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O governo actual integra três ministras que têm vindo a enfrentar situações pessoais que não esperariam quando (adivinha-se, honradas e pressurosas) aceitaram o convite do primeiro-ministro. Pode imaginar-se que, se o soubessem, talvez reflectissem duas vezes antes de dizer o sim.

A crise sanitária e económica sujeitou, de facto, a um stress especial os titulares, altos funcionários e simples agentes dos departamentos da saúde, do trabalho e da cultura, talvez com o factor adicional de serem mulheres os seus principais responsáveis. Vejamos como isso pode ter acontecido.

Desde Março, as notícias e os indicadores da pandemia saltaram para o proscénio comunicativo dos media e, mais do que isso, para as preocupações e os comportamentos da população. O confinamento sanitário e a paragem da produção no segundo trimestre foi respondido pelo governo com uma intervenção monetária e legislativa sem precedentes para congelar ao possível o emprego e os rendimentos dos trabalhadores do sector privado, e adiando ou reduzindo as obrigações fiscais (e outras) das empresas – ao mesmo tempo que o emprego público se manteve quase incólume, ajustando-se às condições de funcionamento possíveis (com teletrabalho, ano escolar abreviado, mobilização hospitalar, etc.). Entre os sectores económicos que mais evidentemente colapsaram figurou decerto o turismo; porém, houve um outro que, já depois do confinamento mais estrito, sobressaiu acima da média. Refiro-me à situação dos agentes culturais (o que quer que isso seja em termos de contabilidade social), sector onde se sabe existirem muitos casos de emprego intermitente, instabilidade, precariedade e falta de previsão dos rendimentos auferidos. Agora, já se sabe que no 2º trimestre o PIB tombou fragorosamente e as previsões tingem-se de pessimismo. 

Nestes termos, compreende-se que à ministra da saúde coubesse o primeiro e mais ingrato papel de porta-voz do governo para fazer frente à emergente situação sanitária. A senhora exibiu-se quase diariamente com a linguagem estereotipado do tecnocrata, com frases-feitas e ideias-feitas típicas de jovem especialista com ambições ascensionais, quase sempre repetindo os mesmos três ou quatro “chavões” acertados na véspera com os seus conselheiros de gabinete, ou remetidos directamente por um “cartão” do “primeiro”, pois que desde a última reunião semanal do “conselho” já não houvera tempo para acertar as agulhas da “política de comunicação” do governo, ajustável ao dia-a-dia. É humanamente possível que, assim pressionada, a ministra tenha por vezes cedido a alguma pergunta mais insidiosa de jornalistas em conferência-de-imprensa, perante informações desconexas que a cada hora lhe chegavam dos seus técnicos, da OMS, de S. Bento ou mesmo de Belém. Que, atenta às mensagens e críticas vindas de Ordens e sindicatos do sector, ela tenha frequentemente claudicado na avaliação das situações, clareza das decisões, capacidade de discutir em conselho face a outros pares (as finanças, a economia), planeamento a curto-médio prazo e concertação com o que se ia passando em países vizinhos. A sua escapatória foi a de responder sempre, embora com as estafadas tiradas do “vamos implementar…” ou do “estamos a seguir atentamente…”. Porém, conseguindo nunca desmanchar o seu sorriso-de-plástico para as câmaras televisivas e a palavra-automática para o microfone estendido. Merece pelo menos uma medalha pela abnegação demonstrada. E talvez mais ainda quem a apoiou nos momentos de recuperação. As medidas tomadas são certamente criticáveis mas só os invejosos impenitentes e adversários políticos (como a bastonária dos enfermeiros) se aprestariam a estar agora naquele lugar.

Ninguém tem dúvidas que a situação foi (e é) dificílima, quer no plano doméstico quer no da coordenação internacional. Desse ponto de vista, além das populações já de si mais fragilizadas (doentes, idosos, pobres e marginais), merecem toda a nossa atenção e reconhecimento os profissionais da saúde, que tiveram de actuar na “primeira linha”. Basta pensarmos que talvez um terço dos infectados (de maior ou menor gravidade) foram precisamente os enfermeiros, médicos e outros profissionais do sector. Para eles, a sociedade oficial deve destinar o seu mais sincero agradecimento. O que não quer dizer que tal deva constituir argumento para reivindicações despropositadas face ao enquadramento nacional em que operam.   

Com o mesmo perfil de jovem-quadro-inserido-em-estrutura partidária, a ministra do trabalho (e da segurança social) tem ficado bem abaixo da sua congénere da saúde, excepto no sorriso, ainda mais postiço. Provável é ter seguido o mesmo processo de recrutamento e ascensão que a maioria dos governantes actuais – ministros e secretários de Estado, só agora ultrapassados em número pelo pletórico executivo de Macron – com o critério facilitador adicional de um apelido com marca na indústria nacional. As decisões relativas ao “lay off parcial” e outras ajudas aos trabalhadores afectados pela travagem da economia, ainda que tenham sido estudadas e preparadas pelos seus serviços, quase certamente avançaram após terem sido equacionadas e decididas a um nível “mais elevado” do partido e do governo. E o desempenho comunicacional da ministra da Praça de Londres foi geralmente pouco mais do que sofrível, quer no parlamento, quer perante os media, sem capacidade de debate contraditório e refugiando-se na mera repetição dos três argumentos decorados na véspera. Além de que, como tantas vezes acontece, se terão verificado de novo as manobras de “maquilhagem” das estatísticas e os anúncios para “épater le bougeois”, com medidas que soam bem quando escutadas a distância e repetidas nos noticiários mas cujo efectivo universo de aplicação os conhecedores sabem ser muito mais reduzido do que parece. Para já não falar dos tempos que levam as decisões a chegar “ao terreno” e a “peneiragem” que sempre ocorre nos processos de candidatura efectuados on line pelos interessados. 

