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Sexo, riqueza, poder

Estes três termos foram entrevistos desde tempos recuados como as mais poderosas forças que motivam e impulsionam a acção humana e, pelo menos até agora, ainda não se pode dizer que tenham perdido a sua validade.

A sociologia interessa-se pouco por este género de intuições e observações da experiência, preferindo fixar-se mais em conceitos operativos que possa validar, ou desmentir, em verificações empíricas práticas e sobre números controláveis de casos. A psicologia, por seu lado, tendo-se desenvolvido imenso no último meio século, tem talvez sofrido alguma coisa pelo facto da especialização que vem caracterizando as suas aplicações – psicologia clínica, psicologia social, psicologia da educação, psicologia do trabalho e das organizações, psicanálise, etc. – o que pode também ter afectado a sua elaboração teórica mais fundamental. E o pensamento político-filosófico não parece ter voltado a dar grande prioridade ou centralidade a um tipo de reflexão e indagação sobre estas dimensões de base da acção humana.

No entanto, talvez que as motivações (ou os móbeis) da acção dos indivíduos possam explicar melhor algum tipo de decisões que estes tomam quando ao comando de instituições, ou quando têm “entre mãos” questões cruciais que afectam o destino de povos, nações ou multidões. Não houve já quem escrevesse um livro sobre “os doentes que nos governam”, referindo o estado de saúde de vários dirigentes mundiais em certa época?

As antigas disputas dinásticas resultaram muitas vezes em casos de violência extrema, embora focalizada, porque facilmente combinavam o pior destes três factores: amores frustrados, ódios e ciúmes; embriaguez na riqueza em que viviam; e ambição desmedida de poder. Henrique VIII de Inglaterra não foi o único. E Shakespeare bem o sabia quando escreveu o seu Hamlet ou selou as palavras “Até tu, Brutus?” na morte de Júlio César. Apenas um pouco mais velho do que ele, Camões juntou ao inigualável talento a inteligência política, que adquirira talvez ao longo da sua peregrinação pelas águas-baixas do império: endeusou “as armas e os barões assinalados” mas não para subsumir “os Portugueses”, a quem ele, como povo, desejaria sobretudo encorajar.

O nosso D. João V, no auge “do ouro e dos diamantes do Brasil” também mostrava “as duas faces de Janus”, nos favores e nas disputas de alcova e, do outro lado, no sonho de Mafra, a única obra arquitectónica verdadeiramente majestosa que a Monarquia lusa legou para a posteridade. E o mesmo aconteceu, por exemplo, com Bonaparte que, de cônsul republicano e exportador (na ponta das baionetas) das ideias de liberdade e igualdade para toda a Europa, se tornou ele próprio Imperador e coroou pelas suas mãos a Josefina dos seus amores, antes de a repudiar trocando-a pela austríaca Maria Luísa. 

Mas já em contextos modernos ficaram célebres as lutas pelo poder cimeiro do Estado na Rússia comunista e a obsessão de Estáline até conseguir o aniquilamento físico de Trotsky, ou então a psicose de Hitler contra os Judeus, para já não referir a perenidade do seu Reich “de mil anos”.   

Mais modestamente, pode pensar-se que o desporto tem vindo a ceder pontos ao espectáculo desportivo e que o seu antagonismo simbólico (com “glória para o vencedor e honra para os vencidos”, todos cumprimentando-se no final como leais adversários momentâneos) tende a deslizar para a vontade de vencer a-qualquer-preço, como demonstra a elucidativa frase de que “o segundo é o primeiro dos últimos”. E a mais banalizada “política dos partidos” – mais propensa ao cesarismo ou mais tentada pela demagogia – não fica muito atrás do clubismo exacerbado de certas “claques”, de vários presidentes de SAD’s ou dos treinadores que “fanatizam” os seus atletas no balneário.

Há pouco tempo, uma analista do Expresso referia o colapso da Archegos Capital como um alerta para uma nova possível derrocada financeira (como o Lehman Brothers o foi em 2008) citando que “o recurso à alavancagem está na origem da maior parte das bolhas”, que neste caso “a alavancagem era de cinco vezes, metade da que provocou a Grande Depressão”, que isto pode não ter sido mais do que um percalço mas deveria funcionar como um “alerta de fim de ciclo para os investidores e para a banca de investimento” e também um “sinal de que a avidez dos investidores pelo risco está longe de estar satisfeita”. (Margarida Cardoso, “A Archegos é um estouro isolado ou será apenas o primeiro?”, Expresso-Economia, 1.Abr.2021: 30) Avidez, risco, bolhas – eis palavras do jargão bolsista que traduzem o insaciável apetite de quem possui já imensa riqueza monetária mas não se contenta com ela ou em procurar aplicações benéficas para o conjunto (mundial, em que operamos), mas antes em apenas querer aumentá-la, duplicá-la se possível, num jogo de casino em que o risco se torna vício ou profissão… até que chegue o estoiro! 

Passemos à esfera político-comunicativa. As “Jotas” são centros de aperfeiçoamento para jovens ambiciosos em “fazer carreira” na política. Talvez que nas primeiras gerações houvesse a vontade de intervenção cívica para modernizar o país ou defender ideologias progressistas em choque com os atavismos nacionais, mas essas motivações foram já ultrapassadas. É claro que o vanguardismo e a ânsia de protagonismo estão sempre à espreita de uma oportunidade, que agora lhes é oferecida por essas causas e indignações que são capazes de correr o mundo num instante, seja a legítima repulsa com que podemos assistir ao assassinato do afro-americano George Floyd ou à repressão militar em Myanmar, sejam as agitações de rua que derrubam estátuas ou nos exigem desculpas e reparações pelos actos e pensamentos de nossos longínquos antepassados.

