Novembro 24, 2020
Do Reporter Popular
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O Território Indígena Goj Ki Pyn (Rio das Cobras para os não indígenas) é a maior comunidade indígena do estado do Paraná, abrigando em seus 18 mil hectares mais de 800 famílias do povo Kaingang em sua maioria, mas também do povo Guarani-Mbya, divididos entre as 11 comunidades que compõe o que o Estado chama de forma equivocada “Reserva Indígena Rio das Cobras” (um kaingang me questionou: reserva.. estamos reservados de que? Da “civilização”?), que fica na cidade de Nova Laranjeiras e parte em Espigão Alto do Iguaçu, região centro-sul do estado. O território é reconhecido oficialmente desde a década de 20 do século passado, mas desde sempre e até hoje o povo Kaingang e Guarani sofrem não só com preconceito, mas com atropelamentos e ameaças constantes por parte da sociedade não indígena. E nesses últimos dias as coisas tem se agravado diante de acontecimentos que serão relatados aqui, mas é muito importante que não façamos leituras rasas e superficiais sobre o que está acontecendo, que é um agravamento do preconceito e ódio anti indígena não só presente, mas que constitui historicamente toda essa região. Expresso nos veículos de mídia local, pela própria Policia Rodoviária Federal e pala sociedade de forma geral. Para qualquer tipo de solução é necessário uma dedicação a compreensão do contexto de violência, pobreza e fome que esses povos foram submetidos historicamente, como resultado do projeto colonial imposto aqui, primeiro pelo Império Português e depois assumido e reproduzido pelo próprio Estado Brasileiro.

11 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA

PRIMEIRO FATO: Acidente de trânsito na BR 277 dentro de Rio das Cobras

Acidente na BR-277, Nova Laranjeiras,PR

Nesse dia, houve um acidente envolvendo um caminhão, que estava carregado de produtos automotivos (pneus e óleo) e uma van, na BR 277 na altura do KM 473,9 em Nova Laranjeiras, a rodovia federal passa pela beirada do Território Indígena, é histórico o problema de atropelamento contra os moradores da comunidade indígena, o motorista da van chegou a morrer vitima do acidente, a policia federal em sua nota (https://www.prf.gov.br/agencia/prf-prende-4-indigenas-apos-saque-de-carga-em-nova-laranjeiras-pr/) não explica como o corpo do motorista da van foi parar ao lado do caminhão como é possível ver nos vídeos que circularam pelas redes sociais.

O que nos deixou chateado nesse caso, e muito triste com o que aconteceu, foi que a PRF, que estava lá, que foi os primeiros que chegaram, eles removeram, eles alteraram a cena do acidente, sem a presença da perícia” relata a liderança kaingang Neoli Kafy.

O corpo foi colocado por policiais federais ao lado do caminhão, não teria como o corpo do motorista da van ir para ao lado do caminhão decorrente da colisão entre os dois veículos, um grupo minoritário de indígenas chegou a saquear mercadorias que estavam no caminhão, o que reforçou um sentimento anti indígena de moradores da região, desconsiderando totalmente o contexto de pobreza que vivem grande parte das famílias dessas comunidades indígenas, e como se a ação de um pequeno grupo de pessoas fosse representante de todo os valores daquela comunidade. No ato 4 kaingang foram presos pelos agentes da policia federal, e encaminhados para Delegacia Civil de Laranjeiras do Sul acusados de saque de cargas e de pisotear o corpo do homem que estava ao lado do caminhão.

12 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA

Em resposta a isso a Articulação dos Povos Indígenas do Sul se posicionou publicamente através de nota (https://www.facebook.com/articulacaoindigena/posts/2623290837888570), obviamente não defendendo o saque de mercadorias, porem alertando para o fato de que não é costume e se trata de uma ação que não corresponde com a realidade das comunidades indígenas, e faz o pedido para que a sociedade não generalize essa visão a respeito dos povos indígenas.

