Novembro 18, 2020
Do Reporter Popular
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por Victor, militante do Movimiento Solidario Vida Digna

O dia  12 de novembro marca um ano da Greve geral ocorrida no contexto da eclosão da revolta popular na região chilena (“estallido social”). Mobilizações com alto nível de combatividade colocaram em xeque a classe política, que se viu forçada a negociar uma saída institucional à crise, a qual se concretizou no chamado “acordo pela paz social e a nova constituição”. Ninguém, após um ano do estouro da revolta social, pode negar que foram o protesto, a barricada e as diferentes expressões de ação direta dos territórios e comunidades que obrigaram a classe política a este acordo, algo que parecia impensável nos últimos trinta anos de democracia neoliberal.

No dia 25 de outubro de 2020, este acordo constitucional começou a tomar forma, com o chamado plebiscito constituinte, quando, de maneira imprevista, a opção “aprovo nova constituição” obteve 80% das votações a nível nacional e teve uma histórica participação eleitoral. Sem dúvida a grande maioria dos setores populares sentiram isto como um grande triunfo e as massivas celebrações nas ruas, apesar da pandemia, demonstram isso. Mas estes acontecimentos são um verdadeiro triunfo para os explorados e oprimidos?

Os altos níveis de combatividade e as ações das diferentes organizações territoriais e comunitárias, e em menor medida os sindicatos, as mesmas que sustentaram a luta por um ano, que têm enfrentado os efeitos da pandemia com solidariedade e apoio mútuo. Deve-se dizer, são as organizações territoriais e comunitárias que foram às urnas neste plebiscito, apesar da desconfiança, são estas organizações, com seus elementos de combatividade, que trazem os elementos e os aprendizados que devem ser fortalecidos e amadurecidos. São estes os verdadeiros frutos que nos deixa a revolta popular, expressões embrionárias de uma cultura de resistência cada vez maior e de um fortalecimento das comunidades em lutas e da organização territorial.

Os atalhos institucionais, a confiança no processo de cima para baixo, e o desinvestimento na aposta pela mobilização, voltando-se para o eleitoral, são elementos que fizeram com que não se percebam os altos níveis de mobilização. Um setor reformista da população, o mesmo de sempre, apostou por não lutar pela conquista das sinceras demandas do povo nas ruas, a este setor lhes assustam as imagens da greve geral de um ano atrás, e assim ele evitou a todo custo que a saída insurrecional da greve geral seja a alternativa de saída da crise social que ainda segue viva enquanto existirem os altos níveis de precarização de nossas vidas.

Nós, que apostamos na criação de um povo forte desde baixo, o que podemos fazer? Nos queixamos da canalização deste ciclo político pelos de cima ou começamos a nos preparar para as seguintes batalhas, para que, desde a autonomia e a autogestão, construamos uma alternativa revolucionária à crise.

Aquilo que a princípio começava de maneira espontânea, em que nenhuma organização podia se autodenominar porta-voz do movimento, foi se transformando em um período fecundo para a politização dos territórios, a irrupção de novas organizações e variadas expressões de luta frente aos diversos problemas da vida social, quando foram se legitimando a autodefesa, a ação direta e a mobilização como ferramenta de luta. O ciclo político inaugurado com a revolta social segue em aberto, a pandemia intensificou a crise sistêmica e, junto com ela, a ação repressiva do Estado, mas em contraposição também se intensificou a capacidade organizativa dos povos em luta. Assim, as principais disputas seguem no plano das subjetividades (o cultural, os sentidos, a opinião pública, o que se diz e se fala nas ruas) e das alternativas políticas que possamos gerar neste cenário. Nossa alternativa deve ser capaz de desenvolver repertórios táticos mais legitimados e efetivos do que os do Estado, nos permitindo assegurar o abastecimento popular; processos de educação política nos espaços sociais; processos de construção programática e de abertura de  uma política territorial em uma chave autogestiva, capaz de definir objetivos políticos junto com formas de organização que permitam ao território desenvolver experiências de luta e de solução a problemas práticos do território, para desta forma ir amadurecendo os pilares de um programa político e revolucionário desde baixo. Sem o amadurecimento destas organizações territoriais, o qual não é possível por fora da confrontação radical com a institucionalidade estatal, não será possível abolir os efeitos da crise atual, nem os desafios que estão implicados na revolta social e na conjuntura da constituinte em curso. Desde os territórios, deve-se ir amadurecendo nossos esforços organizativos em direção ao federalismo e a autogestão social. Cada empenho organizativo, associado às necessidades básicas do território (saúde, comunicações, educação, abastecimento, violência patriarcal, cuidados comunitários, gestão hídrica comunitária, etc.) que possamos levantar nos lugares onde vivemos é uma possibilidade de ir prefigurando a construção de comunidades organizadas.

O resultado do plebiscito pode marcar um triunfo da cultura de resistência ao neoliberalismo, no entanto o único triunfo que importa é seguir fortalecendo a ação direta e a organização, lutando todos os dias pela liberação das presas políticas e dos presos políticos desta revolta, com o exemplo dos caídos e mutilados, para que, através de cada luta dos povos e comunidades, avancemos na construção do mundo novo que levamos em nossos corações.




Fonte: Reporterpopular.com.br