Naturalmente, há casos e casos, e exemplos pessoais para todos os gostos: senhoras radicais nas suas afirmações como Isabel Moreira ou Joacine Qatar Moreira (e, na outra banda, extrema, o sr. Ventura); e gente inteligente e livre nas opiniões que publicam como os antigos “jotas” Carlos Coelho e Sérgio Sousa Pinto, aliás formados nos viveiros dos dois partidos maioritários. Pessoas deste meio ocupam a quase totalidade do espaço de debate político das rádios e televisões, ao lado de alguns comentadores bem preparados na função e que não são, simultaneamente, políticos no activo ou em pousio, à espera de nova temporada. Perguntava-se há dias no Le Monde: «À coups de polémiques et d’analyses à chaud, experts et essayistes, journalistes et communicants sont invités à commenter en permanence l’actualité. Progrès démocratique ou régression idéologique?» (Nicolas Truong, “Le commentariat étend son influence, des réseaux sociaux aux chaînes d’info en continu”, 10.Abr.2021)

Mas, à parte isso, o que nos surge como um fechamento muito empobrecedor é o facto de todos estes programas escolherem exactamente os mesmos três ou quatro “casos da semana” como tema para análise e discussão. É a concorrência implacável entre estações e a luta pelas audiências que aqui ditam as suas regras. Não são “lutas de morte” nem hoje se “abatem os mensageiros” pelas más notícias que trazem ao Senhor (como os jornalistas gostam de justificar os seus erros), mas são estes escassos intervenientes que hoje nos constroem as “visões do mundo” que nos são impostas, as mais das vezes sem cuidar devidamente dos seus efeitos sobre populações impreparadas e sem o sentido das responsabilidades que devia orientar os critérios éticos e profissionais dos “comunicadores”.

O provisório desfecho do “caso Sócrates” foi mais uma oportunidade de ouro para o exercício de uma certa “psicanálise” da sociedade portuguesa – que aliás vejo cada vez mais parecida com a francesa e demais da vizinhança, que vou seguindo a distância, como posso. Mas, a propósito, lembro-me de ter publicado on line em Janeiro de 2014 (depois inserida no livro Crónicas desassombradas e ensaios sócio-lógicos, Esfera do Caos, 2015: 98-105)uma apreciação crítica do livro que o ex-primeiro ministro acabara de publicar e de, como antigo filho da casa, ter qualificado aquela tese de mestrado de Sciences Po como contestável e enviesada no fundo, mas concordante na forma com o modelo vigente na instituição – ao que um amigo mais atento do que eu logo reagiu: “E tu sabes se foi ele que a escreveu?”

A “novela” das vacinas anti-Covid é também um outro exemplo ilustrativo do nosso mundo actual hiper-comunicativo onde se misturam enormes interesses económicos, os pareceres dos mais variados especialistas e governantes “às aranhas” a correr atrás das sondagens de opinião e das “últimas” que estão a circular nas “redes” ou nos canais televisivos de impacto mundial. Tal como a expectativa da ocorrência algum incidente no mar do sul da China ou entre a Rússia e a NATO no escaldante cenário da Ucrânia. E, para mal daquelas populações, o que vem ocorrendo no norte de Moçambique.

As competições assumidas à outrance, o exclusivismo, as campanhas de descredibilização e as rivalidades incendiárias podem não matar, mas criam ou agudizam ambientes sociais deletérios que prejudicam a cooperação e afugentam as boas-vontades.

O amor é provavelmente “a coisa mais bela do mundo” e negá-lo pode ter graves consequências. Acredita-se sem reserva na espiritualidade e renúncia de muitos que dele prescindiram em favor de outros valores ou porque a natureza assim os fez, mas as sociedades organizadas são outra coisa e hoje sabem-se melhor as consequências das “meras regras disciplinares” que o celibato trouxe para moderna Igreja de Roma e quiçá para as comunidades de monges budistas.

A pandemia que nos assola desde 2020 tem vindo a constituir-se como revelador de algumas coisas más que a frivolidade do dia-a-dia permitia “varrer para debaixo do tapete”. Fala-se de violência doméstica, e disso sabemos ainda pouco, para além do afã dos/das militantes da causa. Mas há coisas mais visíveis. De indigesta que já era, a publicidade televisiva tornou-se insuportável, pelo menos para alguns (entre os quais me incluo), mas aparentemente não para a maioria, de onde não saem porta-vozes de críticas ou de grandes descontentamentos. É mau sinal: são conhecidos na história os excessos e as orgias depois das fases de grandes aflições. E percebe-se (pelas amostras) que entre os criadores desempregados ter-se-ão talvez acentuado as pulsões mais disruptivas, seja destapando o potencial de agressividade e violência destrutiva que reside em cada um de nós, seja investindo no campo da sexualidade e do erótico por via de formas apenas mais destemperadas.

É assim. Pugnas agónicas gizadas nos topes políticos, embates espectaculares-desportivos de ressonância mundial, manobras financeiras de alto-risco, concentração mediática, “lavagens de cérebro” publicitárias, estéticas de ruptura – eis alguns dos vários campos em que se tem sobretudo exprimido a criatividade estrangulada pela ausência do contacto social directo.  

E, para não fugir à norma, também nós vimos acusando o mesmo peso incómodo.

JF / 16.Abril. 2021




Fonte: Aideiablog.wordpress.com