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Segui os Jogos Olímpicos atentamente desde 1952 até talvez à entrada na última década do século. E, como praticante desportivo, o meu principal “título de glória” teria sido o da participação nos Jogos de Tókio-64 ou de México-68, que as circunstâncias da vida impediram. Também com o mesmo interesse acompanhei os grandes campeonatos internacionais de atletismo, de hipismo-de-obstáculos, de automobilismo, de râguebi, de ténis e, obviamente, da esgrima, desde que estas competições passaram a ser objecto de transmissões televisivas. Também durante anos vi com gosto jogos de básquete, de futebol, de hóquei, de vólei e, mais tarde, de andebol ou de futebol-de-salão.

Tudo isso tem-se reduzido na ocupação nos meus tempos livres e tornado mais desinteressante ou mesmo desagradável. Naturalmente, pela minha idade, porque já “vi demais”. Mas julgo que não é só, nem sobretudo, por isso. É também pela evolução do “espectáculo desportivo” e pelas formas que ele assume nos dias de hoje.

Diremos aqui alguns dos aspectos que se nos apresentam como mais evidentes, tomando os Jogos Olímpicos como principal elemento de prova.

A primeira “machadada” no espírito de competição amigável e fraternização universal com que foram fundados os Jogos Olímpicos foi a da aceitação da “profissionalização” dos atletas. É certo que tinha havido casos de rigor excessivo como o de Jim Thorpe (a quem foram retiradas as medalhas por ter recebido dinheiro no seu país de origem – ou por ser índio?) e hipócrita benevolência durante várias décadas para com os “atletas de Estado” dos países socialistas do Leste. Era um amadorismo em parte “de fachada”, que beneficiava as pessoas mais ricas (como geralmente acontecia no hipismo, na vela ou mesmo no tiro) e fechava os olhos a situações como a de certos competidores militares a quem as suas instituições proporcionavam condições de treino ímpares. Mas a cedência do COI neste ponto abriu a porta a sucessivas etapas de mercantilização dos Jogos e do desporto em geral. No fundo, haver pessoas profissionalmente dedicadas em exclusivo a alguma destas actividades durante a fase mais vigorosa da sua vida não é senão um reflexo da evolução geral das sociedades. O pior vem depois. Por exemplo, tal como os clubes  compram os direitos de utilização dos futebolistas profissionais sem distinção de “cores”, também hoje os países mais ricos compram sem rebuço a naturalização dos melhores atletas dos países pobres na mira da conquista de mais e mais medalhas; e estes, naturalmente, “vendem” a sua cultura-de-origem por troca de uma entrada privilegiada no mundo dos mais poderosos.

O segundo passo terá sido dado quando a sua organização passou a depender financeiramente dos contratos de transmissões televisivas com as grandes redes globais do sector e da publicidade comercial de outras empresas multinacionais. As cidades e os estados organizadores continuaram a endividar-se com a construção das infra-estruturas mas compensavam-se com o turismo e a promoção de marketing que os Jogos lhes proporcionavam, como talvez nenhum outro evento mundial. E o Comité Olímpico (Internacional, mas também um pouco os nacionais) passou pela primeira vez a dispor de verbas avultadas vindas da economia, e já não apenas dos donativos de particulares (ou da “educação nacional”) como acontecera durante mais de meio-século. O “negócio” parecia favorável ao desenvolvimento do desporto e da educação física, mas pode tê-los corrompido por mais de um viés. O Movimento Olímpico conseguiu manter-se razoavelmente independente dos governos nacionais mas não evitou ficar muito à mercê de grandes interesses empresariais.

