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“A vinda da Rússia à Bahia”: o impacto da Revolução Russa no movimento operário da I República (Salvador, 1919-1920)


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Por Luciano de Moura Guimarães

Professor de História – Colégio Pedro II

“- Trabalhadores baianos!… ouvistes uma voz soturna, uma voz profunda, uma voz de baixo aterradora e solene? É a voz da Rússia libertadora que apavora, que assombra, que alucina a Burguesia, o Clero e o Poder de todo o Universo!… Oprimidos e miseráveis baianos!… não ouvistes uma canção guerreira, uma canção incendiária, uma canção eletrizante e dominadora? É a canção que venho cantando por todo o mundo, chamando os nossos irmãos para a revolta, para a luta, para a guerra, para a morte ou para a Liberdade!…” .[1]

Com este chamamento, os sindicalistas da construção civil de Salvador conclamavam seus pares operários a aguçarem os ouvidos para que escutassem “uma canção incendiária” entoada desde o outro lado do globo. Os graves sons da Revolução de Outubro de 1917 ecoavam, assim, por sobre os continentes e oceanos, até ressoar nas paragens tropicais da Bahia. De fato, a expansão de seus desdobramentos foi de tal monta que a revolução mundial socialista passou a ser encarada como uma alternativa concreta por consideráveis parcelas de trabalhadores das mais variadas nacionalidades, que ambicionavam o fim da exploração capitalista e a consequente implantação de uma sociedade sem opressão de classes, assentada sobre os princípios da liberdade e igualdade. A ocorrência de levantes e de experiências revolucionárias em diversos países da Europa, tais como Alemanha (1918), Hungria (1919) e Itália (Conselhos Operários), atestam o apelo do exemplo russo em escala internacional.

A Grande Guerra (1914-1918), que teve como um de seus múltiplos efeitos favorecer a emergência da revolução na Rússia, deixara um legado de dificuldades econômicas especialmente danosas às classes menos abastadas e trabalhadoras do Brasil. Às questões da crescente carestia de vida, especulação de gêneros alimentícios, precariedade de moradia e saúde, somavam-se, então, o desemprego, achatamento salarial, jornadas laborais extenuantes e a ausência de uma legislação protetora do trabalho. Conjugados a esses fatores, os sucessos soviéticos ensejaram um perceptível incremento das lutas operárias na conjuntura 1917-1920, quando expectativas de transformação radical da sociedade foram compartilhadas por setores da classe operária em nível nacional. Greves gerais, ainda que sem caráter propriamente revolucionário, foram desencadeadas em várias cidades: São Paulo (1917); Rio de Janeiro (1917); Porto Alegre e Pelotas, no Rio Grande do Sul (1917) e na cidade de Rio Grande, no mesmo estado (1918 e 1919); Salvador (1919); Recife (1919) e Porto Alegre (1919).[2]

Dessa maneira, poucos dias após o termo da greve geral paulistana de julho de 1917,[3] dirigida predominantemente por anarquistas, o periódico soteropolitano A Tarde indagava: “A greve explodirá na Bahia?”. A matéria dava conta de ameaças de dinamitação de linhas férreas, arquitetadas por “mãos ocultas” que teriam ateado “fogo no rastilho das desordens na Rússia” e que agora insinuavam-se no Brasil, com o “intuito sinistro de atentar contra a segurança das classes conservadoras” e de paralisar “toda nossa vida econômica”. A percepção era que se vislumbrava o prelúdio de uma revolução e que o país e o estado estavam sendo assaltados “pelos agentes do complô da anarquia”.[4] De fato, enquanto a imprensa baiana repercutia as críticas da imprensa nacional à Revolução Russa, anarquistas de todo Brasil a celebravam como uma verdadeira revolução libertária.

