Abril 15, 2022
Do Passa Palavra
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Por Taras Tarasiuk & Andreas Umland

Interações dos ultranacionalistas ucranianos com atores políticos russos

Os discursos nacionalistas ucranianos pós-soviéticos são sempre radicalmente e visceralmente anti-russos. Ainda assim, o ultranacionalismo ucraniano e russo se desenvolveram ambos no pós-queda da Cortina de Ferro e dentro de um contexto de tendêncencias mais amplas e interconectadas da extrema-direita na Europa Oriental, na Europa como um todo e no globo. Portanto, existem similaridades nas ideias, nos conceitos e nas táticas desses movimentos ideológicos transnacionais e dessas redes organizacionais que transcendem fronteiras – sejam movimentos fundamentalistas, ultraconservadores, neonazistas, identitários, pan-nacionalistas ou de outra tendência. Como um resultado, existiu e existe não só certo interesse mútuo entre grupos dessa natureza tanto da Rússia quanto da Ucrânia. Ocasionalmente isso levou a contatos e mesmo colaboração entre setores de ambos movimentos ultranacionalistas.

A tendência histórica e atual dos nacionalismos russo e ucraniano é, isso é certo, de oposição. O já elevado estranhamento entre a extrema-direita russa e ucraniana se intensificou nos anos 2000 quando a maior parte das forças da direita ucraniana apoiaram a eleição do Presidente pró-ocidental Viktor Yushchenko (n. 1954) no fim de 2004 [112]. Para a extrema-direita russa, o apoio dos ultranacionalistas ucranianos tanto ao rumo pró-ocidental de Yushchenko quanto à sua segunda esposa ligada à diáspora ucraniana e nascida nos Estados Unidos, Kateryna Yushchenko (n. 1961, nome de solteira Chumachenko), se tornaram fontes de incômodo adicional. Essa polarização se intensificou durante a presidência de Viktor Yanukovich (n. 1950), em 2010-2014. O desvio de Yanukovich em relação ao vetor pró-europeu do desenvolvimento político ucraniano como também sua posição relativamente pró-russa se tornaram uma questão para todos os patriotas ucranianos, radicais ou não [113].

As políticas culturais e externas pró-russas de Yanukovich levaram a uma expansão temporária do apoio ucraniano ao nacionalismo aberto. Durante esse período, desde 2010, certos ultranacionalistas começaram a abandonar a Rússia, indo para países como a Ucrânia. Essa migração se acelerou durante e após a revolução do Euromaidan de 2013-2014. Exagerando um pouco a magnitude do fenômeno, Michael Colborno e Olekiy Kuzmenko do Bellingcat notaram: “Muitos nacionalistas de extrema-direita russos têm, talvez para surpresa de muitos, adotado posições anti-Kremlin e se oposto ao governo de Putin devido à sua percepção deste ser muito frouxo em certas questões como a imigração, fato melhor ilustrado pela anual ‘Marcha Russa’. Ainda que uma ampla fração da extrema-direita russa tenha sido instrumental para fomentar e lutar na corrente guerra no leste da Ucrânia, algumas frações da extrema-direita russa na verdade apoiaram os protestos na praça Maidan em Kyiv que despontaram na revolução de fevereiro de 2014 e encontraram espaço para operar dentro da Ucrânia [114].”

Esse fenômeno, contudo, não era algo totalmente novo nas relações russo-ucranianas.

Os contatos da extrema-direita ucraniana com ultranacionalistas russos

No começo dos anos 90, a primeira atividade indiretamente pró-russa dos ultranacionalistas ucranianos foi sua participar na guerra separatista da Moldávia ao lados dos ucranianos locais (já mencionado). Como indicado, a UNA-UNSO, por um curto período, lutou ao lado dos militares de Moscou na Transnístria [115]. Todavia, este incidente de colaboração armada permaneceu uma exceção. Dado que o interesse primário dos ultranacionalistas ucranianos na Transnístria era a população ucraniana, ele não pode ser considerado uma expressão de apoio da UNA-UNSO ao imperialismo russo.

Em meados dos anos 90, um dos encontros mais amigáveis na Ucrânia entre ultranacionalistas ucranianos e ultranacionalistas russos anti-Kremlin ocorreu entre a UNA-UNSO e o marginal Partido Nacional Popular da Rússia (Narodnaia ational’naia partiia Rossii – NNPR). De acordo com Albert Shatrov,

“Em 1996, em Kiev, em uma conferência conjunta da UNA-UNSO e do Partido Nacional Popular da Rússia, [seu líder] Alexander Ivanov-Sukharevsky (n. 1950) discutiu a idéia de criar uma conspirativa Ordem Branca coordenada de modo comum. O Partido Nacional Popular da Rússia então planejou tomar parte na agitação de tropas federais na Chechênia no quesito da confraternização com os chechenos e buscando fazer com que elas apontassem as armas contra o Kremlin [116].”

