Janeiro 7, 2021
Do Passa Palavra
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Por Jorge Luiz

Em meio ao inventário de perdas que o ano de 2020 trouxe, não seria ocioso acrescentar uma: a que dá título a este texto. As cenas de aglomeração em festas privadas e praias durante o fim do ano congraçaram todo tipo de cidadãos. Um corte transversal às classes sociais mostrou o desejo de morte ou diversão, palavras tornadas intercambiáveis em tempo de pandemia. Me tocou em particular a aglomeração gay na praia de Ipanema, à altura da rua Farme de Amoedo, e as festas gays, em especial cenas de uma festa na piscina (pool party), lotada de jovens rapazes de sunga e adornada por bóias de flamingos rosas.

No Brasil choca especialmente ver aglomerações gays durante a pandemia, porque o presidente do país ganhou visibilidade como político e enfim se elegeu em 2018 com uma plataforma abertamente antigay. Os gays que se juntam na borda da piscina ou nas areias de Ipanema colaboram com a política de Bolsonaro. São, para usar uma expressão antiga, mas precisa, seus aliados objetivos. Por que eles fazem isso?

Bolsonaro age autorizando seus partidários a ceder a seus desejos, esquecer preocupações e “curtir”. Como na propaganda da Nike, o lema dele poderia ser “Just do it”. Para construir uma resistência efetiva é preciso admitir que essa disposição de espírito “despreocupada” vai muito além das bases bolsonaristas. Tem raízes na fase atual do capitalismo, na sua falsa ênfase no consumidor como um rei, sua lógica de ganhos a curto a prazo, sua apologia ao risco.

O espírito despreocupado do capitalismo foi sintetizado magistralmente pela atriz Regina Duarte ao dizer para a CNN: “sou leve, estou viva!” Quantos gays, tendo votado ou não Bolsonaro, não assinariam embaixo dessa frase: “estamos vivos, vamos ficar vivos. Por que olhar para trás? Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões”. Precisamos lidar politicamente com essa correspondência objetiva.

Podem argumentar que, se há festas gays aglomerando, há também muitas festas ‘hetero’. Para mim, enquanto homem gay, é esse mesmo o problema. Fomos assimilados tão perfeitamente num país que nos odeia, que conseguimos nos comportar igual a nossos agressores. Nosso individualismo atomístico, nossa busca de um retorno a curto prazo são iguais às do assassino malandro que nos governa. Soa exagerado dizer isso? O exagero pode ajudar a entender o problema mais que o silêncio.

Resistir ao bolsonarismo implica desfazer o ambiente cultural onde ele é possível. Há um trabalho político que, para a comunidade gay — e aqui falo especificamente aos homens gays, porque são eles que estão dando um show de colaboracionismo e aglomeração — implica construir espaços de solidariedade, sociabilidade e educação política para além do mercado e do “fervo”. O fervo é político, como passamos a década anterior dizendo, mas o fervo também dá nisso que vimos.

Precisamos de um conceito de liberdade à altura do nosso desejo de um mundo melhor. A liberdade que buscamos não pode ser a liberdade débil mental de buscar um frenesi de prazer enquanto os outros se ferram. Esse é o conceito de liberdade ensinado pelo capitalismo que, mesmo quando com suas mediações “amigáveis” (gay friendly) nos assimila, continua a nos oprimir.

A promessa de que a diferença (homo)sexual traria uma contribuição para a transformação do mundo, algo que animou as lutas pela libertação das minorias sexuais desde os anos 1960, essa promessa há tempos se esgotou. Cabe olhar para essa história em busca das possibilidades que já existiram, e que foram submersas até chegarmos ao fracasso político em que a vida gay está imersa.

Um dos “iludidos” por essa promessa gay foi o filósofo Michel Foucault, que via na homossexualidade a possibilidade de “aceder a uma vida criativa”, de inventar uma nova maneira de ser. Em suas palavras: “Nós devemos compreender que, com nossos desejos, através deles, se instauram novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação” [1]. Ele ainda podia afirmar, com a maior empolgação:

A homossexualidade é uma ocasião histórica de reabrir virtualidades relacionais e afetivas (…) Penso que é isto o que torna “perturbadora” a homossexualidade: o modo de vida homossexual muito mais que o ato sexual mesmo. Imaginar um ato sexual que não esteja conforme à lei ou à natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e aí está o problema [2].

Que comece o problema.

Notas

[1] Michel Foucault em entrevista a B. Galagher, “Sexo, poder e política de identidade”.
[2] Michel Foucault em entrevista a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux, “Da amizade como modo de vida”.




Fonte: Passapalavra.info