Seriam necessários, entretanto, quase dois anos para que os temores da imprensa baiana encontrassem alguma correspondência na realidade. A chamada greve geral de junho de 1919 foi a mais impactante manifestação operária de toda I República no estado, constituindo-se num ponto de inflexão para o movimento operário local na referida conjuntura.[5] Essa ação paredista resultou numa politização e impulso organizacional inéditos até então.[6] Pela primeira vez no estado, figurou no rol de demandas operárias questões como duração da jornada de trabalho, reconhecimento do direito de associação, isonomia salarial entre homens e mulheres que exercessem as mesmas funções e abolição do trabalho infantil. Até então, predominavam as lutas visando aumentos salariais, através de greves isoladas por unidade de produção. Com a greve geral, o movimento operário passou a abranger muito mais estabelecimentos e trabalhadores, contestando, inclusive, “os mecanismos de compra e venda da força de trabalho”.[7]

Fundado poucos meses antes (março de 1919), o Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Demais Classes (SPCDC) veio a ser um nó resoluto de articulação daquela paralisação. Esse grêmio laboral foi o responsável por iniciá-la, generalizá-la e, ao lado de outros sindicatos, por orientá-la e sustentá-la até o atendimento de suas exigências (aumento salarial e jornada de trabalho de 8 horas). Ademais, no período que se seguiu à greve, a associação dos trabalhadores da construção civil se revelaria cada vez mais presente, tomando parte em novas greves, inclusive em solidariedade a outras categorias. O sindicato articulou o Primeiro Congresso dos Trabalhadores Baianos, em julho de 1919, e colaborou decisivamente na criação da Federação de Trabalhadores Baianos (FTB), em fevereiro de 1920. Publicou dois jornais – Germinal, 1920, e A Voz do Trabalhador, 1920-1922 – e se encarregou da fundação de uma escola proletária (Grupo Escolar Carlos Dias), além de atuar diretamente na organização de categorias sem representação sindical. E enquanto vedava a participação em suas fileiras dos mestres e contramestres ou de qualquer um que não tivesse extração operária, buscava organizar aqueles trabalhadores sem qualificação profissional, como os ajudantes e serventes, sem espaço nas associações existentes – o que, segundo Cláudio Batalha, não era muito comum nas associações congêneres de outras localidades do país.[8]

Assim, o SPCDC tornou-se uma das mais ativas agremiações operárias do pós-guerra (1919-1922), em Salvador, progressivamente conquistando novos filiados. Com efeito, o sindicato atuou, desde as jornadas de junho de 1919 até a fundação da FTB, em fevereiro de 1920, como uma verdadeira federação, agregando em torno de si diversas associações de trabalhadores, auxiliando na organização de novos sindicatos e fundando sucursais pelo interior do estado.[9]

Proporcionalmente ao seu desempenho e centralidade ascendentes, o SPCDC passou a ser objeto de acerbas críticas por parte das classes dominantes de Salvador, que alimentaram a ideia de que concepções subversivas, anarquistas e rebeldes estavam ganhando terreno junto aos trabalhadores da cidade. O fantasma de uma revolução proletária, encarnado na experiência russa e nas manifestações operárias locais, assombrava, dessa maneira, a grande imprensa baiana, que, por ocasião da greve parcial da construção civil, em fevereiro de 1920, acusava o SPCDC de ser “um soviete, sem tirar nem por”.[10] Entretanto, consoante entendimento dos representantes do alto comércio e dos industriais de Salvador, havia um indício mais palpável para justificar a suspeição em relação às más intenções do sindicato da construção civil: a presença e liderança do advogado recém-chegado da capital federal, Agripino Nazareth (aliás, natural da Bahia).