Isso significou uma tentativa de colaboração entre ultranacionalistas não-imperiais para conter o imperialismo russo durante a era Ieltsin. Sob o presidente Putin, tais contatos se tornaram mais frequentes. Natalia Yudina resumiu alguns deles:

“A Ucrânia se tornou um refúgio para os radicais de direita russos desde o início dos anos 2000. Piotr Khomiakov, o líder ideológico da Irmandade Nórdica (Severnoe bratstvo), passou algum tempo se escondendo lá, assim como Yuri Belyaev, o líder do neonazista Partido da Liberdade (Partiia svobody). Também se escondendo na Ucrânia estavam Alexander Parinov e Alexei Korshunov, antigos membros dos grupos neonazistas Brigadas Unidas – 88 (Ob’edinennye Brigady-88, OB-88) e a Organização de Combate dos Nacionalistas Russos (Boevaia organizatsiia russkikh natsionalistov, BORN). Korshunov foi morto pela própria granada em Zaporozhy em outubro de 2011. O cofundador do BORN Nikita Tikhonov, mais tarde condenado pelos assassinatos do advogado Stanislav Markelov e da jornalista Anastasia Baburova, também se escondeu algum tempo na Ucrânia […]. [Mikhail] Oreshnikov [nativo da cidade russa de Cheboksary] esteve envolvido na criação da célula ucraniana da associação neonazista internacional chamada Misanthropic Division. A Misanthropic Division não é uma organização centralizada: ela não possui líderes permanentes ou uma estrutura rígida. Existem grupos do movimento na Alemanha, na República Tcheca, na Espanha, em Portugal, nos Estados Unidos e, ao que parece, até mesmo na Bielorrússia. A seção ucraniana da Misanthropic Division foi organizada em 2013 sob os auspícios [da Assembléia Social-Nacional] com a participação ativa de nacionalistas russos [117].”

Uma nova onda de cooperação entre partes dos dois campos ultranacionalistas se iniciou durante e após o Euromaidan de 2013-2014 quando ultranacionalsitas russos com visões pró-ucranianas participaram do levante em Kiev e a guerra inicial no Donbass [118]. A maior concentração de radicais de direita russos, e presumivelmente anti-Putin, na Ucrânia era no movimento Azov, inclusive em seu regimento/batalhão. Yudina explicou que

“Os ativistas russos participaram nas manifestações no Maidan, em brigas com oponentes do Maidan em Kharkov, e alguns deles participaram nas hostilidades no Donbass do lado de Kiev. Cerca de uma dúzia de seus membros russos lutaram junto ao Azov […]. Os combatentes russos do Azov incluíam Serhey (“Malyuta”) Korotikh, um dos líderes da Sociedade Nacional Socialista (Natsional-sotsialisticheskoe obshchestvo, NSO); Alexander Valov de Murmansk; Roman “Zukhel” Zheleznov da Associação Restrukt!; e o líder neonazi Mikhail Oreshnikov de Cheboksary. […] Depois do fim da fase ativa de hostilidades na Ucrânia, quase todos eles permaneceram na Ucrânia. Alguns deles se integraram na sociedade ucraniana, receberam cidadania ucraniana e agora participam da vida política local [119].”

Além disso, alguns grupúsculos neonazistas russos estão representados, com suas seções ucranianas, nas várias estruturas do movimento Azov [120]. Michael Colborno e Oleksiy Kuzmenko discutiram um grupo desse tipo:

“Wotanjugend [“Juventude de Wotan”] nasceu na Rússia, e publica seu conteúdo online quase exclusivamente em russo. Hoje, o auto-descrito ‘martelo do Nacional-Socialismo’ está localizado na Ucrânia e, para todos os fins, é parte do movimento de extrema-direita ucraniano Azov, o qual está tentando expandir sua influência doméstica e internacional. Mas as atividades da Wotanjugend não se limitam à internet. Em 2018, o cabeça do Wotanjugend se encontrou com membros da violenta gangue neonazista americana Rise Above Movement (RAM) em Kyiv. A Wotanjugend também recentemente organizou um seminário que incluiu palestras sobre raça, treinamento no uso de armas de fogo e mesmo um torneio de brincadeira de lutas com faca. Além do mais, o líder do grupo, Alexei Levkin, está esperançoso de que irá receber cidadania ucraniana, e tem sido uma figura chave nos esforços públicos do Azov para obter cidadania ucraniana para os seus amigos de extrema-direita vindos de fora que se juntaram às suas fileiras. Com suas mensagens que incluem glamourização do terrorismo e literalmente adoração a Hitler, a Wotanjugend continua a operar abertamente na Ucrânia, usando o país como base para crescer e espalhar sua mensagem de ódio por todo o mundo [121].”

Natalia Yudina acrescentou que “Ilya Bogdanov, antigo membro da comunidade da Wotanjugend e ex-funcionário do FSB, partiu para a Ucrânia em 2014 e lutou ao lado do Pravy Sektor [i.e., aparentemente, já apresentado DUK]” [122].

Por causa do serviço prestado por estrangeiros no Batalhão Azov, inclusive russos, os National Corps se tornaram um dos principais grupos de lobby para a legalização do status de estrangeiros que lutaram no leste da Ucrânia contra forças pró-russas (seja como residentes permanentes ou cidadãos) [123]. Alguns desses estrangeiros, incluindo aí alguns imigrantes russos ultranacionalistas, receberam cidadania durante a presidência de 2014-2019 de Petro Poroshenko (n. 1965). Algumas vezes esse status foi cedido em gratidão explícita à sua contribuição para o esforço de defesa ucraniano no Donbass.

O caso mais infame envolveu um antigo membro do partido neonazista Unidade Nacional Russa e da Frente Popular Bielorrussa, Sergei Korotkikh (n. 1974), o qual após se mudar para a Ucrânia em 2014 se tornou uma figura chave no movimento Azov [124]. Yudina detalhou o caso:

“Korotkikh recebeu seu passaporte ucraniano pessoalmente do Presidente Petro Poroshenko em 5 de Dezembro de 2015. Ele trabalhou no Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia, liderando a Unidade de Proteção de Objetos Especiais, mas abandonou o posto em 2017. Junto com seu companheiro do movimento Azov Nikita Makeev, Korotkikh foi tido como suspeito de envolvimento no ataque contra Poroshenko em Agosto de 2019. Todavia, Korotkikh nunca foi responsabilizado pelo caso. Na Primavera de 2020, ele continuou a agir como um representante dos National Corps (Natsionalʹnyy korpus), o braço político do Azov [125].”