16 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA

SEGUNDO FATO: Viatura da PRF atropela kaingang e não presta socorro

A comunidade também tem denunciado a intrusão ostensiva recente, de viaturas da PRF no interior do Território Indígena de forma a intimidar e causa medo na comunidade. Nesse dia 16, por volta das 17hrs uma viatura da PRF chegou a atropelar um indígena que estava de moto dentro da comunidade, teve ferimentos leves mas os agentes federais nem sequer prestaram socorro, e então os kaingang se revoltarão e tomarão a viatura da PRF, para pressionar por algum tipo de ajuda, pois nem levar ao hospital o kaingang atropelado eles quiseram. A PRF alega que os kaingang tivessem sequestrado uma viatura exigindo a libertação dos kaingang presos na semana passada decorrente do saque de mercadorias, mas o sequestro da viatura foi uma forma de pressionar os agentes PRF a atender o indígena que eles mesmo atropelaram, é uma resposta às agressões sofridas pelos agentes da PRF, e a viatura já fora devolvida a policia. Uma resposta a essa forma racista e anti-indígena que as autoridades, a mídia tem lidado com o povo kaingang, É indignante a forma com que a policia trata os povos indígenas historicamente, revolta presente na fala de Neoli:

Talvez para a PRF seja normal aquele tipo de abordagem. Mas eles atropelaram um motoqueiro indígena. Deu danos materiais pra ele, escoriações, e simplesmente depois de identificar que era indígena estavam indo embora”

A polícia PRF tava dentro da aldeia, foi atropelar dentro da aldeia o indígena. E a revolta foi por isso”

17 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA

TERCEIRO FATO: Comunidade Kaingang faz mobilização contra o edital 47/2020 na BR 277

Nesse dia a comunidade kaingang realiza uma manifestação contra o edital 47/2020, mais um ataque do governo estadual contra a educação escolar indígena, quilombola e de comunidades tradicionais. Neoli afirma “Os atos que tem acontecido na rodovia foram contra o PSS: Sistema que tira autonomia das cartas da liderança sobre quem serão os professores que trabalharão na aldeia. Porque trabalhar na aldeia não é questão de concurso, mas perfil”.

Diferente do que foi veiculado pela mídia local (https://oparana.com.br/noticia/tensao-indios-pegam-viatura-da-prf-em-nova-laranjeiras/) onde afirmava que o motivo da manifestação era a soltura dos kaingangs que haviam sido presos na semana anterior, a manifestação era em defesa da educação escolar indígena, A rodovia BR 277 é trancada por alguns momentos, e a mobilização kaingang é atacada pelos agentes do Grupo de Choque da Policia Rodoviária Federal.

 
Jornal de Beltrão, 17 de novembro de 2020

https://www.gov.br/prf/pt-br/agencia-prf/noticias/noticias-novembro/apos-saque-de-carga-e-vilipendio-de-cadaver-indigenas-interditam-rodovia-no-parana-e-atacam-policiais

No mesmo dia…

– Em reação às manifestações dos kaingang os presos da semana anterior são transferidos para Cascavel segundo moradora da comunidade, município que fica a 100km de Nova Laranjeiras.

– FUNAI pública nota buscando se isentar da responsabilidade perante a comunidade, demonstrando também desconhecer completamente o contexto em que as comunidade kaingang vivem hoje em dia. E o seu descaso para com a vida dessas pessoas.

https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2020/nota-a-imprensa-1

19 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA

Na reunião que contou com a presença do Ministério Publico Federal*, para discutir o conflito entre a PRF e a comunidade kaingang, Neoli Kafy, liderança indígena de Rio das Cobras, afirma o que já é histórico, os agentes da PRF armaram uma emboscada para cima dos kaingang, Neoli afirma que possui provas de que os policiais haviam removido o corpo da van e colocaram ao lado do caminhão de forma intencional. Também afirma Neoli que a comunidade indígena se solidariza com a família da vitima do acidente, mas que os responsáveis não são os kaingang, pelo contrário, o povo kaingang que vive sob as ameças de atropelamento já denuncia ha muito tempo a importância do poder publico rever o trecho e tomar providencias para a construção de viadutos, ampliação da pista simples naquela região, ou até mesmo o desvio da estrada para algum trecho menos perigoso, demandas todas essas ignoradas historicamente pelo poder publico.