Nazareth havia aportado na Bahia em princípios de 1919, fugido da repressão que se seguiu à tentativa de derrubada do governo federal, em novembro do ano anterior, tornando-se advogado do SPCDC e a principal liderança do movimento operário local desde a greve geral até o momento de sua deportação de volta ao Rio de Janeiro (janeiro de 1921). A chamada Insurreição Anarquista de 1918, da qual participara ao lado de lideranças libertárias, como José Oiticica, Astrojildo Pereira, Manuel Campos, João da Costa Pimenta, Álvaro Palmeira, José Elias da Silva e Carlos Dias, tinha o objetivo de implantar uma República de Operários e Soldados no Brasil, de caráter soviético.[11] Tal ação demonstra a força do paradigma revolucionário russo entre os anarquistas do Brasil. A revolta, que teve repercussão em Niterói, Petrópolis e Magé, ocorreu em paralelo à eclosão de greves entre metalúrgicos, operários da construção civil, trabalhadores em pedreiras e têxteis, e foi sufocada em seu nascedouro, após a delação de um tenente do exército que havia se infiltrado entre os insurretos. As forças policiais efetuaram, então, centenas de prisões e deportações, além de promoverem o fechamento das associações operárias representantes das categorias grevistas, o que provocou uma “diáspora” de militantes e trabalhadores envolvidos no acontecido.[12] Essa circulação geográfica de ativistas seria determinante para a dinâmica do movimento sindical em Salvador nos anos seguintes.

Ainda que, por ocasião da greve geral, Nazareth tenha orientado os paredistas que não conferissem à paralisação “intuitos revolucionários”,[13] conservando-se estes em atitude pacífica e ordeira, sua participação no levante anarquista do ano anterior na capital da República sedimentaria uma estratégia acusatória por parte de proprietários e patrões, que o identificava como o agente externo responsável pela disseminação da “propaganda anarquista, maximalista”, no seio do operariado baiano. Este último invariavelmente pintado com as cores róseas da harmonia entre as classes: naturalmente ordeiro, cordato, obediente e morigerado.[14] Tal argumentação replicava o princípio da “planta exótica”, largamente utilizado em outras regiões do país, geralmente referindo-se à influência deletéria dos imigrantes radicais sobre o operariado nacional.[15]

A atuação e ascendência de Nazareth nas manifestações proletárias que se seguiram a junho de 1919, conferiram-lhe, efetivamente, e independentemente do ideário político que professava, o rótulo de “partidário declarado do maximalismo”.[16] Em terras soteropolitanas, no entanto, ao final da greve geral, Nazareth autodeclarava-se socialista coletivista.[17] Posição que foi compartilhada pelo conjunto das associações presentes no Primeiro Congresso dos Trabalhadores Baianos, quando, por aclamação, adotou-se aquela corrente ideológica como a orientadora dos sindicatos aderentes.[18] Tal influência se faria presente nos estatutos do SPCDC, finalizados por Nazareth,[19] assim como no seio da FTB.[20] Isto não significa, contudo, que não se fizesse, pelas páginas de Germinal, jornal vinculado ao SPCDC e dirigido por Nazareth, constantes referências à situação revolucionária da pátria dos sovietes. Pelo contrário, foram recorrentes os registros e menções sobre o caso russo. Ao final do Primeiro Congresso dos Trabalhadores Bahianos (julho de 1919), por exemplo, leu-se um manifesto de Tchitcherin, comissário para assuntos externos daquele país[21] e votou-se uma moção de apoio e “de solidariedade aos trabalhadores de todo mundo e especialmente aos da Rússia”.[22] Da mesma forma, lemos no Germinal que Nazareth defendia o ponto de vista segundo o qual a greve geral havia induzido um salto qualitativo na organização sindical dos trabalhadores baianos, cujas consequências seriam a integração “da Bahia proletária” às mesmas aspirações e lutas do operariado internacional, animadas pelo exemplo da Rússia revolucionária.[23]

Nesse periódico podemos vislumbrar, ainda, um pouco mais sobre as motivações de alguns militantes para aderir aos projetos sindicalistas de então. Álvaro de Sant’Anna, tipógrafo, primeiro secretário do SPCDC e primeiro secretário da FTB, declarando-se socialista, dizia estar descrente na realização “da causa proletária”, até que a Rússia realizou “as utopias (…) do socialismo secular, (…) tomando posse de todos os poderes e de todas as propriedades”. As conquistas socialistas russas provocaram na Bahia, de acordo com Sant’Anna, “um movimento completamente novo”, “um movimento que positivou todo o poder do proletariado”. Afinal, “dessas duas manifestações de força dos operários, a da Rússia e a da Bahia”, ressurgiram suas crenças nas ideias socialistas, fazendo com que ingressasse na militância operária.[24]É expressivo, portanto, o peso conferido à Revolução Russa e à greve geral de junho de 1919, em sua decisão de tornar-se um ativista sindical.