Outra figura do gênero era Aleksei Levkin, antigo membro do grupo russo Wotanjugend, que imigrou da Rússia e também ganhou alguma importância no movimento Azov. Ele se considera o “ideólogo político” do antigo braço de vigilantes do Azov, os Natsional’nyy druzhyny (National Squads). As carreiras políticas ucranianas de Korotkikh, de Levkin e de outros indica influência considerável de antigos neonazistas russos dentro do movimento Azov [126].

A base ideológica para tais contatos aparentemente paradoxais e mesmos fusões parciais é um tipo particular de pan-eslavismo racista. Neste contexto as questões de soberania nacional e território são secundárias em face de uma pretensa identidade “ariana” ou “branca” comum pan-nacional ou pan-européia. Alguns ramos do ultranacionalismo russo, como o Movimento Contra a Imigração Ilegal, apoiam o conceito de uma comunidade entre bielorrussos, ucranianos e russos. Ao contrário de outras conformações do ultranacionalismo russo, essas frações nem sempre afirmam, contudo, uma supremacia da “Grande Rússia” em face dos “pequenos russos” e de “russos brancos” [Nota dos tradutores: leia-se, bielorrussos] dentro da tripla família dos povos eslavos orientais. Eles estão, ao contrário, obcecados com a prevenção da imigração em larga escala de não-cristãos, especificamente muçulmanos, fenômeno que criaria uma subversão racial-cultural por povos não-brancos na Rússia, na Ucrânia e em Belarus. Eles também se preocupam com a ascensão de movimentos LGBTQ+ nesses países.

Ao mesmo tempo, como ilustrado pelo pesado envolvimento da Russkoe natsional’noe edinstvo (Unidade Nacional Russa, UNR) no começo da guerra no Donbass, a maioria dos neonazistas russos, é necessário sublinhar, são tão anti-ucranianos quanto a maioria das outras variedades do ultranacionalismo russo, do neoeurasianismo ao fundamentalismo ortodoxo [127]. Dentro da última variedade é possível encontrar ocasionalmente indivíduos isolados ou frações menores que reconhecem a nacionalidade, soberania e integridade ucranianas. Todavia, a maior parte do parte do pensamento pró-ucraniano dentro do ultranacionalismo russo é encontrado em vários grupúsculos russos que defendem o racismo biológico. Esses grupos sempre — seja na Rússia, na Ucrânia ou em outros lugares — enxergam suas nações como sendo parte de uma comunidade pan-nacional “branca” ou “ariana”. Eles, assim, expressam simpatia a todos aqueles que consideram como sendo parte desse coletivo “racial” maior.

Entre a pequena fração pró-ucraniana do extremismo político russo, seja ele racista biológico ou não, existe um sentimento de pesar quanto às ações de Moscou na Ucrânia desde 2014 e considerável solidariedade verbal pela luta de independência da Ucrânia contra a Rússia. Vários indivíduos e certos grupúsculos, como o Wotanjugend, se mudaram para a Ucrânia. Outros ativistas do gênero também tentaram mais ou menos tomar parte na Guerra Russo-Ucraniana, apoiando o lado ucraniano.

O Exército Insurgente Russo e o Centro Russo

Uma expressão deste tipo de interação da extrema-direita russo-ucraniana foi a aglutinação que surgiu para formar o quase-partido Centro Russo e seu braço paramilitar, o Exército Insurgente Russo. Este último é um nome hiperbólico para um grupo minúsculo composto aparentemente por algumas dúzias de jovens adultos. Até aqui a atividade desse pequeno, irregular e supostamente armado grupo tem sido amplamente virtual.

O grupo foi criado em 2015 por Andrei Kuznetsov (conhecido como “Laranja”), um blogger de oposição relativamente bem conhecido que emigrou da Rússia para a Ucrânia [128]. Junto com alguns imigrantes da Rússia, ele formou o que foi sugestivamente chamado de Russkaia Povstancheskaia Armiia (Exército Insurgente Russo). O nome do grupo alude ao Exército Insurgente Ucraniano, um movimento guerrilheiro nacionalista do oeste ucraniano durante e após a Segunda Guerra Mundial que lutou contra tropas soviéticas e nazistas mas foi manchado pelo fato de algumas de suas unidades terem cometido massacres em massa de poloneses e judeus no oeste ucraniano [129]. O nome, Exército Insurgente Russo, também pode se referir ao Exército de Liberação Russo, a infame unidade russa do General Vlasov que lutou ao lado da Wehrmacht contra a União Soviética durante a Segunda Guerra [130].

O Exército Insurgente Russo reivindica ter participado do lado ucraniano contra as forças pró-russas na Guerra do Donbass [131]. Há rumores de que ele conduziu atividades clandestinas dentro da Rússia, uma suposição que parece implausível [132]. O Exército Insurgente Russo foi primeiro apresentado ao público no dia 29 de Dezembro de 2014 em uma conferência de imprensa em Kiev. O jovem ativista de anti-Kremlin Andrei Kuznetsov fez um apelo à unificação de forças russas anti-putinistas. Ele se dirigiu a “todos os russos decentes, […] descendentes de imigrantes brancos […] que não querem que a cultura russa desapareça do mundo” [133].

O movimento rejeita o eurasianismo e oficialmente defende uma ideologia de direita etnocêntrica, ainda que supostamente “moderada”. Ele usa conceitos e símbolos representando antes discursos nacionalistas radicais do que liberais. Ainda que o grupo seja composto por uma variedade de indivíduos de diferentes inclinações, ele é aparentemente dominado por ativistas racistas, como várias entradas no seu site ilustram [134].

