantagem para as tribos bárbaras, muitas delas nómadas, dispersas por zonas rurais e por isso menos expostas ao contágio. No século XIV, a peste negra, provocada pela mesma bactéria, reduziu para dois terços a população europeia. Acredita-se que o surto tenha chegado à Europa através da rota da seda. Atingiu sobretudo as cidades, sobrepovoadas, com populações enfraquecidas pela fome, pela guerra e pela insalubridade constante. Durante este período foram iniciadas perseguições sangrentas a várias minorias, entre elas os ciganos e os judeus, acusados de serem os causadores da peste.

O genocídio dos povos indígenas da América e da Oceânia, iniciado com a colonização europeia no século XV, foi conseguido não só através da guerra e da violência, mas também pela disseminação de doenças até então inexistentes, levadas pelos colonizadores, para as quais os povos nativos não tinham imunidade. Epidemias de varíola, sarampo, cólera, febre tifóide e malária contribuíram para esse extermínio, ajudando a consolidar o domínio dos impérios coloniais. A virulência destas doenças foi agravada pela aniquilação dos modos de vida que esses povos tinham antes da chegada dos europeus. A caça, a recolecção e variedades de agricultura sustentável destinadas à subsistência reflectiam o respeito e a intimidade que estes povos mantinham com a natureza. A introdução da agricultura expansiva, destinada a alimentar os fluxos comerciais das metrópoles, foi acompanhada pela desflorestação, expropriação de terras e trabalhos forçados, para os sobreviventes desse etnocídio. Também o comércio transatlântico de escravos e o estabelecimento de colónias penais originaram novas doenças e epidemias que ajudaram a dizimar as populações nativas.

Com a revolução industrial, o rápido crescimento da população, a migração em massa de desapossados do campo para a cidade e a progressiva urbanização, foram criadas as condições para que doenças endémicas se tornassem pandémicas. A abertura do canal de Suez e a invenção do navio a vapor reduziram a distância entre a Europa e a Ásia Meridional, acelerando a propagação de doenças como a cólera ou a tuberculose. Os surtos de cólera na Europa foram devastadores, atingindo as cidades em crescimento, habitadas por explorados do capitalismo industrial que sobreviviam em circunstâncias de extrema pobreza, desnutrição e insalubridade. É neste contexto que surge a gripe “espanhola”, uma das mais letais da história, em que a degradação generalizada das condições de vida foi intensificada durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Estudos recentes mostram que essa estirpe não era afinal tão virulenta como se pensava. A guerra e o comércio internacional foram os principais factores de contágio. Teve origem provável nos Estados Unidos, a partir de vírus de aves ou suínos, coincidindo com a modernização da agricultura no país. Nos anos 1970, esse modelo de criação intensiva de animais começou a ser exportado para todo o mundo.

Mais recentemente, a gripe das aves em 2005, e a gripe suína, também conhecida como Gripe A, surgida no México em 2009, foram provocadas por vírus semelhantes ao da gripe “espanhola”. Tiveram origem em aviários e suinoculturas utilizando os métodos modernos da agroindústria, incluindo o uso de antibióticos, destinados a aumentar a produção e a competitividade, no acesso aos mercados globais. Enquanto a gripe suína se espalhava pelo mundo, a pressão da indústria suinícola junto da OMS (Organização Mundial da Saúde) foi notável, a ponto de esta renomear o vírus para a designação científica H1N1, de forma a confundir a sua origem. Também a indústria farmacêutica influenciou as decisões da OMS, como a mudança dos critérios para o decreto de “pandemia”, conseguindo, através do pânico gerado, assegurar contratos milionários com vários países para a produção de drogas antigripais, como o conhecido Tamiflu.

Epidemias em que o contágio é proveniente de animais selvagens são o resultado da destruição massiva de floresta e dos desequilíbrios ambientais e sociais que o capitalismo global tem perpetrado. Os surtos de ébola em África, ou de nipah na Ásia, não acontecem de forma espontânea, como muitas vezes é reportado. Esses vírus sempre circularam na região, mas os efeitos da transformação da floresta em extensões de monocultura criaram as condições para a sua propagação, sendo a indústria do óleo de palma conhecida internacionalmente por essa devastação, e também pela exploração de trabalho infantil. O desmatamento destrói as barreiras naturais que impedem a transmissão, as plantações de palma atraem algumas espécies de morcegos que são um reservatório natural do vírus. O mesmo acontece em regiões onde doenças transmitidas por mosquitos, como a malária ou o dengue, são endémicas e o agronegócio alterou irremediavelmente o ecossistema. Este cenário é agravado com as rápidas mudanças de clima provocadas pelo aquecimento global.

