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Giovanni Papini foi um escritor maldito e benzido, santo e sacrílego, do século XX, incluindo a sua passagem pelo Fascismo, como tantos outros que se apressaram a apagar a história. Relido e apreciado por mim em 2020, pela prodigiosa imaginação e beleza expressiva da sua escrita. Aqui, tendo como foco uma espécie de feminismo místico, avant-coureur.

JF

Picture of Giovanni Papini

«Pateticamente bela é esta cidade de Tarragona, terra de poderosas ruínas e de heroicas memórias. Mas apenas me quero lembrar, hoje, da mais imprevista descoberta que lá fiz.

O tórrido dia mantivera-me fechado no escuro quarto do hotel. Mas pela meia-noite saí em busca de uma aragem fresca e vagueei, ao acaso, pela antiga cidade quase até ao campo. Numa praceta deserta, perto do mar, atraiu-me a fachada alta e negra de uma igreja. […]

Todos os bancos da nave estavam repletos de vultos ajoelhados […]. Todas as sombras genuflexas eram padres em profunda oração. Nem um único laico, nem uma mulher, nem uma criança: nada mais que padres, em trajes negros, absorvidos na oração, na meditação, na espera. […]

Mas outra e maior maravilha me abalou quando vi surgir da ábside e subir os degraus uma mulher. Já não era nova, mas era de uma severa e altiva beleza […] envolta numa túnica muito alva […] e começou, com melodiosa voz, a falar.

– “Meus irmãos – dizia –, já sabeis que, aos olhos de muitos, a Redenção parece gorada. O sangue de Cristo não pode salvar, ao que dizem, mais de poucos milhares de seres, poucos milhares de Santos. Parece-nos um exército infinito, mas não passa de um grupo diminuto, em comparação com as centenas de milhões de almas que vieram, em dezanove séculos, a este Mundo. Os restantes continuaram a matar, a enganar, a pecar, a sofrer […].

– Eu vos digo, agora, que a redenção não se gorou, mas que ainda não está perfeita. E anuncio-vos que o seu completamente se aproxima. Os cristãos aguardam há séculos o segundo acto da Redenção e fantasiam e devaneiam à espera do Paracleto. Mas eu vos digo que tateiam em vão nas trevas. O novo Redentor virá, e não será o Espírito Santo, que já desde o tempo dos Apóstolos se revelou e nos ampara, mas sim uma Mulher. Deus, reza a Génese [o Genesis], criou o homem, varão e fêmea, e a sua salvação não pode vir somente de um deles. O futuro Messias, que cumprirá a plenitude das promessas finais não poderá ser senão uma mulher.

– Foi a mulher, foi Eva, que introduziu o pecado no Mundo, e só uma segunda Eva poderá totalmente expiá-lo e apagá-lo. Com Eva começou a tragédia dos homens, e sem a culpa de Eva não teria havido história, e sem Eva não teria aparecido a glória de Maria. A Virgem-Mãe participou, com a sua paixão, na paixão do Filho, mas não teve, nem podia ter, o papel principal. A Sua dor não foi senão um necessário complemento da primeira Redenção. […] A Eva que esperamos, a Eva-Messias, reconduzirá ao mundo a inocência perdida, a alegria invocada, a consolação e o remédio da tortura humana. […] Somente na Mulher pode haver a extrema potência do amor que purifica, exalta e salva. […] Como Cristo foi anunciado pela palavra e pelo martírio de João, assim Eva-Messias foi anunciada pela palavra e pelo martírio de Maria. E a vós, depositários do Evangelho, não é preciso lembrar que o próprio Cristo foi mais bem compreendido e amado pelas mulheres do que pelos homens. […]

– Esta predilecção do Filho do Homem pelas filhas de Eva é uma promessa implícita, mas clara, da nova Redentora que esperamos.

– Mas não basta esperá-la: é necessário preparar os seus caminhos, os caminhos da Senhora Celestial. […] Nenhuma religião pode ser vitoriosa se não reconhecer uma divindade feminina, e todos os povos antigos adoraram uma Deusa-Mãe, porque somente a Mãe tudo compreende e tudo perdoa. No coração da Mulher está guardada a derradeira esperança dos vivos.”

Os padres ouviam em silêncio, com os rostos escondidos entre as mãos pálidas […]. Desvendado o mistério que me impelira lá para dentro, a passos lentos e aveludados saí da igreja para as frescas trevas da noite […].»

(Giovanni Papini, Loucuras do Poeta, Lisboa, Livros do Brasil, sd, ed. orig. it. 1950: 149-153)




Fonte: Aideiablog.wordpress.com