A formação do Exército Insurgente Russo levou à criação de uma organização política etnicamente russa na Ucrânia chamada de Centro Russo, ligado ao movimento Azov. Sua existência foi anunciada em 11 de Outubro de 2015, em Kiev [135]. O Centro Russo é outra organização composta de imigrantes políticos nacionalistas russos na Ucrânia. Natalia Yudina detalhou que o Centro Russo foi:

“Criado em Setembro de 2015 pelos membros da Wotanjugend, um grupo online de ultradireita, e por ativistas da célula de Kirov do Movimento Contra a Imigração Ilegal (Dvizhenie protiv nelegal’noi immigratsii, DPNI-Vyatka), hoje proibido na Rússia. O Centro Russo em si apresenta um chamado à unidade de todos os eslavos, e busca contatos além da Rússia e da Ucrânia. Eles cooperam com nacionalistas de outros países, primariamente com nacionalistas poloneses do grupo Zadruga (uma organização polonesa neopagã criada em 2006 em Wroclaw) e do Polônia Popular Livre (um grupo polonês radical que se tornou famoso em 2015 após a destruição de um centro cultural ucraniano em Varsóvia). Em Setembro de 2018, eles conduziram um evento para “fortalecer os laços russo-poloneses” em parceria com Polônia Popular Livre. Eles também participaram na “Marcha da Independência” nacionalista em Varsóvia em 11 de Novembro de 2018. O Centro Russo da Ucrânia marchou ao lado de Black Blocs, cantando slogans da “Revolução Branca” (“Europa, Juventude, Revolução” e “Honra e Glória aos Heróis”), e eles queimaram bandeiras LGBT+ e da UE […]. Em Fevereiro de 2019, alguns dos seus ativistas participaram na procissão de tochas no aniversário de 101 anos da independência da Estônia e da terceira conferência nacionalista internacional Etnofutur em Tallinn.”

O Centro Russo tem contatos com vários grupos radicais de direita na Ucrânia, tais quais o Carpathian Sich em Uzhhorod [136]. Tanto o Centro Russo quanto o Carpathian Sich foram co-anfitriões, por exemplo, da edição de 2019 do evento húngaro Festung Budapest (Fortress Budapest), um encontro internacional de ativistas de extrema-direita organizado pela Legio Hungaria, que incluiu representantes do Hammerskins Hungaria, do Combat 18 Hungaria, do Skins4Skins e do Betyársereg. Os alegados 600 participantes do encontro estavam, entre outras coisas, honrando e relembrando os “lutadores que caíram no longo ano de 1945 em uma batalha desigual contra a Internacional Vermelha” (i.e., soldados nazistas e seus aliados que lutaram contra tropas soviéticas em nome de Budapeste ao fim da Segunda Guerra Mundial) [137]. O Centro Russo também participou da Conferência “Espada da Europa”, organizada pelo Carpathian Sich e ocorrida em 13 e 14 de Abril de 2019, e em uma marcha conjunta da Aliança Radical [138].

O contato mais próximo ao Centro Russo é, contudo, o movimento Azov. Desde 2016 membros do Centro Russo fizeram parte de várias conferências organizadas pelo departamento internacional do National Corps, ramo do Azov. Esses encontros eram tipicamente voltados à promoção da cooperação internacional entre grupos europeus da direita radical e tinha slogans como “Reconstrução da Europa” [139]. No entanto, o Exército Insurgente Russo e o Centro Russo, é necessário enfatizar, permanecem tão marginais dentro da política e sociedade ucraniana que muitos analistas políticos da própria Ucrânia podem nunca ter ouvido falar deles.

O líder do Exército Insurgente Russo, Andrei Kuznetsov, alega que muitos refugiados políticos russos estão em contato com sua rede de russos na Ucrânia. De acordo com ele, outros imigrantes russos estão em um contato direto e independente com o movimento Azov. Os laços com o Regimento Azov e o National Corps permitiram torná-los, de um modo ou de outro, envolvidos na luta contra o regime de Putin do qual eles fugiram. O National Corps aparentemente ajuda-os a transitar pelos processos burocráticos para adquirir residência temporária ou permanente na Ucrânia ou mesmo cidadania ucraniana [140].

De modo geral, círculos de direita radical russa na Ucrânia são pequenos e sub-institucionalizados. Alguns deles podem não estar operando publicamente. Uma razão para isso é que todas as organizações e os exilados políticos russos na Ucrânia — mesmo se eles forem abertamente anti-putinistas — são vistos com desconfiança na Ucrânia. Eles são sempre suspeitos de estarem envolvidos em operações secretas para os serviços de segurança de Moscou. Por exemplo, se discute se a KGB bielorrussa ou a FSB russa podem estar dirigindo um dos mais notórios imigrantes de extrema-direita na Ucrânia, o acima citado Sergei Korotikh, ligado ao movimento Azov. Consideráveis pesquisas foram publicadas sobre os possíveis laços entre Korotikh e serviços de segurança [141]. Radicais de direita russos que migraram da Rússia à Ucrânia realizaram essa mudança como indivíduos ou famílias ao invés de fazê-lo como grupos. Se eles se juntam à extrema-direita ucraniana, a maioria deles o fazem individualmente, ao invés de realizar esse processo através de suas antigas organizações russas.

Para acomodar e atrair exilados de direita russos aptos ao combate que se mudaram à Ucrânia, o regimento Azov criou um Corpo Russo especial dentro de sua estrutura. O partido político filiado ao Azov, o National Corps, se tornou um meio central para a entrada de nacionais da Rússia no meio político de extrema-direita da Ucrânia. A liderança do movimento Azov reconhece ela própria publicamente seu papel como uma facilitadora da legalização de voluntários internacionais atuando nas forças armadas ucranianas — não apenas os russos —, seja como residentes legais ou como novos cidadãos ucranianos.

