Novembro 16, 2020
Do O Abutre
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Em meados de Novembro passado, a imprensa internacional noticiou o desaparecimento de um cidadão americano numa das ilhas do arquipélago Andamão, na baía de Bengala, no oceano Índico. John Chau, um missionário cristão obcecado com os indígenas de Sentinela do Norte, decidiu investir até à ilha com o intuito de evangelizar os seus habitantes, naquele que considerava ser «o último bastião de Satanás».

Os Sentinelenses, que sempre viveram bem sem Cristo, sem dinheiro e sem doutrinas, responderam ao ultraje de arco e flecha, soçobrando o imprudente pregador. É bastante provável que, além da bíblia, este mártir do fanatismo cristão transportasse consigo agentes patogénicos, potenciadores de epidemias fatais para este povo caçador-recolector. A tribo já tinha dado sinais evidentes de não querer contacto com o exterior nem tolerar intrusos. Em 1974, um director de cinema que visitou o local foi atacado quando a sua equipa tentava filmar um documentário para a National Geographic. O mesmo aconteceu em 2006 a dois pescadores furtivos que se aproximaram demasiado dos recifes de coral que cercam a ilha; as águas circundantes são frequentemente invadidas por barcos de pesca ilegal, ameaçando a existência da tribo pela sua vulnerabilidade a doenças da civilização.

Os Sentinelenses integram o grupo dos povos indígenas Andamaneses, composto pelos Jangil, extintos em 1920, os Jarawas, os Grandes Andamaneses e os Onge. Ao contrário das outras tribos, os Sentinelenses mantiveram-se sempre isolados, por sua vontade e ajudados pela localização geográfica da ilha – a Sentinela do Norte fica fora das principais rotas marítimas e é desprovida de portos naturais, cercada por recifes pouco profundos. O isolamento tem-lhes assegurado a sobrevivência, pois o contacto com «estrangeiros» é desde há muito um presságio de morte, com fundamento no longo historial de raptos, assassinatos, perseguições e epidemias que desde sempre dizimaram os indígenas da região. Durante séculos, expedições levadas a cabo por traficantes de escravos provenientes da Malásia, Burma e China, visitavam o arquipélago com o objectivo de capturar nativos para serem vendidos no sudoeste asiático.

Foi contudo a colonização britânica destas ilhas, iniciada no século XVIII, o prelúdio da decadência destes povos, sobretudo dos Jarawas e dos Grandes Andamaneses. As primeiras tentativas dos colonizadores em «pacificar» o arquipélago fracassaram, dada a hostilidade generalizada dos indígenas. No entanto, em 1858, foi construída uma colónia penal na ilha Andamão do Sul, inicialmente destinada a prisioneiros políticos indianos, trazendo consequências desastrosas para as tribos que aí viviam. A desflorestação massiva, a propagação de doenças e a desintegração social destas comunidades resultou numa rápido declínio do número dos seus membros. Os Andamaneses resistiram à usurpação das suas terras, sendo massacrados em vários conflitos, ineficazes contra as armas de fogo dos invasores. Para conter as rebeliões e assegurar o controlo do território, além das medidas punitivas, os colonizadores empregaram estratégias «educativas» como as conhecidas «Casas Andamanesas», onde os reféns eram mantidos em cativeiro e aculturados com os valores coloniais, para que pudessem «ver os superiores confortos da civilização». Este processo de domesticação passou pelo encorajamento do consumo de álcool, ópio e medicamentos, bem como por mudanças na alimentação, dependente do cultivo, ou o uso de roupas, dependente do comércio. Durante esse período, muitas crianças indígenas foram enviadas para «orfanatos».

Um dos poucos contactos dos colonizadores britânicos com os Sentinelenses deu-se quando Maurice Vidal, um oficial da marinha e administrador dessas colónias durante 20 anos, raptou um grupo de Sentinelenses para os «estudar» em nome do «interesse científico». Desse grupo de 6 pessoas, dois idosos morreram e quatro crianças foram devolvidas à ilha, levando consigo quantidades de presentes. Este nobre britânico era conhecido entre os seus comparsas por «pacificar» os povos indígenas da região e defender uma colonização «branda», o que não o impedia de açoitar quem lhe desobedecia, nem de incendiar as aldeias insubmissas. Durante anos, o antropólogo e bizarro fotógrafo raptou e manteve em cativeiro nativos de várias idades, para os fotografar em posições homoeróticas.

O império colonial Britânico não foi contudo o único responsável pelo declínio e possível extinção dos povos nativos de Andamão e Nicobar. Durante a segunda guerra mundial, entre 1942 e 1945, a ocupação Japonesa administrou com total impunidade as maiores atrocidades contra os indígenas – foram massacrados, submetidos a trabalhos forçados e violações. O território habitado pelos Jarawas foi mesmo bombardeado pela aviação japonesa. Após a independência da Índia, em 1947, o plano de expansão colonial do país passou por enviar para estas ilhas milhares de colonos, continuando a devastação destas tribos.

A construção de uma estrada, na década de 70 do século passado, na floresta onde vivem os Jarawas, trouxe novas ameaças à sua sobrevivência – madeireiros, caçadores furtivos, turistas e outros intrusos invadem constantemente o território, resultando na pilhagem de recursos, exploração sexual, difusão do consumo de álcool e outros intoxicantes. Em 2010, a organização Survival International levou a cabo uma campanha contra a construção de um resort na zona, tendo o projecto sido cancelado. Apesar disso, os «safaris humanos» continuam a levar diariamente turistas à reserva. Outrora inflexíveis, esta terá sido a consequência de os Jarawa se terem tornado «amigáveis» e sido expostos ao modo de vida moderno. O antropólogo T. Pandit referiu-se a este processo afirmando: «fomos capazes de transformar um povo livre em mendigos».

A hostilidade dos Sentinelenses face aos «estrangeiros» não é apenas resultado da memória de violência que assolou os povos indígenas do arquipélago de Andamão e Nicobar durante séculos. Ela é uma afirmação actual do seu modo de vida, e uma resposta aos propósitos domesticadores do mundo civilizado que submete à sua matriz cada palmo de terra do planeta. A não ser que se assuma uma postura paternalista, de nada serve falar em direitos dos povos indigenas se não se comecar por questionar os fundamentos que sustentam a ideia de «civilização».

M.A.

(Jornal Mapa nº22 – Janeiro 2019)

  1. Diário de John Chau, cedido pela família ao Washington Post. []
  2. Nomeadamente na Batalha de Eberdeen, em 1859. []
  3. Development and Ethnocide: Colonial Practices in the Andaman Islands, Sita Venkateswar, IWGIA (2004). []
  4. Citação do coronel R.C. Tytler (1863). []
  5. Savage bodies, civilized pleasures: M. V. Portman and the Andamanese, Satadru Sen, Queens College (2009). []
  6. A tribo Jangil da ilha Rutland foi extinta em 1931. O último locutor da língua «Bo», pertencente ao grupo dos «Grandes Andamaneses», faleceu em Fevereiro de 2010. Estima-se que este grupo contava com 5000 membros no início da colonização britânica, estando actualmente reduzido a menos de 50. []
  7. A Season of Regret for an Aging Tribal Expert in India, New York Times (2017). []



Fonte: Oabutre.noblogs.org