Acredito que quem cometeu o crime maior foi quem deixou o corpo ali, praticamente jogou o corpo no acostamento para ser pisoteado. Esse é o nosso descontentamento. A polícia poderia ter agido diferente: pra que colocar o corpo ali pra justificar um ato criminoso? É crime saquear a carga? Tanto é que eles foram presos! Mas o que está pegando muito mal pra nós é os índios pisoteando o corpo. Mas não foram os índios que levaram ali. Os índios não foram buscar na van e trouxeram embaixo pra pisotear. Então é uma intenção de má fé muito clara. E é isso que vamos batalhar pra mostrar: que o rapaz que faleceu não estava ali. Alguém jogou no acostamento”

https://ricmais.com.br/videos/cidade-alerta-oeste/reuniao-discute-comportamento-de-indigenas-de-nova-laranjeiras/

20 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA

É registrado a presença ostensiva maior do aparato de força da PRF, helicopetros sobrevoando, viaturas, uma demonstração de força da PRF de forma a intimidas qualquer tentativa de mobilização por parte da comunidade kaingang. Mas na verdade, desde o acidente no dia 11, moradores tem relatado a presença maior no interior da comunidade sem qualquer tipo de mandato ou autorização, desrespeitando a autonomia da comunidade. Mas as coisas tem ficado cada vez mais complicada, segundo Neoli

Hoje [dia 20] adentraram pela PR [rodovia estadual], uns 5 km pra dentro da Terra Indígena. Contamos 13 viaturas, e hoje [dia 20], depois do almoço, chegou dois helicópteros. E eu não sei por que, mas está bem claro a provocação, a intimidação que estão fazendo. Não tem justificativa plausível. Eles dizem que foi porque foi apreendido o veículo. Mas já foi entregue. Eu não sei porque esse aparato todo”.

Viaturas e helicóptero da PRF no centro de Nova Laranjeiras, BR 277

CONSIDERAÇÕES

Primeira coisa a ser ressaltada, é que qualquer tentativa, intuito de busca de solução da problemática que se apresenta, perpassa necessariamente pela compreensão do contexto histórico em que essas comunidades foram submetidas pelas forças do poder vigente. Como ressaltado muito bem em sua nota publica pelo Observatório da Temática Indígena na América Latina-OBIAL, em que cobra do governo federal e Funai a sua responsabilidade, quando afirma:

Não é possível compreender o caso ocorrido no dia 11 de novembro e os desdobramentos do dia 17 sem compreender a dimensão história do problema. Em 1969 a Funai autorizou a construção de uma rodovia federal na minúscula terra Kaingang de Rio das Cobras, sem que esses indígenas recebessem qualquer indenização, mitigação ou reparação.”

A história do povo kaingang é marcada por invasões de seus territórios para a instalação de empreendimentos capitalistas que só visam a extração de lucro para o branco, sem o menor comprometimento com qualquer tipo de contrapartida social para a comunidade que terá sua vida, seu território não somente afetado mas destruído, porque a lógica do capital é essa, de destruição da vida! A historia de construção dessa estrada que cada vez mais tem matado indígenas (dados do levantamento realizado pelo CIMI apontam que somente nessa estrada desde 2014 foram atropelados e mortos 22 indígenas, alem de serem responsabilizados pelo problema como se eles é quem tivessem no caminho do “progresso da nação”) não é diferente, se antes o Estado buscava tutelar, hoje o estado quer cada vez mais lavar as mãos sob qualquer tipo de responsabilidade social perante as comunidades indígenas, desconsiderando toda a consequência de sua própria atuação de séculos sob a lógica genocida e colonial.