Contatos do Movimento Azov com o BORN

Por um curto período também houve uma relação entre o movimento Azov da Ucrânia e os remanescente do notório grupúsculo terrorista de direita russo Boevaia organizatsiia russkikh natsionalistov (BORN) [Nota do tradutor: em português, Organização de Combate de Nacionalistas Russos]. Essa organização semi-clandestina foi fundada pelos ativistas russos de extrema-direita Nikita Tikhonov e Ilia Goriachev em 2009 como um ramo paramilitar do partido político russo ultranacionalista Russkii Obraz (Imagem Russa). Como Yudina se explicou, “os membros do BORN cometeram uma série de assassinatos políticos; suas vítimas incluíram o juíz Eduard Chuvashov da Corte Municipal de Moscou, o advogado Stanislav Markelov (1974-2009), e vários ativistas antifascistas proeminentes. O BORN cessou suas atividades após a prisão de Nikita Tikhonov e Yevgenia Khasis em Novembro de 2009 e foi [oficialmente] eliminado em 2010” [143].

A colaboração ucraniana com este grupo de antigos membros do BORN é surpreendente já que a ala política do BORN, Imagem Russa, tinha sido um projeto inicialmente promovido pelo Kremlin. De acordo com o Robert Horvath:

“A despeito de seu extremismo, o Russkii Obraz (Imagem Russa) teve um papel importante no ‘nacionalismo administrado’ do Kremlin, um conjunto de medidas para manipular o setor nacionalista da arena política. Durante os anos 2008-2009, o Imagem Russa colaborou de modo muito próximo com organizações jovens pró-Kremlin e gozou de acesso privilegiado à firmemente controlada esfera pública da Rússia […]. A integração do Russkii Obraz no nacionalismo administrado foi consagrado pelo [entre outros] SPAS, um canal de televisão a cabo dedicado à promoção dos ‘valores ortodoxos russos’. Fundado [em 2005] por Ivan Demidov [mais tarde um funcionário do Rússia Unida e chefe do Departamento de Administração Presidencial russo], o SPAS forneceu uma plataforma para ideólogos pró-Kremlin como Nataliya Narochnitskaya e Alexander Dugin [ver abaixo]. Mas o SPAS também ofereceu empregou a dois líderes do Russkii Obraz: [o ideólogo do Imagem Russa Dmitri] Taratorin, que foi nomeado chefe de programação política; e [Ilyia] Goryachev, que atuou como chefe de relações públicas e tinha seu próprio programa, ‘Network Wars’. O prestígio institucional do SPAS os permitiu se engajar em discussões televisivas com funcionários do estado de alto nível como Sergei Popov, um deputado influente da Duma, e o Major-General Leonid Vedenov, o chefe do serviço de licenciamento de armas de fogo do Ministério do Interior. [144].

Ademais, desde 2014, alguns ativistas de extrema-direita ligados ao BORN e ao Imagem Russa estiveram ativas na assim chamada República Popular de Donetsk, isto é, a entidade separatista ucraniana criada por Moscou [145]. Hannah Krytsenko detalhou os laços entre o hoje extinto BORN e o movimento Azov [146]. Por exemplo, Hrytsenko descreve o caso dos neonazistas russos Aleksandr Parinov e Roman Zheleznov, que eram previamente ligados a Tikhonov. Parinov se mudou permanentemente à Ucrânia anos antes do Euromaidan, possivelmente em 2009 [147].

Depois disso, não se soube mais nada dele até que duas investigações independente pelo Mediazona e pela Novaia Gazeta encontraram Parinov nos Corpos Russos do batalhão ucraniano de voluntários Azov. Esses Corpos Russos eram supostamente lideradores por outro conhecido russo neonazista que também tinha colaborado com o [cofundador do BORN, Ilia] Goriachev, Roman Zheleznov com o apelido ‘Zukhel’. […] Zheleznov não é um membro dos serviços militares, mas um voluntário do serviço de imprensa do Azov.” [148].

Zheleznov se mudou da Rússia para a Ucrânia em Junho de 2014. Ainda quando estava na Rússia, ele esteve envolvido com um grupo de fascistas que formou mais tarde o BORN. Como parte desse grupo, ele recebeu a tarefa de coletar informações sobre russos anti-fascistas. De acordo com Hrytsenko, o cúmplice de Zheleznov, Ilia Goriachev, o qual se tornou mais tarde o líder do BORN, usou essas informações para estabelecer uma cooperação com Nikita Ivanov e Pavel Karpov, dois empregados da Administração Presidencial que estavam interessados nessa operação de inteligência [149]. Hrytsenko explicou ademais que:

“De acordo com Anna Sennik, o líder do serviço de informação do regimento (e depois batalhão) ‘Azov,’ e com o ativista do ‘Patriota da Ucrânia’ [PU] Ihor Kryvoruchko, a entrada bem-sucedida de [Roman] Zheleznov na Ucrânia foi facilitada por Ihor Mosiichuk, um dos líderes da organização ucraniana de extrema-direita Assembléia Social-Nacional [ASN] (da qual o PU é membro). Na altura [do verão de 2014, Mosiichuk] foi um membro [eleito] do Conselho Municipal de Kyiv e comandante representante [do Batalhão Azov] […]. Zheleznov foi recebido no Aeroporto Boryspil de Kyiv por representantes da ANS […]. Em Janeiro de 2016, Zheleznov e o Azov Civil Corps (uma associação de simpatizantes civis da unidade) dispersaram uma passeata em Kyiv em memória de Markelov e de Baburova e tentaram dispersar uma conferência de imprensa sobre o radicalismo de direita que se seguiu ao episódio [150].”

