Abril 19, 2021
Do Reporter Popular
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Fotos publicadas originalmente no site Deriva Jornalismo (clique aqui para acessar)

Na última quinta-feira, dia 15, o conselheiro regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Roberto Liebgott, foi chamado pelo cacique Guarani Mbyá Roberto Ramirez para fazer uma visita de urgência à aldeia Pindó Poty, que fica à margem da Estrada do Varejão, no bairro Lami, extremo sul de Porto Alegre. Chegando lá, foi recebido pelo cacique com a denúncia de que grileiros juruá – não indígenas – estão invadindo e fazendo loteamentos ilegais no território Guarani. A denúncia se espalhou pelas redes, e a sua repercussão mobilizou apoiadores a se fazerem presentes.

Hoje, no emblemático dia 19 de abril, o Repórter Popular, junto ao Cimi, à Comissão Yvyrupá, à Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários (AEPIM), e diversas outras entidades, grupos, parlamentares e indivíduos apoiadores, visitou a aldeia para prestar solidariedade e cobrir a situação. Também estão começando a chegar parentes Guarani de outras localidades, como Élio, da aldeia Canto dos Pássaros em Maquiné, para apoiar a aldeia e decidir o que será feito para resistir à invasão. A aldeia, que atualmente conta com apenas sete famílias, e é constituída principalmente por crianças, se encontra em situação de risco e precisa de todo o apoio possível.

É “dia do índio”, e não temos nada para festejar. Na data de hoje, nos sobram motivos para fazer memória à luta dos povos originários e denunciar o ataque colonial, que vem acontecendo há mais de quinhentos anos neste solo.

Segundo o conselheiro do Cimi Regional Sul, a aldeia Pindó Poty faz parte de um amplo território ancestral Guarani Mbyá , que perpassa as regiões do Lami, da Ponta do Arado, Cantagalo e Lomba do Pinheiro. O cacique da aldeia relata que ela existe pelo menos desde a década de 40 do século passado, e relembra os nomes das lideranças mais velhas que vieram antes dele – cacique Sebastião, cacique Valdomiro, cacique Pedro. Roberto Ramirez vive no território há pelo menos quinze anos com seus parentes, e ali planta aipim, milho crioulo Mbyá, melancia, banana, butiá – pindó, que dá nome à aldeia -, laranja, bergamota. Ramirez nos mostrou a parte externa da opý, casa de reza, que foi concluída há duas semanas.

Os três barracos da invasão foram construídos nos últimos quinze dias, sobre loteamentos irregulares que, segundo o cacique, vêm acontecendo com mais frequência nos últimos tempos. Os juruá invadem o território, desmatam e fazem cercamento com arame farpado de fatias cada vez maiores de terra. O fotojornalista Alass Derivas fez registros fotográficos do interior das construções – todas vazias. Apenas uma continha rolos de arame farpado, rastelo e foice. Há roupas nos varais mas nenhuma presença humana; não há nem mesmo um tanque para lavá-las. Tudo indica que estejam sendo utilizadas táticas de grilagem por agentes externos, forjando uma ocupação para moradia com o intuito de dificultar a remoção dos invasores e delimitar o espólio.

Enquanto estávamos cobrindo a pauta, o cacique Roberto, o fotojornalista Alass e o conselheiro do Cimi caminhavam às margens da rodovia, quando foram hostilizados por homens próximos ao mercado que fica em frente à área invadida. Foram chamados de “vagabundos” e sofreram ameaças. “Vou dar uma camaçada de pau, botar todo mundo pra correr!”, gritava um destes homens.

Além desta invasão, que é motivada por interesses de especulação imobiliária, há uma família juruá ocupando o território Guarani. Esta família construiu uma casa de madeira e alvenaria há mais ou menos um ano e meio, no desespero por moradia. Estão errados de invadir a soberania territorial dos Guarani, mas não devem ser confundidos com os grileiros criminosos. O pai da família, que não terá o nome revelado por questões de segurança, disse não ter nada contra os Guarani – muito pelo contrário, segundo ele, as relações com eles são relativamente amigáveis. Ele teme ser despejado, na esteira da remoção dos invasores recentes, com sua esposa e três filhos, e acabar em situação de rua. Apoiadores dos Guarani explicaram que, quando a terra for demarcada, o poder público o indenizará ou encontrará outra forma de compensá-lo, e que não deve se preocupar com isso, pois seus inimigos não são os indígenas, que também lutam pelo direito de ter onde viver com suas famílias. O inimigo é outro.

O Cimi acionou o Ministério Público Federal (MPF) para emitir uma liminar de reintegração de posse na área invadida, que até o fechamento desta matéria não foi emitida. A Fundação Nacional do Índio (Funai) também foi acionada, mas nada fez, utilizando o argumento de que a terra não foi demarcada ainda, e assim está de mãos atadas. Há um laudo antropológico em processo de elaboração desde 2012 pela Funai, mas o processo tem andado a passos lentos por conta da pandemia, mas também por falta de infraestrutura e vontade política. O MPF já emitiu uma Ação Civil Pública para que a Funai acelere o andamento do laudo, mas até agora ele segue em elaboração. Desde 2019, a Funai vem sendo aparelhada pelo novo governo federal; o presidente mesmo falou que no seu governo não terá demarcação de terras indígenas. Avançam os ataques, com vistas à retirada de direitos dos povos originários, atendendo aos interesses do latifúndio, da mineração, da especulação imobiliária, etc.

A segurança alimentar dos povos originários está ainda mais ameaçada com a pandemia, e é preciso exercer a solidariedade ativamente, sobretudo neste momento. A Pindó Poty está recebendo doações de alimento (leite, farinha de trigo, erva-mate, arroz, fumo de corda) na Estrada do Varejão, 217, bairro Lami.




Fonte: Reporterpopular.com.br