Ao longo do ano de 1920, todavia, a inclinação de Nazareth pelo socialismo parlamentar estimularia um processo de diferenciação ideológica no interior do SPCDC que desaguaria na cisão do sindicato, quando importantes quadros abandonaram a associação, acompanhando Nazareth no momento em que este optou por complementar a luta sindical com a luta político-partidária, fundando o Partido Socialista Baiano (agosto de 1920).[25] Em setembro, o SPCDC desligou-se da FTB – que permaneceu na esfera de influência de Nazareth – por divergências em relação aos princípios e aos métodos empregados. A partir de então, surgiu outra corrente no sindicalismo baiano, orientada pelo princípio da ação direta dos trabalhadores organizados e pela ideia de superação revolucionária do sistema capitalista.

Tal emergência radical está diretamente relacionada à mobilidade geográfica de militantes anarquistas que se evadiram da capital federal e se fixaram em Salvador, intentando escapar do peso da repressão ascendente em terras cariocas. O fenômeno não passou desapercebido pela grande imprensa baiana, quando um comício organizado pela FTB contra a carestia de vida, em fins de maio de 1920, degenerou em tiroteio entre as forças policiais e os manifestantes, que pretendiam seguir em passeata até a residência do governador recém-empossado, J.J. Seabra, para forçá-lo a tomar providências contra a alta generalizada dos gêneros de primeira necessidade.[26] Logo surgiram boatos que rebentaria nova greve geral e forte contingente armado passou a policiar as ruas, fábricas e associações operárias da cidade. Buscando explicar o sucedido, O Imparcial tratou dos eventos relativos ao protestoda FTB considerando que os incidentes registrados naquele episódio estariam intimamente vinculados à presença, no seio das classes trabalhadoras de Salvador, de “alguns anarquistas recentemente chegados do Rio”. Teriam sido esses “anarquistas”, afirmava o jornal, que “ao final do meeting usaram da palavra, pregando violentamente contra o clero, a burguesia, a imprensa e o governo”. Também teria partido deles a incitação para que os manifestantes seguissem até a residência de Seabra e impusessem ao governador a baixa dos preços dos alimentos.[27] Ou seja, a responsabilidade pelo que o periódico chamou de “movimento subversivo” caberia àqueles indivíduos anarquistas estranhos ao estado, vindos da capital federal. Dentre eles, encontrava-se Eustáquio Pereira Marinho, baiano radicado no Rio, também participante da Insurreição Anarquista de 1918, peça-chave no processo de radicalização do SPCDC e no estabelecimento do sindicalismo-revolucionário em Salvador entre 1920 e 1922.

Eustáquio Marinho era “chefe da Usina de energia da Light, em Copacabana” e havia sido preso na manhã do dia 2 de janeiro de 1919, ao sair de uma residência na rua Barroso, 76, naquele mesmo bairro. Dali, o levaram para a Inspetoria de Segurança, onde foi interrogado pelo 1º delegado auxiliar, Nascimento Silva. Sem ocultar “suas ideias libertárias”, confessou-se “francamente anarquista”, de acordo com o relato do Correio da Manhã.[28] Segundo o inquérito policial produzido para apurar as responsabilidades pelo episódio, havia provas testemunhais de que Eustáquio agia como um elemento dissuasório “no seio da classe trabalhadora”; acusação suficiente para que fosse pronunciado como incurso no artigo 107 do Código Penal, acusado de tentar mudar por meios violentos a forma de governo, a mesma imputação que coube a Nazareth.[29]