Hrytsenko também descreveu outro episódio sobre o envolvimento russo no movimento Azov:

“Aleksei Baranovskii, um amigo das famílias Tikhonov e Khasis, um jornalista e coordenador do centro de direitos humanos de direita ‘Veredito Russo’ assim como especialista sobre questões nacionais para o movimento jovem, pró-Kremlin e anti-imigração “Mestnye” [Os Locais], foi viver na Ucrânia. Baranovskii celebrou a morte do advogado Markelov com champagne e foi uma testemunha no caso de homicídio. Baranovskii se mudou para Kyiv no Outono de 2013 e trabalha como um jornalista ucraniano desde então – até 2014, no Kommersant-Ukraina, e, depois que a edição ucraniana da publicação foi fechada, para o Delo.ua. Baranovskii viajou para o [batalhão] Azov como um jornalista, sublinhando em sua reportagem sobre o batalhão que ele própria não participou de operações militares” [151].

O Caso Especial da Pseudo-UNA de Eduard Kovalenko

Uma situação diferente de relação russa com um grupo aparentemente ucraniano ultranacionalista não envolveu a cooperação genuína entre extrema-direitas, como as descritas anteriormente e também mais adiante, mas, ao contrário, foi uma operação de desinformação provavelmente guiada a partir de Moscou. No meio dos anos 2000, o Kremlin e/ou forças ucranianas pró-Kremlin tentaram instrumentalizar uma organização supostamente fascista criada para desacreditar as revoltas eleitorais pró-democracia, o nacionalismo liberal e a resistência contra a Rússia. O principal protagonista desse caso foi o dúbio ativista político ucraniano Eduard Kovalenko (nascido em 1965) que foi, num dado momento, apresentado como o diretor de partido de um grupo praticamente virtual, a Assembléia Social-Patriótica dos Eslavos.[152] O episódio envolvendo Kovalenko toca em diversos tópicos das relações russo-ucranianas dos últimos 20 anos, e conecta certos aspectos da Revolução Laranja de 2004 com a guerra russo-ucraniana de 2014, assim como com as trocas de prisioneiros entre o governo ucraniano e os micro-estados satélites russos na Bacia de Donets em 2019-2020.

No início da campanha eleitoral presidencial de 2004, uma dissidência do partido ucraniano de extrema-direita UNA [sigla inglesa para Assembleia Nacional Ucraniana], usando o mesmo nome, foi criada ou infiltrada por agentes pró-Kremlin. A pseudo-UNA foi então deliberadamente empregada em difamar o campo político pró-ocidental da Ucrânia. Um especialista de destaque da extrema-direita internacional, Anton Shekhovtsov, resumiu assim em seu blog, em 2014, essa operação:

Na corrida eleitoral presidencial de 2004, que resultou em uma dramática disputa entre Viktor Yanukovych e Viktor Yushchenko, um certo Eduard Kovalenko, líder do partido virtual de extrema-direita ucraniano Assembléia Nacional Ucraniana (UNA), declarou que ele e seu partido realizariam uma passeata em apoio a Yushchenko como candidato a presidência. O gabinete de Yushchenko respondeu imediatamente que jamais precisaram daquele apoio e fizeram o máximo para se distanciarem da iniciativa sórdida de Kovalenko. Ainda assim o gabinete de Yushchenko não pôde impedir a passeata e, em 26 de Junho de 2004, Kovalenko a realizou. Num encontro realizado após a marcha, Kovalenko declarou: “Nós, o partido nacionalista de direita, estamos apoiando o único candidato das forças de direita: Viktor Yushchenko. Uma Ucrânia, uma nação, um povo, um presidente!”. E fez uma saudação hitlerista. De acordo com Andriy Shkill, o então líder da [verdadeira] UNA-UNSO, o evento todo foi forjado por Viktor Medvedchuk, então Chefe da Administração Presidencial (sob o presidente Leonid Kuchma), que mais tarde se envolveu em uma fraude eleitoral em favor do pró-Rússia Yanukovych, desencadeando a “Revolução Laranja”. Medvedchuk era (e ainda é) conhecido por suas relações pessoais próximas com Vladimir Putin, que é padrinho da filha de Medvedchuk. A tarefa de Kovalenko era simples: ao dar apoio a Yushchenko com bandeiras estilo nazistas, esperava-se desacreditar o candidato democrático aos olhos dos observadores ocidentais. Para sorte de Yushchenko, no entanto, a mídia ocidental em sua maioria não caiu nessa armação e a ignorou.[153]

Após o início da guerra russo-ucraniana em Donbass, na primavera de 2014, o supostamente pró-ucraniano, ultranacionalista e apoiador de Yushchenko, Kovalenko, se tornou um ativista anti-governo e anti-guerra, apesar de suas ações anteriores. Ele foi detido por conclamar os ucranianos a se absterem do serviço militar e da luta em Donbass. [154] De acordo com um relatório de Halya Coynash de maio de 2017,