Finalmente, já mais para os tempos de recuo da epidemia e de tímida tentativa de retoma das actividades socioeconómicas, foi a ministra da cultura que mais sobressaiu em palavras, acção e atitudes polémicas. É verdade que espectáculos, divertimentos e fruição de bens culturais “fixos” (como museus, livros ou património edificado) estiveram parados durante vários meses e que só agora vão reabrindo, desde que não impliquem grandes ajuntamentos de espectadores. É verdade também que boa parte dos profissionais (ou trabalhadores ocasionais) afectos a tais actividades não beneficiam de um contrato de trabalho permanente ou sequer a prazo. A precariedade e “o desenrasca” têm aqui grande curso. Mas não é menos certo que aqueles criadores e agentes cujos “produtos” se difundem (e vendem) por meios técnicos audiovisuais (música, cinema, etc.) puderam em boa parte continuar a funcionar “estando parados em casa”, havendo mesmo notícia de expansões do mercado, em certos casos. Além disso, e mais importante, trata-se de um sector eminentemente criativo onde os seus agentes gozam do privilégio de uma verdadeira autonomia, porém condicionada a terem quem lhes remunere o esforço para poderem viver. Passado o tempo dos reis-mecenas e rejeitando eles geralmente o estatuto de artistas-de-Estado (por justificado orgulho na sua independência), não basta reclamar dos poderes públicos financiamentos para o sector da cultura – que tem muito com que lidar, do património à língua e à educação, para além de subvencionar ou estipendiar os artistas e algumas das suas actividades. Desde há muito que há exemplos de criadores que se auto-protegeram dessas debilidades estruturais através da criação de mutualidades, cooperativas e outras livres associações, para os ajudar a suportar estas situações de desemprego, doença ou envelhecimento. Talvez que, se não fossem tão imprevidentes e vaidosos (e simultaneamente deixados colocar na dependência económica dos governos), não tivessem chegado ao ponto crítico onde se acredita que agora estejam.       

Esta é decerto uma radiografia parcial da situação, mas ela talvez ajude melhor a perceber a tensão que dizem existir actualmente entre “os artistas” e a ministra que tutela o sector. Esta, de quem a vox populi faz correr ser homossexual sem preconceitos ou inibições – diz (nesta data) a Wikipedia na página que lhe é dedicada: «Em 22 de Agosto de 2017, Fonseca afirmou pública e politicamente a sua homossexualidade, em entrevista ao Diário de Notícias. Foi a primeira vez em Portugal que um político em funções assumiu a sua homossexualidade. Por isso, recebeu o Prémio Arco-íris de 2017 da ILGA Portugal.» –, o que talvez também tenha concorrido para a sua escolha para a função, dada a atenção do primeiro-ministro e estes detalhes pessoais e aos previsíveis lucros que espera obter junto de certa área política e eleitoral. Deste modo, se ela partilha ainda com as anteriores colegas de governo semelhantes características de percurso em direcção ao poder (grau académico avançado, filiação ou parentesco partidário, geração, condição feminina, etc.), talvez o tenha feito menos pela fileira meramente partidária (das Jotas até aos Partidos e das periferias autárquicas-geográficas até ao centro) e antes pela precoce proximidade a cargos públicos executivos (nos gabinetes ministeriais ou Câmaras, em convivência com políticos de nome firmado no plano nacional).    

Que a titular da pasta não possa “abrir mais os cordões à bolsa” do que aquilo que lhe consente o ministro das finanças e lhe recomenda o da economia (com eventual arbitragem do “primeiro”), é coisa fácil de compreender. Que, com voz altiva ou indignada, os “agentes culturais” reclamem mais apoios financeiros, directos e indirectos; e que a ministra responda agora que nunca se tinham visto desembolsos com a dimensão daquele que ela acabara de decidir – tudo isso é já matéria vista e habitual. Mas observar na televisão um jogo fisionómico e de linguagem – com “langue de bois”, esgares, meias-palavras e subentendidos em catadupa – como aquele a que a ministra se tem prestado nos últimos dias face a certos jornalistas (alguns, convenhamos, bem agressivos), eis o que pode surpreender o cidadão menos atento a estas “tricas”: uma acrimónia muitas vezes observável, por exemplo, em casos de traição pessoal, em que as relações passam rapidamente de um extremo a outro, do amor ao ódio.

É algo a que os negócios públicos deviam ser poupados. E, sobretudo, o descanso psico-emocional dos cidadãos.

JF – 2.Agosto.2020




Fonte: Aideiablog.wordpress.com