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Eduardo Lourenço de Faria (23 de Maio 1923 – 1 Dezembro 2020)

Filho de tropa e aluno do Colégio Militar, condição que nunca reivindicou mas também não repudiou, Eduardo Lourenço foi sobretudo marcado pelos cuidados femininos e o pequeno universo aldeão onde foi menino, circundado pelo mesmo género de horizontes telúricos que forjaram o carácter de Torga, de onde guardou o sotaque beirão ligeiramente sibilante que, tal como o seu estatuário perfil fisionómico, tão perturbantemente o aproximava de Salazar.

Culturalmente, Eduardo Lourenço é provavelmente o mais rico conhecedor e pensador português do século XX, sendo capaz de se abalançar com segurança pelo domínio do ensaio que cruza os saberes da filosofia, da literatura, da história e da política. Neste sentido, é um clássico, menos aventureiro do que um Sartre ou disciplinado que um Habermas, mas com a elegância florentina de um Eco.

O seu itinerário intelectual levou-o naturalmente à ruptura, não apenas com o regime do Estado Novo e as suas mais repressivas, repelentes ou anacrónicas instituições, mas também com o provincianismo aqui imperante, mesmo entre boa parte das elites culturais, e – talvez mais doloroso para si – com o universo pré-moderno em que mergulhava o país rural e, necessariamente, a sua própria infância aldeã.

Nas décadas de 40 e 50, com poucas honrosas excepções – um Agostinho da Silva, um Jorge de Sena, um António Sérgio, talvez a de um Virgílio Ferreira e de um punhado de “renegados surrealistas” – tudo o que em Portugal era “do contra” e já não estava ligado filialmente ao republicanismo desembocava fatalmente na área ideológica dos comunistas, ou na aceitação táctica da “frente anti-fascista” que estes habilmente manipulavam. E se pensarmos na extraordinária penetração que o pensamento de Marx-Lénine logrou então em todo o mundo (em várias áreas científicas, em certas artes e na literatura, e necessariamente na política), não é difícil admitir que o nosso pensador não tenha podido eximir-se do colete-de-forças do marxismo como quadro de análise dos fenómenos políticos – já que, de economia, poucos percebiam realmente alguma coisa e era muito tentador para os ignorantes assumirem as premissas mecanicistas por ele propostas neste campo. A libertação deste dogma, só muito poucos o fizeram, e mesmo um espírito lúcido como António José Saraiva só o realizou tardiamente, alertado pelos levantamentos juvenis-culturais-urbanos dos anos 60, e não os conduzidos pelas “vanguardas” dos movimentos de descolonização. A “esquerda pensante” – independentista, gestionária ou apenas portuguesa – foi muitas vezes excelente no seu realismo político (a “análise concreta da situação concreta”) mas petrificou-se e impediu-se de identificar e entender outros fenómenos que corriam mais fundo, no âmago das sociedades (e, com atraso, também na portuguesa).     

Porém, ao contrário destes, Lourenço expatriou-se verdadeiramente para o mundo, sobretudo para o mundo da cultura clássica europeia e francesa, face aos dramas que a Modernidade também trouxe, alguns dos quais ele viveu directamente, embora sempre mais na condição de observador do que na de actor. Espírito ocidental mas aberto ao mundo e à diversidade, foi sempre cauteloso face ao anti-americanismo envolvente e tão do gosto dos intelectuais europeus (e de alguns norte-americanos).

Daí que também Eduardo Lourenço tenha sido surpreendido pelo protagonismo dos militares na “revolução dos cravos” em Portugal. Mas revelou a sageza de não vir apressadamente juntar a sua voz ao coro dos vencedores, antes colheu elementos adicionais para uma mais completa compreensão do que fora aquela tão prolongada ditadura paternalista e conservadora: para a sua “psicanálise”.

As últimas décadas terão sido mais penosas para a sua capacidade de pensar o mundo, porque este se estava deslocando, descentrando e metamorfoseando em termos mais difíceis de entender para um espírito racional, múltiplo mas atento ao peso da história, como era o seu. Já o predomínio americano e a lógica do confronto Leste-Oeste o questionava, quanto mais a “globalização” e a irrupção do islamismo político violento! E o seu narcisismo deveria sorrir com ironia pelas frequentes manifestações de apreço público de que agora era alvo, incluindo a última nomeação para o Conselho de Estado. Só talvez a “sociedade comunicativa” em que estamos a desembarcar verdadeiramente o interessasse, pelas desafiantes questões que ela levanta, em contexto técnico-económico absolutamente imperativo.

Depois da perda do melhor cronista português das últimas décadas – Vasco Pulido Valente –, deixou-nos agora o nosso mais lúcido e sapiente especialista da cultura lusa e ocidental.

O universo cultural em que Eduardo Lourenço se desenvolveu está provavelmente em profunda mutação. Mas é forçoso que o seu exemplo venha a iluminar os melhores das novas gerações.

JF (escrito há vários anos, mas publicado agora, na hora devida) 1.Dez.2020




Fonte: Aideiablog.wordpress.com