[uma] corte no oblast de Kherson […] acatou a sentença de Edward Kovalenko, um ucraniano cujo envolvimento em movimentos falsos de extrema-direita e escândalos separatistas remontam ao menos desde 2004. A Corte do Distrito de Henichesk declara Kovalenko culpado de obstruir as atividades legítimas das Forças Armadas da Ucrânia e outras formações militares (Artigo 114-1 do Código Criminal) e o sentencia a 5 anos de encarceramento. Kovalenko foi levado em custódia na corte. As acusações criminais contra Kovalenko foram levantadas devido a uma marcha anti-convocação que ele organizou em 27 de janeiro de 2015. Durante a marcha, ele lançou um ultimato ameaçando que, se a convocação não fosse encerrada na Ucrânia, os manifestantes bloqueariam estradas e tomariam o controle do escritório de recrutamento militar, e prédios da polícia e administrativos. Em novembro de 2016, foi relatado que [Kovalenko] estaria por trás de uma petição a Serhei Aksyonov, líder da Crimeia, instalado por soldados russos em fevereiro de 2014, com Aksyonov por sua vez escrevendo a Putin um pedido de ‘ajuda a Henichesk por combustível’. Em julho de 2016, ele foi implicado diretamente na falsificação de uma suposta exigência de búlgaros ucranianos locais por autonomia búlgara. O relatório de 4 de julho de 2016 tinha como título “A diáspora búlgara da Ucrânia exige autonomia territorial a Poroshenko”, e anexado uma carta supostamente assinada por Yury Palichev, que no próprio relatório é descrito como um dos líderes da diáspora búlgara.[155]

A virada política de Kovalenko lembrava parcialmente aquela de Ruslan Kotsaba (n. 1966). Em 2019, Kotsaba, um ucraniano ocidental e ex-jornalista antissemita, foi selecionado para receber o Prêmio Aachen da Paz — uma premiação controversa dada por uma organização alemã não-governamental para ativismo pacifista. Kotsaba havia sido selecionado por conclamar publicamente a homens ucranianos que se escondessem do serviço militar obrigatório durante a guerra de Donbass, então em andamento. Ele foi subsequentemente acusado de propaganda ilegal e procurado pelas autoridades da Ucrânia.

A partir disso, Kotsaba se mudou temporariamente para a Alemanha e se tornou conhecido em círculos políticos de esquerda. Entre seus contatos estava o deputado da Bundestag pelo Die Linke (A Esquerda), Andrej Hunko, que tinha vínculos com a “República Popular de Donetsk” e co-nomeou Kotsaba ao Prêmio Aache da Paz. Após essa nomeação, no entanto, um antigo vídeo ressurgiu na internet no qual Kotsaba discorria suas opiniões virulentamente antissemitas. Publicamente envergonhado, o comitê do Prêmio Aachen retirou a nomeação de Kotsaba pela categoria da Paz. [156]

O caso de Kovalenko é ainda mais bizarro que o de Kotsaba já que Kovalenko expressava suas opiniões de extrema-direita bem mais que ocasionalmente. Antes da Revolução Laranja, Kovalenko havia conquistado uma certa presença pública sendo oficialmente um ultranacionalista ucraniano liderando uma “Assembleia Nacional Ucraniana”.[157] Desde 2014, a verdadeira UNA-UNSO (que Kovalenko dizia representar em 2004), participou com seu próprio batalhão de voluntários na defesa armada em Donbass. No final de 2019, o caso de Kovalenko tomou um rumo ainda mais estranho quando o ativista ucraniano, já então preso e reconhecido como fascista, foi transferido para a Rússia como parte de umas das trocas oficiais de prisioneiros realizadas como resultado das negociações russo-ucranianas, conhecidas como o Processo de Minsk. Halya Coynach relatou no começo de 2020:

Enquanto a Rússia afirmou que as trocas de 29 de dezembro foram puramente entre a Ucrânia e as assim chamadas “repúblicas populares de Donetsk e Luhansk”, elas foram primeiro acordadas durante o encontro de 9 de dezembro de 2019 entre Putin e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Em todo caso, poucos contestariam que é o Kremlin e seu pessoal quem faz todas as decisões relativas a libertação de prisioneiros e a inclusão de pessoas a serem entregues à Rússia/“repúblicas” controladas pela Rússia. A Rússia poderia facilmente torcer para que o conhecido perfil de Kovalenko [como um fascista ucraniano em 2004] tivesse sido esquecido, especialmente agora que suas atividades após a invasão russa da Crimeia, e a agressão militar em Donbass, eram bem diferentes. […] Ainda que Kovalenko seja, até hoje, o único supostamente “nacionalista ucraniano” cuja libertação “da perseguição ucraniana” tenha sido exigida pela Rússia e suas repúblicas intermediárias, a UNA-UNSO foi comandada nos anos 90 por um provocador ainda mais notório, Dmytro Korchinsky, sobre o qual se relata ter sido um agente da KGB na era soviética. Ao mesmo tempo em que o Kremlin ou os seus amigos como Medvedchuk engajavam indivíduos como Kovalenko para empurrar sua narrativa sobre o “nacionalismo ucraniano”, o Estado russo e várias organizações de extrema-direita daquele país, especialmente aquelas ligadas ao ideólogo fascista Alexander Dugin, estiverem profundamente envolvidas desde ao menos 2006 no recrutamento e treinamento de ucranianos com ideias pró-russas e de direita no Donbass, Crimeia e, sem dúvida, em outras partes da Ucrânia. Apesar da Rússia tentar apresentar os líderes do pós-Maidan na Ucrânia como “fascistas”, era no Donbass em que a maioria das lideranças militantes, sejam ucranianas ou russas, eram conhecidas por terem ideias de extrema-direita e às vezes neonazistas. [158]

O caso Kovalenko é uma ilustração da assim chamada infiltração “polit-tecnológica” do Kremlin nos assuntos internos da Ucrânia, ao invés de uma cooperação genuína da extrema-direita ucraniana com atores russos. Os efeitos desejados mais óbvios para as várias atividades de Kovalenko eram assim, numa escala estranhamente alta, relacionados à desinformação intencional e à manipulação. Em contraste ao caso Kovalenko, o caso do engajamento russo com Dmytro Korchinsky — quem Coynash havia mencionado acima — foi de natureza menos instrumental. Ele é mais ilustrativo de certos pontos de contato entre as visões de mundo da extrema-direita ucraniana e a ideologia do regime de Putin. As conexões e aproximações de Korchinsky com a Rússia certamente são suspeitas também. Ainda assim, são de caráter mais ambivalente do que aquela do caso explícito de Kovalenko, um óbvio agente pró-russo contratado. As diversas ações de Korchinsky são menos fáceis de explicar, e são ideologicamente contraditórias.