A desflorestação do Sudeste Asiático das últimas décadas e a caça furtiva de animais selvagens com destino aos mercados vivos de iguarias gastronómicas criaram a conjuntura para que os coronavírus (como o SARS-CoV, em 2002, e o actual SARS-CoV-2) possam mais facilmente infectar humanos. O aumento massivo de viagens para turismo, comércio e negócios, percorrendo longas distâncias em cada vez menos tempo, permite que estes contágios se transformem rapidamente em pandemias. As doenças respiratórias causadas por estes vírus são agravadas pela poluição atmosférica que mata anualmente 7 milhões de pessoas, contribuindo para o aumento da sua letalidade.

O novo coronavírus trouxe consigo uma intempérie de ironias por aquilo que revela do modo de vida homogéneo e condicionado em que assenta a sociedade globalizada, e dos requisitos para a sua manutenção. Apesar do aparato militar e tecnológico exibido pela civilização moderna, um vírus consegue pôr em confinamento mais de metade da população mundial, independentemente disso ser resultado da sua real perigosidade ou do pânico mediático gerado. Em todo o caso, epidemias, fomes, guerras e desastres “naturais” foram sempre uma oportunidade para o reforçar dos poderes instituídos. E no mesmo sentido, perante a generalização do medo, a sociedade torna-se ela mesma disciplinadora. O sistema supera os problemas que cria com mais vigilância, controlo e aperfeiçoamento tecnológico.

Chegamos a um labirinto evolutivo onde qualquer solução que passe pela manutenção do existente implica o domínio de cada vez mais âmbitos da vida. O capitalismo é apenas a forma actual desse processo, em contínua sofisticação, incorporando elementos de todos os regimes e ideologias derivadas do antropocentrismo. Isto não quer dizer que o sistema seja inelutável. É, no entanto, imprescindível saber como chegámos aqui, e o que nos reserva o futuro, para que possamos identificar o que rejeitamos e aquilo que queremos pôr a salvo. Não há nada para socializar dum modelo que se expande vertiginosamente e gera metrópoles, onde vivem milhões de pessoas, dependentes de uma economia voraz, de dimensão planetária. Não há nada para reformar dum sistema que produz oceanos de plástico, montanhas de lixo, epidemias, e se reproduz pelo contínuo envenenamento da Terra… Qualquer optimismo que não tenha isto como ponto de partida é pura resignação.

Um dos sintomas da modernidade é o facto de cada vez mais cidadãos do mundo conhecerem uma parafernália de aplicações informáticas e conceitos da época digital, ou as últimas novidades da indústria de entretenimento, e não saberem sequer reconhecer os pássaros ou as árvores circundantes, porque nunca lhes prestaram atenção, mergulhados que vivem num quotidiano cada vez mais artificial, alienado pela produção e consumo de inutilidades. É este deslumbramento, este fetiche do mundo moderno, que nos tornará estrangeiros no planeta onde nascemos.

Temos muito a aprender com os povos não-civilizados do passado – e com aqueles que ainda hoje subsistem, mas que o progresso quer apagar da história – pela maneira como se reconhecem nessa comunidade mais-do-que-humana que é a natureza. É urgente impedir a realização do homem unidimensional que a ciência e a razão vêm construindo na hegemonia do Império. É urgente retomar a luta contra a globalização, a partir das biorregiões, sem cedências ao nacionalismo ou a outras ideologias do ódio, igualmente nocivas e assimiladoras da diversidade. Para uma vida realmente saudável, o melhor sistema de saúde é a Terra. É possível resgatá-la. Mas isso implica abandono, confronto e um novo enamoramento com a comunidade de todos os seres.

M. A.

(Jornal Mapa nº27 – Maio 2020)

  1. Texto taoísta de autor incógnito, segundo o qual, o declínio dos tempos primordiais tinha começado com o Imperador Amarelo, “inventor” do Estado e da guerra. []
  2. Termo usado por Daniel Quinn para distinguir o tipo de agricultura que subordina todas as formas de vida à produção incessante de alimento humano. Surgiu há 10.000 anos, desde então obliterando outras culturas e modos de subsistência, dando origem à civilização. []
  3. Animais que se instalam nos povoamentos humanos beneficiando das condições criadas pela urbanização, entre outros, os ratos, as baratas, os mosquitos ou os pombos. []
  4. Agente transmissor da bactéria Yersinia Pestis entre roedores e humanos. []
  5. Germs, Genes and Civilization, David Clark. []
  6. What really happened during the 1918 influenza pandemic? The importance of bacterial secondary infections – Brundage JF, Shanks GD, Dezembro de 2007. []
  7. Big Farms Make Big Flu: Dispatches on Influenza, Agribusiness, and the Nature of Science, Rob Wallace. []
  8. Grandes marcas mundiais estão a lucrar com trabalho forçado e trabalho infantil na extração de óleo de palma – Amnistia Internacional, 30-11-2016. []
  9. Por exemplo, o corte de árvores em vastas áreas de floresta na Guiné alterou a temperatura ambiente que permitia manter o ébola controlado (Hogerwerf et al, 2010; Stephens et al, 1999). []



Fonte: Oabutre.noblogs.org