De acordo com sua ficha de ocorrência policial, Eustáquio Marinho deu entrada na Casa de Detenção da capital federal no dia 4 de janeiro de 1919. Através desse documento ficamos sabendo alguns detalhes do prisioneiro: era negro; tinha 37 anos (nascido, portanto, em 1881); eletricista por profissão. Eustáquio foi libertado no dia 24 de março de 1919, através de alvará de soltura, por faltas de provas condenatórias.[30] Logo após sua libertação, continuou a militar nas lides sindicalistas, assumindo um cargo na comissão fiscal da União Geral dos Metalúrgicos (12 de abril) e conclamando seus companheiros a agirem em prol dos ativistas ainda presos.[31] Em agosto já se encontrava ocupando a função de 1º secretário daquela associação, redigindo um manifesto no qual concitava os sócios a não descurarem da organização e da mobilização da categoria.[32] Nesse mesmo mês, colaborou com a redação de alguns artigos para o jornal Spártacus,[33] periódico surgido em agosto de 1919, que funcionava como um porta-voz dos libertários brasileiros, cujo intuito era disseminar notícias e informações sobre o recém-fundado Partido Comunista do Brasil (março de 1919). Este partido comunista, formado majoritariamente por anarquistas, não concorreria às eleições parlamentares. Sua constituição, porém, reafirma o impacto do exemplo soviético, fundado na ação do partido político como vanguarda.[34]

Nos escritos publicados no Spártacus, Eustáquio defendia a necessidade de se empreender a luta operária através da constituição de sindicatos de resistência,[35] além de condenar a prática estatal de expulsão de estrangeiros acusados de serem anarquistas.[36] Nesse último registro, relatava sua própria experiência de adesão ao anarquismo – empreendida de maneira autodidata. No dia 8 de dezembro de 1919, ele desembarcou em Salvador, vindo do Rio.[37] Após ingressar no SPCDC (como Nazareth havia feito meses antes), destacou-se progressivamente. Em abril de 1920, assinou um artigo no terceiro e último número de Germinal, defendendo a necessidade de se empreender uma revolução social para emancipar os trabalhadores. Dias depois foi um dos oradores escolhidos para discursarem na celebração e passeata do Primeiro de Maio.[38]

A historiografia sobre o movimento operário baiano usualmente associou a emergência de um polo orientado pelo sindicalismo-revolucionário à atuação de Nazareth, que seria o responsável, segundo essa concepção, pela implementação de tal conduta sindical no interior do SPCDC.[39] Castellucci, contudo, sustenta outra hipótese: a mudança no escopo da ação do SPCDC teria sido fruto da participação de dois delegados do sindicato, representando a FTB, no 3º Congresso Operário Brasileiro (abril de 1920): Annibal Lopes Pinho e Gaudêncio José dos Santos. O conclave foi dominado pelas orientações sindicalistas revolucionárias, daí a inferência desse pesquisador.[40] Entretanto, esta afirmação parece não corresponder às informações de nossas fontes, pois um dos delegados, Lopes Pinho, afastou-se do sindicato em agosto de 1920, acompanhando Nazareth na fundação do PSB, o que não estava em conformidade com as deliberações do 3º COB.[41] Quanto a Gaudêncio José dos Santos, nada podemos afirmar. O último informe que conseguimos apurar sobre ele refere-se a uma participação numa sessão comemorativa da FTB em homenagem à Revolução Francesa, em 16 de julho de 1920.[42] Sustentamos, no entanto, que a opção pelo sindicalismo revolucionário está vinculada à presença de Eustáquio Marinho no SPCDC. Tal afirmação ganha força quando verificamos que ele ocupou o posto de secretário geral do sindicato, entre janeiro de 1921 até dezembro de 1922.[43]

O exame da circulação de militantes decorrente da repressão governamental na conjuntura em tela constitui-se, destarte, fator importante para compreendermos melhor a conformação de conexões entre a experiência operária e sindical local e aquela verificada em outras regiões do país. Cruzando os estudos centrados em recortes geográficos de distintos espaços, como sugere Silvia Petersen, poderemos identificar tanto as especificidades desses casos, como os “processos mais globais”, propiciando a investigação da existência de “vínculos múltiplos e perdidos que possam enriquecer o perfil de atores e processos sociais já tão descaracterizados na memória historiográfica”.[44] Afinal, existiam vários canais pelos quais se dava o trânsito de ideias e ativistas no referido período. As redes profissionais, os circuitos dos militantes, os congressos operários e a imprensa operária eram alguns deles.[45]

