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Embora o teatro americano possa não ter acabado ainda, é já possível acentuar um certo número de observações sobre a política e a sociedade na terra do Tio Sam nestes tempos difíceis.

Escrevemos “voto contra twit” porque nestas últimas semanas estiveram sempre em tensão duas lógicas contrastantes: por um lado, uma máquina administrativa eleitoral imensa e complexa, de recenseamento, verificação, fiscalização contraditória, tratamento automático de dados (repararam nas máquinas de leitura automática dos boletins de voto?) e possibilidade de recurso contencioso ou jurisdicional envolvendo muitos, muitos milhares de cidadãos (o nervo vivo da democracia yankee); e, por outro lado, a guerra de palavras, as notícias e imagens escolhidas a dedo, as afirmações e argumentos propagandísticos cujo tom foi estabelecido, desde anteriormente (os últimos quatro anos) pela inacreditável postura de Donald Trump, em linha com a pior expressão das social networks, onde a verdade e a mentira são indiferentemente invocadas para alimentar um chorrilho de disparates, ofensas à inteligência e baixezas, estando ali ausente qualquer debate de ideias ou projectos para o presente e o futuro da sociedade americana – e já agora também na nossa, nas diferentes partidas do mundo.  

Tom agónico, também, no duplo sentido da palavra, de enjoo e repulsa instintiva, por um lado; mas igualmente de vontade de aniquilamento do outro, que só não se materializa pela presença de outras forças de contexto, como sejam a pressão social, o aparelho legal ou, apesar de tudo, uma réstia de racionalidade quanto às consequências nefastas de tal gesto.

Assim parece, visto à distância, o estado actual da sociedade americana: uma poderosa democracia política, mas enfraquecida pelos seus movimentos associativos ou inorgânicos; uma economia rica mas muito desigual e hoje com várias fragilidades externas; e uma segmentação de comunidades socioculturais que se compreendem e toleram mal umas às outras mas em que todas se reconhecem numa espécie de identidade supranacional “born in USA”.

O grau de antagonismo e de polarização em que nos últimos anos se cristalizaram as posições dos “blues” (simbolizado no burro do Partido Democrático) e dos “red” (do elefantinho do Partido Republicano) atingiu um ponto tal que lembra a divisão que pôs o país em ódio nas vésperas da guerra civil de 1861-65 por causa da abolição da escravatura. A grande diferença para os tempos actuais é que, aos dois “partidos”, falta a territorialização das suas diferenças e dos seus ódios: um “Norte” contra um “Sul” que os torne mais visíveis e materializáveis – pois não basta a dispersão das periferias contra os “bairros chiques”, das pequenas cidades de província contra as grande metrópoles, das famílias vizinhas contra os “lugares de cultura jovem”.

Mas – felizmente para todos – também lhes faltam alguns outros elementos essenciais: o ter meios para mobilizar forças combatentes, armadas (porque parece blindado, o poderio das tropas federais); e o ter lideranças capazes de assumir de ambos os lados uma tal guerra. Em Trump, personalizou-se esse detestável papel: o de chefe da “America greate again”, dos bandos de supremacistas brancos e do partido das armas (do NRA que tem 6 milhões de membros, e outros clubs); em suma: de um nacional-populismo em movimento. Mas, do lado oposto, nada há de equivalente, antes uma ausência de espíritos brilhantes (como, apesar de tudo, era Obama) ou de personalidades agregadoras. Os “movements” estão entregues a si próprios: anti-racistas, “occupay”, “me too”, etc., também sem esquecer os agora chamados TPC’s (Talibans Politicamente Correctos). Já não há espaço para a emergência de algum voto socialista (talvez capitalizado pela ala esquerda democrata de Bernie Sanders) ou liberal-libertário (como ainda ocorreu em 2012 e 2016, e antes por independentes como Ross Perrot e Ralph Nader).

Contudo, talvez que a imagem de “avozinho moderado” de Biden ajude agora a acalmar os ânimos, uma vez afastado o senhor-da-melena-pintada da Casa Branca, e torne o sistema de relações internacionais um pouco mais inteligível (porque aí também se jogam processos fundamentais). Embora fiquemos talvez a dever a Trump alguma travagem nos excessos da globalização – o que só daqui a uns bons anos se poderá apreciar devidamente.

Mas não é certo que essa moderação do novo presidente – tão representativo do “sistema” instalado em Washington DC como ele é – não venha precisamente a ser explorado pelos seus adversários para alimentarem uma “guerrilha” política, legal e social durante os próximos quatro anos e conseguirem então a “estrondosa vitória” que lhes fugiu agora.  

Nesta extraordinária suspensão da vida social que estamos experimentando, em que o Estado todos os dias emite ordens “para o nosso bem” e inventa dinheiro que alguém um dia vai ter que pagar com língua-de-palmo, não nos vão faltar motivos de preocupação para os tempos que se avizinham.

JF / 8.Nov.2020




Fonte: Aideiablog.wordpress.com