Fevereiro 11, 2022
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

Há não muito tempo publiquei aqui um artigo sobre a fusão entre o amor e a morte na poesia portuguesa, Que povo é este, que povo?, ilustrado com interpretações de fado, e fiquei então com vontade de escrever já não sobre poesia, mas sobre o próprio fado, música urbana por excelência, daquela cidade junto ao rio e à beira do mar de que tanto gosto.

A história do fado está por fazer, se é que algum dia será feita, mas basta ouvir-lhe a música para lhe perceber raízes étnicas variadas e geograficamente dispersas, desde a Andaluzia até às idas e voltas ao Brasil. O fado resultou de uma miscigenação, como todas as grandes formas artísticas resultaram de miscigenações, o que desde já põe em causa os identitarismos. O que se sabe em definitivo é que o fado se gerou e desenvolveu ao longo do século XIX nas docas de Lisboa, canção de rufias e prostitutas, de uma certa fidalguia também, que gostava de se acanalhar com a ralé. João Ferreira Rosa, um dos maiores fadistas da minha geração, se não o maior, monárquico e tradicionalista, evocou na mais célebre das suas interpretações, Embuçado, este comum fascínio que a nobreza e a ralé sentiam pelo fado.

Noutro tempo a fidalguia
Que deu brado nas toiradas
Andava p’la Mouraria
Em muito palácio havia
Descantes e guitarradas.

A história que eu vou contar
Contou-ma certa velhinha
Uma vez que eu fui cantar
Ao salão de um titular
Lá p’ro Paço da Rainha.

E nesse salão doirado
De ambiente nobre e sério
Para ouvir cantar o fado
Ia sempre um embuçado
Personagem de mistério.

Mas certa noite houve alguém
Que lhe disse, erguendo a fala:
— Embuçado, nota bem,
Que hoje não fique ninguém
Embuçado nesta sala!

Ante a admiração geral
Descobriu-se o embuçado.
Era El-Rei de Portugal
Houve beija-mão real
E depois cantou-se o Fado.


João Ferreira Rosa canta Embuçado, com letra de Gabriel de Oliveira
sobre a música do
Fado Tradição, de Alcídia Rodrigues.
Nas guitarras estão José Pracana e Fontes Rocha
e nas violas Francisco Peres e José Carlos da Maia
.

Este era o ambiente social e geográfico, e nele o fado construiu o seu próprio mito — o mar e o marinheiro, um amor que parte e outro que fica em terra, a distância e a saudade. José Régio foi um dos grandes poetas portugueses do século XX, e não encontro ninguém que tivesse tão bem consagrado o mito, no poema Fado português.

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


Amália Rodrigues canta Fado português, poema de José Régio,
com música de Alain Oulman
.
Na guitarra está Domingos Camarinha e nas violas Castro Mota e Martinho d’Assunção.

Para além da história e do mito, o que é o fado? Não como nasceu e se apresenta, mas como ele é. Se a própria Lucília do Carmo, que José Carlos Ary dos Santos considerou «um clássico do fado», repetiu, como tantas outras cantadeiras, antes dela e depois, que «O fado é tudo o que eu digo / Mais o que eu não sei dizer», como se poderá saber o que é o fado, senão pelo eco que nos soa?

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado.
Eu disse que não sabia,
Tu ficaste admirado.
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia,
Mas vou-te dizer agora.

Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras.
Na Mouraria
Canta um rufia,
Choram guitarras.
Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado.
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado,
Não me fales só de amor,
Fala-me também do fado.
O fado, que é meu castigo,
Só nasceu p’ra me perder,
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer.


Lucília do Carmo canta Tudo isto é fado, com letra de Aníbal Nazaré
e música de Fernando de Carvalho
.
Ignoro quem está na guitarra e na viola.

Devia ter dito antes, se não quisesse começar de outra maneira, que existe um fado feminino e um fado masculino. No fado feminino a voz liberta-se, ou pode libertar-se e cada sílaba prolongar-se em volutas de som, enquanto o fado masculino deve ser sóbrio e fracassa completamente quando não o é. Se, por exemplo, Fernando Maurício ainda está dentro dos limites do suportável, já ouvir Francisco Martinho é confrangedor, como se verifica aqui. O contraste entre Amália Rodrigues e Alfredo Rodrigo Duarte, conhecido como Alfredo Marceneiro, ilustra bem o estilo feminino e o masculino. Amália tem no fado o mesmo estatuto que a Callas na ópera italiana, quero dizer, quem nunca foi superada e jamais o será. E assim como Amália é o modelo do fado feminino, Marceneiro é o modelo do fado masculino. (Sugiro uma experiência. Ouçam Marceneiro a cantar e depois Louis Armstrong, ou na ordem inversa.) João Ferreira Rosa, que escutámos no começo deste artigo, foi um discípulo atento de Marceneiro, que aliás aparece no vídeo fugazmente em primeiro plano, um senhor idoso de cabelo pintado e óculos escuros, com o indispensável cachené que ele nunca largava. Amália usou a música de Marceneiro para escrever a letra de Estranha forma de vida, mas foi com a sua voz que cantou.