Ao contrário de Nazareth, que se declarava socialista coletivista, Eustáquio Marinho reconhecia-se como anarquista. Essas duas posições orientaram, progressivamente, divergentes formas de encaminhar as reivindicações dos associados do SPCDC. O resultado dessa cisão foi a divisão do sindicato entre os que consideravam que a luta sindical deveria ser complementada pela luta partidária, através da criação de um grêmio socialista (PSB), e aqueles que condenavam tal opção, insistindo que os trabalhadores não se imiscuíssem nas disputas eleitorais nem recorressem aos canais institucionais para resolver suas demandas, mas que apelassem para o exercício da pressão direta sobre seus empregadores.

A partir de então, a adoção do método sindicalista revolucionário seria explicitado pelo sindicato da construção civil, com a publicação de um novo jornal: A Voz do Trabalhador (outubro de 1920 – dezembro de 1922). Em suas páginas encontraremos o temário característico dessa corrente: a centralidade da greve como meio para garantir e alargar direitos; o apelo à instrução proletária; a pregação da revolução social, inclusive defendendo a necessidade da violência revolucionária; a propaganda da ação direta; o apelo à formação de sindicatos de resistência, em oposição às beneficentes e cooperativas; recusa da luta político-parlamentar; antiestatismo; antimilitarismo; anticlericalismo; combate ao alcoolismo, ao futebol, ao carnaval; internacionalismo proletário; amor livre; e greve geral insurrecional.[46]

Contando com a colaboração de militantes anarquistas de diversas partes do país, como José Oiticica, Fernandes Varella e D. Fagundes, A Voz do Trabalhador concebia a Revolução Russa como uma grande inspiração de transformação social, que poderia se repetir na Bahia, caso os operários se articulassem em sindicatos de resistência. Por isso preconizava a necessidade de organização proletária e anunciava “a vinda da Rússia à Bahia”.[47]  A grande imprensa, por seu turno, não deixava de fustigar o SPCDC, denunciando que sua pregação e ações objetivavam transformar a Bahia “numa pequena Rússia”.[48] Caso único durante a Primeira República naquele estado, A Voz do Trabalhador, órgão do SPCDC, pregou a necessidade da emergência de uma revolução social empreendida pelos próprios trabalhadores reunidos em sindicato, os quais, livremente associados geririam a sociedade futura, livre da exploração do homem pelo homem.


[1]A Voz do Trabalhador, 2 de outubro de 1920. A grafia das fontes será atualizada doravante sempre que for necessário.

[2] Para um panorama dessa conjuntura, ver: Fausto, Boris. Trabalho urbano e conflito social (1890-1920). São Paulo, Difel, 1986, p.157-191 e Bandeira, Moniz; Melo, Clóvis e Andrdade, A. T. O Ano Vermelho: a revolução russa e seus reflexos no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967.

[3] Sobre a greve geral paulistana de julho de 1917, ver: Lopreato, Christina Roquette. O espírito da revolta: a greve geral anarquista de 1917. São Paulo: Annablume, 2000.

[4]A Tarde, Salvador, 27 de julho de 1917, apud Bandeira; Melo e Andrdade, O Ano Vermelho, p. 51.

[5] Para obter maiores informações sobre a greve de junho de 1919, seus desdobramentos e significados, ver: Castellucci, Aldrin. Industriais e operários numa conjuntura de crise (1914 – 1921). Salvador: Fieb, 2004; e Guimarães, Luciano de Moura. “Ideias perniciosas do anarquismo” na Bahia. Lutas e organização dos trabalhadores da construção civil (Salvador, 1919-1922). Dissertação (Mestrado em História) – FFCH – UFBA, Salvador, 2012.

[6] Castellucci, Industrias e operários, p. 150-151.

