Março 15, 2021
Do Jornal Mapa
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A Dehesa Sin Uranio, na raia alentejana de Espanha e Portugal, contra a reabertura da mina de Zahínos

Da luta à vitória. O processo de reabertura de uma mina a céu aberto de urânio em Zahínos, a 25 quilómetros da fronteira portuguesa, junto de Mourão e Barrancos, moveu as populações da zona raiana espanhola numa luta contra a exploração mineira e os perigos radioactivos do urânio. Manifestações em várias localidades reuniram nos últimos meses milhares de populares ecoando um «Não à mina, sim à vida», às quais se juntaram alguns portugueses de Mourão a Barrancos, incluindo o presidente desse último município, assim como alguns ambientalistas do Movimento Ibérico Antinuclear. No passado dia 19 de Julho a luta deu os seus frutos e a Junta da Extremadura anulou a licença que antes dera à pesquisa da mina de urânio de Zahínos, depois de analisados os seis recursos que haviam sido interpostos por particulares e municípios e perante os protestos nas ruas.

As gentes desta zona fronteiriça, habituadas ao isolamento de terras nos confins do mundo, seja da região do Alentejo, da Andaluzia ou da Extremadura espanhola, haviam-se mobilizado na plataforma Dehesa Sin Uranio («Montado Sem Urânio»), iniciativa apolítica formada pelos habitantes de Oliva de la Frontera, Higuera de Vargas, Jerez de los Caballeros, Valencia del Mombuey, Villanueva del Fresno e Zahínos. Desde o início de 2019 que exigiam a imediata anulação da autorização para as prospecções mineiras numa área de 8 mil hectares na zona de uma antiga mina de urânio situada na herdade da Cabra Baja de Zahínos. A Qbis Resources, SL, filial espanhola do grupo australiano QBIS Australia PTY LTD, com licença dada em Janeiro deste ano, iniciara o processo em 2011, já depois de a canadiana Mawson Resources ter abandonado o projecto. Segundo Ramón Díaz Farias, autarca de Villanueva del Fresno, em declarações ao jornal HOY em Janeiro passado, os primeiros interessados «não quiseram entrar em mais litígios, visto que nas populações afectadas poderia haver protestos». Por essa razão o autarca declarava que não era «apropriado abrir uma mina de urânio, ainda que Villanueva poderia ser a mais beneficiada no que toca à cobrança de impostos. Entendemos que a criação de emprego é insignificante para a zona e o impacto sobre o meio ambiente seria brutal, ainda que a mineração moderna seja muito mais segura».

Oliva de la Frontera, 20 de Junho de 2019 (Fotografia de Dehesa Sim Uranio).

Juan Manuel Medina, da Dehesa Sin Uranio, dava conta em Junho, ao portal digital Rayanos, que o primeiro passo «consiste em poços de sondagem para extrair material, e este vem encadeado com o segundo, uma autorização de extracção mineral a céu aberto, a que é intrínseca a exploração e reactivação de uma mina: removem a terra fértil, a sua vegetação e vida, e abrem um grande buraco com explosivos e máquinas que recolhem e trasladam toneladas de terras. Posteriormente submetem-na a um processo com produtos químicos que separam o urânio do resto, ficando esse resto em reservatórios de águas contaminadas por milhões de anos. Tudo é radiactivo. Quando o urânio se degrada forma-se o rádon, um gás que fica nas poeiras e expande-se com elas». Conforme o Código Europeu Contra o Cancro, documento da Comissão Europeia, o rádon «começa com o urânio presente no solo e nas rochas desde a formação da Terra. O rádon não pode ser detectado pelos seres humanos, já que não tem cor nem cheiro, mas pode ser medido devido à sua radioactividade. O rádon passa para as casas a partir do solo. Algumas casas apresentam concentrações elevadas de rádon, especialmente nas zonas com mais urânio natural no solo e nas rochas. O rádon pode ainda estar presente na água potável e em materiais de construção, mas, na maioria destes casos, representa uma exposição muito inferior à radiação provocada pelo rádon proveniente do solo. Apesar de o rádon ser um gás, os seus produtos de decaimento radioativo não o são, aderindo estes às partículas de pó existentes no ar. A inalação da radiação emitida por estes produtos de decaimento pode causar danos pulmonares. A exposição ao rádon aumenta o risco de cancro do pulmão. O risco extra é proporcional à concentração de rádon no ar que respiramos e à duração da exposição.»

A luta cedo associou, às questões da saúde, a paisagem e o ecossistema do montado – eixo da vida da região – com reconhecimento ambiental associada aos espaços protegidos das dehesas de Jerez, Rede Natura 2000 (como a ZPE Mourão/Moura/Barrancos) ou à Zona Especial de Conservação do Corredor Ecológico e de Biodiversidade do Alcarrache. Em causa igualmente as águas que desaguam na barragem do Alqueva. A mina de Zahínos situa-se junto da ribeira do Alcarrache, afluente do rio Guadiana. Os processos de lixiviação dos terrenos transportam elementos radioactivos e químicos altamente tóxicos para os lençóis freáticos e cursos de água. O dano ambiental e as mortes causadas pela exploração de urânio são hoje um dado indesmentível e as populações reagiram perante a ameaça radioactiva.

Manifestações em várias localidades reuniram nos últimos meses milhares de populares ecoando um “Não à mina, sim à vida”

No século passado as minas a céu aberto em Portugal, nos distritos da Guarda, Viseu e Coimbra, acumularam em décadas resíduos radioactivos, gerando um tremendo passivo ambiental e problemas de saúde mortais. Em 2016 os ex-trabalhadores do urânio da Urgeiriça viram aprovada a lei que estabeleceu a compensação por morte provocada por doença profissional. Em Nisa, desde os anos 90 que se tenta retomar a exploração do urânio, mas a forte oposição das populações locais e autarquia tornaram-na inviável. Agora foi a vez, como reiterava o autarca de Villanueva del Fresno, ao jornal El Diario em Janeiro passado, de lembrar que a extracção do urânio não é inócua para as pessoas e o ambiente, recordando os antigos trabalhadores da antiga mina de Zahínos (explorada nos anos 60/70) que morreram na sua maioria em consequência de diferentes tumores causados pela exposição às partículas de urânio.

Toda esta herança não inibira o anúncio mercantil da mina de Zahínos como o local com maior potencial de urânio em Espanha, calculando-lhe umas 65 000 toneladas em 2008 pela Mawson Resources, uma perspectiva de «desenvolvimento» das regiões ditas periféricas da península inscrita na nova grande vaga especulativa da mineração ibérica. Em igual medida, os impactes desta mineração, no presente caso, sobre o montado transfronteiriço e os seus habitantes não podem ser vistos ou permanecer como preocupações isoladas. A vivência da raia há muito que ensinou aos seus povos que não há fronteiras na defesa da vida. A vitória alcançada com a reversão da licença de prospecção mineira demonstrou que, perante o impulso extractivista e a promessa do crescimento da indústria mineira, há gente que sabe que é preciso pôr-lhe um travão, para que haja um território onde continuem a viver.


Artigo publicado no JornalMapa, edição #24, Agosto|Outubro 2019.




Fonte: Jornalmapa.pt