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Ao longo de várias gerações, muita gente interiorizou a imagem de uma revolução como sendo de exaltação, caos e violência, mas de uma violência libertadora que tinha por matriz, inevitavelmente, uma “tomada da Bastilha”, um povo em estado de insurreição contra Senhores arrogantes e prepotentes. A revolução era um grito bem-sucedido de revolta contra a opressão e exploração, que inaugurava uma nova época, ainda que muitas das esperanças iniciais fossem depois frustradas, mas onde sempre mudava algo de fundamental relativamente à época antecedente.

O dia 6 de Janeiro de 2021 poderá vir a ficar na História como o da reversão do sentido simbólico – controverso e detestado mas finalmente de sinal positivo – atribuído às revoluções: pense-se na Grande Revolução Francesa, na nossa revolução republicana de Outubro de 1910, nas revoluções de Fevereiro e de Outubro de 17 na Rússia, na revolução popular que derrotou os militares golpistas de Franco em Julho de 1936, nas revoluções que em 1989 derrubaram os regimes autoritários da Alemanha do Leste, da Checoslováquia, da Hungria, da Polónia e da Roménia, ou das que em 2012 levantaram a bandeira da liberdade no Egipto e na Tunísia. E recorde-se ainda o imaginário que alimentava a paixão da maioria dos protagonistas jovens que fizeram o Maio de 68. E tantos outros casos constantes dos registos dos últimos dois séculos, a começar pela revolução liberal do Porto de 1820. Neste quadro, o 25 de Abril terá sido a “revolução improvável”.

As imagens que o mundo viu “em directo” naquele dia 6 de Janeiro (um “dia de Reis”!) a partir de Washington e do Capitol Hill, não foram apenas os milhares de energúmenos que penetraram, desrespeitaram e mesmo vandalizaram um pouco os locais das Câmaras e outros espaços do edifício do parlamento. Com eles estavam talvez mais umas centenas de milhar que se manifestavam nos jardins e na Pennsylvania Avenue, seguindo as indicações do seu Presidente, e decerto uma boa parte dos 70 milhões que votaram em Donald Trump e continuam a creditar no seu discurso delirante de que os seus votos foram roubados e numa América great again.

Esta “tomada do Capitólio” é um novo caso de “contra-revolução”, como foi a marcha sobre Roma de Mussolini – por agora felizmente falhada; que pode porém prenunciar próximos capítulos. Mas é também o primeiro deste tipo de eventos que ocorre sob o “império dos media”, as desilusões do Estado-de-bem-estar e da “política como arte de manipulação”, com sinais à vista de decadência de uma determinada civilização. Estas imagens evidenciam também o anacronismo deste tipo de fenómenos para resolver qualquer dos problemas que afectam sociedades tão complexas como as actuais, a fortiori para fundar uma sua restruturação mais evoluída e humanizada.

Toda a asa esquerda do espectro político europeu e americano retém aqueles marcos traumáticos da História moderna no seu referencial ideológico. E a Revolução foi um símbolo que iluminou e talvez continue a acalentar os partidos e movimentos de extrema-esquerda, certos socialistas, comunistas, conselhistas, trotskistas, maoistas, castristas, situacionistas e a maior parte dos anarquistas.

Pois é provavelmente chegado o momento em que todas estas rumorosas seitas políticas devam remeter tal noção para o seu lugar próprio no processo histórico e nos manuais escolares, onde têm todo o cabimento, mas não alimentem mais a crença de que é uma catarse que pode ainda voltar a funcionar. Quando muito, a combatividade destas minorias activas só poderá ter utilidade numa eventual necessidade de mobilização cidadã para desarmar alguma revolução ditatorial que ainda nos venha a surgir pela frente. E, quanto aos anarquistas, estes fariam bem em lembrar-se do canto de Léo Ferré: «Divine Anarchie, Adorable Anarchie: Tu n’est pas un système, un parti, une référence; Mais un état d’âme!» 

O nosso tempo extinguiu a Revolução como madrugada libertadora. As novas condições exigem outros meios, mais pacíficos, racionais e integradores.

Porém, “… por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera…”.

JF / 10.Jan.2021




Fonte: Aideiablog.wordpress.com