[7] Castellucci, Industriais e operários, op. cit., p. 37. A historiografia que trata da greve geral de 1919 usualmente associou a eclosão do movimento a três fatores explicativos para sua deflagração e êxito: as flutuações econômicas decorrentes da I Guerra Mundial; a crise política ocasionada pela cisão interoligárquica, em função das disputas eleitorais federais, estaduais e municipais de 1919 e as transformações operadas na própria organização associativa e política do movimento operário baiano, com a fundação ou reativação de sindicatos naquele período.

[8] Batalha, Cláudio. O movimento operário na I República. Rio de Janeiro, Editora Jorge Zahar, 2000, p. 17.

[9] Guimarães, “Ideias perniciosas”, op. cit., p. 165.

[10]A Hora, Salvador, 23 de fevereiro de 1920.

[11] Addor, Carlos Augusto. A Insurreição Anarquista no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Dois Pontos, 1986.

[12] Addor, A Insurreição Anarquista, op. cit., p. 174-175.

[13]O Tempo, Salvador, 8 de dezembro de 1919.

[14] RELATÓRIO da diretoria da Associação Comercial da Bahia, apresentado e aprovado em Reunião da Assembleia Geral Ordinária de 23 de março de 1920 (Referente ao ano de 1919). Salvador: Oficinas da Livraria Duas Américas, 1920, p. 92. Os termos anarquismo e maximalismo apareciam muitas vezes como sinônimos nas apreciações da imprensa burguesa e dos órgãos de classe patronais. Maximalistas era como se denominavam os defensores do regime soviético no Brasil.

[15] Sobre a construção da legenda do imigrante radical, ver, entre outros: Fausto, Trabalho urbano, op. cit., p. 62.

[16] RELATÓRIO da diretoria da Associação Comercial da Bahia, apresentado e aprovado em Reunião da Assembleia Geral Ordinária de 23 de março de 1920 (Referente ao ano de 1919). Salvador: Oficinas da Livraria Duas Américas, 1920, p. 112.

[17]O Democrata, Salvador, 14 de junho de 1919. Segundo Cláudio Batalha, o termo “coletivismo” podia ser empregado nos meios operários e socialistas como sinônimo de comunismo, ou seja, apropriação dos meios de produção pela coletividade, ou designando “uma sociedade aparentemente estruturada nos moldes do coletivismo anarquista de inspiração bakuninista”. O socialismo coletivista de Nazareth parecia corresponder à posição de que a apropriação coletiva dos meios de produção sucederia através do Estado ou da Comuna (a municipalidade), ficando assegurado, todavia, os direitos à propriedade individual e à apropriação individual do produto do próprio labor como defendiam os socialistas coletivistas César De Paepe, Benoît Malon e José Ingenieros. Ver, do autor: “A difusão do marxismo e os socialistas brasileiros na virada do século XIX”, In: Moraes, Joaquim Quartim de, (org.). História do Marxismo no Brasil – volume II. Os influxos teóricos, Campinas, Editora UNICAMP, 1995, pp. 37-38.

[18] Guimarães, “Ideias perniciosas”, op. cit., p. 117.

[19]A Tarde, Salvador, 9 de agosto de 1919.

[20] Voz do Povo, Rio de Janeiro, 25 de março de 1920.

[21]A Tarde, Salvador, 17 de julho de 1919.

[22]O Imparcial, Salvador, 20 de julho de 1919.

[23]Germinal, Salvador, 19 de março de 1920.

[24]Germinal, Salvador, 19 de março de 1920.

[25]A Tarde, Salvador, 24 de agosto de 1920.

[26] Guimarães, “Ideias perniciosas”, op. cit., p. 181-185.

[27]O Imparcial, Salvador, 26 de maio de 1920.

[28]A Época, 3 de janeiro de 1919; A Noite, 2 de janeiro de 1919; Correio da Manhã, 3 de janeiro de 1919; O Paiz, 3 de janeiro de 1919, todos jornais cariocas.

[29]Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1918.

[30] Livro de matrículas de detentos homens, n. 236, ficha de ocorrência policial n. 41, Fundo Casa de Detenção, Arquivo Público do Rio de Janeiro.