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade,
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade,
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração.
Vive de vida perdida,
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
Coração que não comando,
Vives perdido entre a gente,
Teimosamente sangrando,
Coração independente.

Eu não te acompanho mais.
Pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
Porque teimas em correr?
Eu não te acompanho mais.

Se não sabes onde vais,
Pára, deixa de bater.
Eu não te acompanho mais.


Amália Rodrigues canta Estranha forma de vida,
com letra dela própria e música de Alfredo Marceneiro
.
Na guitarra está José Nunes e na viola Castro Mota.

Ouvidas as espirais da voz de Amália, que sempre rasgam no horizonte um infinito de desejos, fazendo-os depois contrastar com os limites das ruas estreitas da cidade, é agora a voz de Marceneiro que nos traz de volta a essas ruas, às vielas que aprisionam os destinos e que ele cantou sobre uma música sua, a do Fado Cravo, com letra de Guilherme Pereira da Rosa.

Fui de viela em viela.
Numa delas, dei com ela
E quedei-me enfeitiçado…
Sob a luz dum candeeiro,
Estava ali o fado inteiro,
Pois toda ela era fado.

Arvorei um ar gingão,
Um certo ar fadistão
Que qualquer homem assume.
Pois confesso que aguardei
Quando por ela passei
O convite do costume.

Em vez disso, no entanto,
No seu rosto só vi pranto,
Só vi desgosto e descrença.
Fui-me embora amargurado.
Era fado, mas o fado,
Não é sempre o que se pensa.

Ainda recordo agora
A visão, que ao ir-me embora
Guardei da mulher perdida.
Na pena que me desgarra
Só me lembra uma guitarra
A chorar penas da vida.


Alfredo Marceneiro canta Viela, com letra de Guilherme Pereira da Rosa
sobre a música do
Fado Cravo, composta pelo próprio Marceneiro.
Na guitarra está Francisco Carvalhinho e na viola Martinho d’Assunção.

Hesitei noutros casos, mas agora não resisto a comparar interpretações. A gravação anterior data de 1961. Em 1976, com oitenta e cinco anos de idade, cabelo pintado e óculos escuros, além do cachené, a voz de Marceneiro é mais pungente ainda.


Nas guitarras estão José Pracana e Fontes Rocha
e nas violas Francisco Peres e José Carlos da Maia
.

É muito diferente a expressão estilística de Estranha forma de vida, cantada por Amália, e de Viela, cantada por Marceneiro, mas a realidade é a mesma, e esta «mulher perdida» que um homem encontrou «sob a luz dum candeeiro» poderia bem ser aquela mulher cujo coração «vive de vida perdida».

Decerto, outros temas se introduziram, e com vinho e entre amigos as desgarradas soam alegres, mas são talvez mais jocosas do que alegres, grosseiras sobretudo, e mesmo ali os desencontros amorosos estão presentes. Nesta desgarrada os brasileiros não entenderão as obscenidades e os duplos sentidos, porque a gíria é muito diferente num e no outro lado do mar, mas entendem o ambiente e é isso, talvez, o principal.


Nesta desgarrada no Pátio das Artes participaram, por ordem da primeira intervenção, Emanuel Soares, Rodolfo Godinho, Ana Catarina Grilo, Abel Lopes, Andreia Matias,
um anónimo e Paulo Silva
.
Na guitarra esteve Rodolfo Godinho, na viola Francisco do Carmo
e na viola baixo José da Guia Ferreira
.

Mesmo com o vinho e as gargalhadas, a morte não estava distante. «Fui um dia ao cemitério / e pisei as campas todas / veio de lá um morto e disse: / talvez um dia… te lixes», cantou Andreia Matias, e foi a hesitação final, com a troca da última palavra, que trouxe mais picante, porque lixar-se, que é uma gíria polida para prejudicar-se, substituiu, evidentemente, «talvez um dia te fodas». Ora, este macabro tem uma genealogia, porque nos alvores do romantismo difundiu-se, sobretudo em Inglaterra, um estilo de romance tenebroso, a que se chamava gótico. Afinal, a quadra que Andreia Matias cantou pode classificar-se de forma erudita como gótica. Mais gótico ainda é o fado ao atingir o tema tabu da necrofilia, e foi o que sucedeu com aquele anónimo que o vinho fazia oscilar circularmente em torno de um eixo vertical, quando cantou «Minha prima morreu ontem / enterrei-a na valeta / mas deixei uma mão de fora / para me bater a punheta».

Vinho e risos, porém, não fazem esquecer o que nunca se esquece, porque os fadistas que animam as desgarradas são os mesmos que cantam no fado sério infinitas variações sobre o tema da infelicidade.

A ilustração que encabeça o texto é um exemplo de arte de rua nas Escadinhas de São Cristóvão, no bairro da Alfama, em Lisboa.

A segunda parte deste artigo será publicada na próxima sexta-feira, dia 18.




Fonte: Passapalavra.info