A solução e garantia do seus direitos somente serão determinadas pela auto organização do povo kaingang, alias, os indígenas sabem melhor do que ninguém, o quanto a palavra do fog ou Juruá (assim chamado os branco na língua kaingang e guarani respectivamente) tem seu valor, ainda que seja escrita em papel, tábuas, lápides, o homem branco não tem apreço pela palavra que diz na medida que as circunstancias mudem e seus interesses também.

A mídia local joga sujo, e a partir do sensacionalismo promove e incentiva mais ainda o sentimento racista anti-indígena e anti pobre que as elites locais nutrem. Chegar a afirmar categoricamente que exista uma “quadrilha de bandidos instalada em Nova Laranjeiras”, isso resulta nas graves ameaças que a comunidade tem sofrido, para além da pandemia, sair da comunidade agora pode custar a vida, sendo atropelado por algum cidadão de bem anti indígena. A partir do video que circula nas redes sociais a mídia vem construindo uma narrativa, onde apresenta os indígena como seres selvagens e bárbaros ao saquearem cargas de caminhão ao lado do corpo da vitima, mas esquece de dizer o que a Companhia Matte Laranjeiras causou ao povo guarani quando recebe em 1895 mais de 5 milhões de hectares onde se encontra indígenas de diversos povos vivendo ali, invadiu seu território, estuprou as mulheres, mataram crianças na espada, atearam fogo nas casa, mataram os guerreiros, homens, jovens e mais velhos, destruiu conhecimentos, saqueou suas riquezas, poluiu seus rios, derrubaram suas matas, acabaram com espécies da fauna e flora endógenos (que só existe naquela região), esquece de falar da Araupel que nesse momento segue perseguindo e assassinando lideranças camponesas no estado.

É preciso compreender porque isso ocorre, é um contexto de pobreza, fome e privação de seus direitos que as comunidades indígenas passam, não só em Rio das cobras, mas essa é a realidade de muitas das comunidades espalhadas por todo país, e não podemos apoiar que situações como essa sejam resolvidas com mais policia, militarização e criminalização dos povos indígenas, isso só reforça o estado punitivista e o sistema carcerário brasileiro que condena pessoas e suas famílias a sofrerem com o total abandono nas prisões brasileiras.

É necessário apoiarmos as comunidade nas suas próprias formas de auto organização, para alem de sensibilizarmos, é necessário nos conectarmos com processo que na verdade dizem respeito a todo/a brasileiro/a, pois são questões da nossa “questão agrária brasileira não resolvida”. O ataque a essa comunidade e a conivência com isso diz muito mais sobre o que entendemos por Brasil do que das próprias comunidades

NÃO AO RACISMO ANTI-INDÍGENA!
TODO APOIO E SOLIDARIEDADE AO POVO KAINGANG DE RIO DAS COBRAS!

Se informe mais:
12/11/2020 – Nota pública da ARPIN-SUL

https://www.facebook.com/articulacaoindigena/posts/2623290837888570)

17/11/2020 – Video: Eloy Nhandewa Jacintho falando sobre a luta contra o edital 47/2020, Coletivo Desacato/SC

https://www.youtube.com/watch?v=Eg3YFYSu8Fg

20/11/2020 – “Apresentador do SBT no Paraná diz que “polícia pode descer bala” em indígenas”

https://deolhonosruralistas.com.br/2020/11/20/apresentador-do-sbt-no-parana-diz-que-policia-pode-descer-bala-em-indigenas/

20/11/2020 – “Governo federal não pode se omitir diante da grave ameaça aos Kaingang da T.I. Rio das Cobras (PR)”

https://obialtematicaindig.wixsite.com/obial/post/governo-federal-n%C3%A3o-pode-se-omitir-diante-da-grave-amea%C3%A7a-aos-kaingang-da-t-i-rio-das-cobras-pr

Novembro de 2020
Repórter Popular – Francisco Beltrão, PR




Fonte: Reporterpopular.com.br