[31]A Razão, Rio de Janeiro, 13 de abril de 1919.

[32]A Razão, Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1919.

[33]Spártacus, Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1919; 1 de novembro de 1919.

[34] Devido ao impacto da Revolução Russa nas hostes libertárias, Edgard Leuenroth e Hélio Negro (pseudônimo de Antônio Candeias Duarte), dois anarquistas que militavam no movimento operário de São Paulo, publicaram, em 1919, uma brochura onde interpretavam os acontecimentos revolucionários russos sob a ótica anarquista, considerando que o regime que vigia ali tinha como horizonte o “almejado comunismo libertário”. O que é o maximismo ou bolchevismo – Programa Comunista, São Paulo, Editora Semente, 1919, p. 9.

[35]Spártacus, Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1919.

[36]Spártacus, Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1919.

[37] Cf.: Brasil, Bahia, Salvador, Relações de passagieros e imigrantes, 1855-1964, database with images, FamilySearch – Disponível em: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:3QS7-99N5-MQCN?i=309&cc=1928179&personaUrl=%2Fark%3A%2F61903%2F1%3A1%3A718R-ZF3Z, acesso em 20/02/2021).

[38]Germinal, 1 de maio de 1920. Ao anunciar a programação das celebrações operárias referentes ao Primeiro de Maio, o jornal A Tarde de 29 de abril de 1920 informava que Eustáquio Marinho discursaria duas vezes ao longo do percurso que as associações operárias percorreriam.

[39] Ver, sobre o assunto: Rubim, A.A.C. “Movimentos sociais e meios de comunicação – Bahia, 1917-1921”. Cadernos do CEAS, Salvador, n°61; p.30-43, mai/jul.1979; Rubim, A. A. C. & Rubim, J. L. C. “As lutas operárias na Bahia (1917-1921)”. Cadernos do CEAS, Salvador, n°80; p.22-34, jul/ago.1982; Fontes, J. R. Manifestações operárias na Bahia: o movimento grevista, 1888/1930. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – FFCH, UFBA, Salvador, 1988; Santos, Mário Augusto da Silva. Sobrevivência e Tensões sociais. Salvador (1890-1930), Tese (Doutorado em História) – FFLCH, USP, São Paulo, 1982.

[40] Castellucci, Industriais e, op. cit., p. 246-248.

[41] Ver: Boletim da Comissão Executiva do 3º Congresso Operário Brasileiro, agosto de 1920, p. 3. O 3º COB repudiou a prática eleitoral como estratégia operária, pois considerava que isto geraria divergências para o movimento operário. Consoante esse entendimento, o verdadeiro “partido operário” deveria acolher em seu interior “todos os operários e só os operários” sobre as únicas bases de interesses em comum possíveis: as bases econômicas, que configurariam aspectos mais facilmente compreendidos do que qualquer doutrina política.

[42]A Tarde, Salvador, 16 de julho de 1920.

[43] Ver: A Voz do Trabalhador, Salvador, 22 de janeiro de 1921.

[44] Petersen, Sílvia Regina Ferraz. “Cruzando fronteiras: as pesquisas regionais e a história operária brasileira”, In: Araújo, A.M.C (org.). Trabalho, Cultura e Cidadania: um balanço da história social brasileira. SP. Ed. Scritta, 1997, p.85-103.

[45] Ver os estudos de Sívia Petersen: “Cruzando as fronteiras”, op. cit., p. 85-103; e “Relações interestaduais e internacionais no processo de formação do movimento operário brasileiro”, texto de comunicação apresentada no I Seminário Internacional de História do Trabalho – V Jornada Nacional de História do Trabalho, UFSC, Florianópolis, 25-28 de outubro de 2010, p. 1-18.

[46] Ver os números de A Voz do Trabalhador (outubro de 1920-dezembro de 1922).

[47]A Voz do Trabalhador, Salvador, 9 de outubro de 1920.

[48]A Manhã,Salvador, 20 de janeiro de 1921.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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