Um terceiro momento desta evolução terá sido a multiplicação de modalidades desportivas e de competições que tornaram os Jogos numa “máquina gigante”, capaz de activar subtis processos de desumanização, ainda que com as etiquetas mais simpáticas ou cativantes. O processo começou já há algumas olimpíadas (por exemplo, na natação, com a criação de novas “distâncias”), mas este ano excedeu-se com a introdução de um considerável número de “novos desportos”, numa clara operação de “populismo” e aliciação ou “assédio” aos mais-jovens (e mesmo adolescentes) com todos os traços coloridos do “politicamente correcto”. Naturalmente, o programa olímpico tem de evoluir, com alterações que não desvirtuem os princípios. Por exemplo, foi interessante agora ver a presença de uma modalidade adaptada de râguebi-de-sete, um desporto de grande conteúdo psico-social (excepto a chico-esperta manobra do “elevador”). Ou que certas provas de estafetas ou de pares, sejam agora de composição mista (sexualmente falando). Mas inventar um básquete-de-três ou trazer para os estádios as brincadeiras juvenis do skate (e porque não o “bilas”?) parecem da mais primária exibição de “adesão à realidade” – a menos que o investimento dos patrocinadores tenha sido chorudo…

Por outra banda, o “nacionalismo” com que pequenos países (como Portugal) seguem os desempenhos dos seus atletas assume contornos que roçam o ridículo e contribuem para agravar a carga psicológica que impende em especial sobre os mais salientes. O “medalhário” deixou de ser uma constatação estatística final para se tornar numa obsessiva fixação diária de jornalistas, repórteres e comentadores. Assistiu-se mesmo ao espectáculo patético de ter sido talvez mais destacada a decepção pela derrota em meias-finais do judoka Jorge Fonseca (porque só o queriam ver “de ouro”) do que a sua meritória conquista da medalha de bronze. Como que a fazer lembrar a subversiva e destrutiva palavra-de-ordem que alguns alarves mentecaptos já têm feito circular de que “o segundo (classificado) é o primeiro dos últimos”. 

Porém, a despeito disto, é normal que os portugueses se alegrem com os resultados honrosos agora alcançados por aquele lutador (que não é do boxe, sublinhe-se – uma prática indigna que já devia ter sido há muito banida dos Jogos), pela simpática Patrícia Mamona ou pelo persistente Fernando Pimenta, além do título de campeão do cubano naturalizado português Pedro Pichardo, e de vários outros bons resultados.

A violenta imbuição psicológica dos atletas para “a vitória” é nefasta e nega o espírito do olimpismo de: (ter a honra de) Comparecer – Disputar lealmente – procurar Superar-se – e Confraternizar (mostrando ao mundo que “paz e concórdia” são possíveis, mesmo em emulação). Mas ela é da responsabilidade de várias entidades: em primeiro lugar e mais à vista, dos treinadores (e psicólogos e médicos que os acompanham); logo por trás, dos dirigentes desportivos que planeiam, incentivam e “brilham” com o esforço dos outros; depois, pelos governantes que generosamente abrem créditos para tudo que o que seja panem et circenses; finalmente, pelas multidões de espectadores, quase sempre prontas a aclamar os vitoriosos e a rir-se dos perdentes. Como é óbvio, existem neste quadro muitas e honrosas excepções, mas as dinâmicas dominantes em acto não deverão andar muito distantes do quadro atrás pincelado. E, neste ponto, a própria circunstância dos Jogos de Tókio-2020 se terem disputado sem público nas bancadas dos estádios e pavilhões mais terá acentuado a sua “extra-territorialidade”: poderiam ter tido lugar em Marte, se a tecnologia já tivesse avançado um pouco mais (e amanhã talvez com robôs). O bom-senso teria levado à anulação dos Jogos da 32ª Olimpíada, como aconteceu durante as duas guerras. Mas, actualmente, the show must go on. Tudo isto agravado pelas mais recentes técnicas televisivas e comerciais, portadoras de uma estética surpreendente-juvenil-carnavalesca que, no limite, negam o conceito jornalístico de reportagem.

Nestas circunstâncias, o desesperado apelo da ginasta norte-americana à beira da débacle pessoal que, pelo menos nesse dia, conseguiu levar o mundo a um instante de reflexão, foi o acto de revolta que trouxe alguma luz de humanidade – ou mesmo de humanismo – a este magno conclave do desporto. Foi ele o seu momento mais significante. Foi ele que salvou os Jogos.

JF / 8.Agosto.2021   




Fonte: Aideiablog.wordpress.com