A publicação deste artigo foi dividida em cinco partes, acessíveis nos links abaixo à medida em que forem publicados:
Parte 1
Parte 2
Parte 4
Parte 5

Notas

[112] Alla Hurska, “Far-right Movements and Ideology in Contemporary Ukraine: Formidable Image vs. Weak Essence,” Notes internacionals CIDOB 141 (2016, https://www.cidob.org/en/publications/publication_series/notes_internacionals/n1_141_far_right_movements_and_ideology_in_contemporary_ukraine_formidable_image_vs_weak_essence/far_right_movements_and_ideology_in_contemporary_ukraine_formidable_image_vs_weak_essence.
[113] Moser, Language Policy and Discourse on Languages in Ukraine Under President Viktor Yanukovych.
[114] Colborne and Kuzmenko, “The ‘Hardcore’ Russian Neo-Nazi Group That Calls Ukraine Home.”
[115] “20 let konfliktu v Pridnestrov’e. UNA-UNSO: ‘Pohibali ukraintsy, i my dolzhny byli ikh zashchishchat’,” Segodnya.ua, 19 de Junho de 2012, https://www.segodnya.ua/world/20-let-konfliktu-v-pridnectrove-una-unco-pohibali-ukraintsy-i-my-dolzhny-byli-ikh-zashchishchat-308277.html.
[116] Albert Shatrov, “Neonatsisty i separatisty: Ukrainskikh ekstremistov po-prezhnemu pritiagivaet Kavkaz,” Nezavisimaia gazeta, 30 de Junho de 1998, https://sites.ualberta.ca/~khineiko/NG_97_99/1149381.htm.
[117] Yudina, “The New Exile Strategy of Russian Nationalists” (transliteração das palavras em cirílico e transcrições de nomes aqui e em outras partes, como no original).
[118] Natalia Yudina, “Russian Nationalists Fight Ukrainian War,” Journal on Baltic Security 1:1 (2015): 47–61.
[119] Yudina, “The New Exile Strategy of Russian Nationalists.”
[120] Colborne and Kuzmenko, “The ‘Hardcore’ Russian Neo-Nazi Group That Calls Ukraine Home.” See also: John Færseth, “Ukraine’s Far-Right Forces,” Hate Speech International, 3 de Fevereiro de 2015, www.hate-speech.org/ukraines-far-right-forces/.
[121] Colborne and Kuzmenko, “The ‘Hardcore’ Russian Neo-Nazi Group That Calls Ukraine Home.”
[122] Yudina, “The New Exile Strategy of Russian Nationalists.”
[123] “Ukraine’s Ministry of Veterans Affairs Embraced the Far Right – With Consequences to the U.S,” Bellingcat, 11 de Novembro de 2019, https://www.bellingcat.com/news/uk-and-europe/2019/11/11/ukraines-ministry-of-veterans-affairs-embraced-the-far-right-with-consequences-to-the-u-s/.
[124] “Belorus iz batal’ona ‘Azov’ – geroi, avantiurist ili natsist? Istoriia Sergeia Korotkikh,” Belorusskii partizan, 16 de Janeiro de 2015, https://belaruspartisan.by/life/292580/.
[125] Yudina, “The New Exile Strategy of Russian Nationalists.”
[126] Colborne and Kuzmenko, “The ‘Hardcore’ Russian Neo-Nazi Group That Calls Ukraine Home.”
[127] Nikolay Mitrokhin, “Im Namen des Staates: Russische Nationalisten im Ukraine-Einsatz,” Osteuropa 69:3-4 (2019): 103–121.
[128] “V batal’one OUN voiuiut rossiiane, kotorykh na rodine obviniaiut v separatizme,” Obozrevatel’, 10 de Abril de 2015, https://www.obozrevatel.com/politics/65823-v-batalone-oun-voyuyut-rossiyane-kotoryih-na-rodine-obvinyayut-v-separatizme.htm.
[129] Mais recentemente sobre alguns aspectos desta história problemática: John-Paul Himka, Ukrainian Nationalists and the Holocaust: OUN and UPA’s Participation in the Destruction of Ukrainian Jewry, 1941–1944 (Stuttgart: ibidem-Verlag, 2021).
[130] Russkaia Povstancheskaia Armiia, 20 de Abril de 2020, http://dobrovoletz.blogspot.com/.
[131] Andrei Kuznetsov, Viktor Smalii and Bogdan Titskii, “Dlia chego sozdaetsia Russkaia Povstancheskaia Armiia,” ALIVEMEDIA, 30 de Dezembro de 2015, https://www.youtube.com/watch?v=_66RhYXK7X0.
[132] “Zaiavila o prichastnosti k ubiistvu deputata Shevtsova ‘Russkaia povstancheskaia armiia’,” Kur’er-Sreda, 4 February 2017, https://kurer-sreda.ru/2017/02/04/275075-zayavila-o-prichastnosti-k-ubijstvu-deputata-shevcova-russkaya-povstanceskaya-armiya.
[133] Kuznetsov, Smalii and Titskii, “Dlia chego sozdaetsia Russkaia Povstancheskaya Armiia.”
[134] Russkaia Povstancheskaia Armiia, 20 de Abril de 2020, http://dobrovoletz.blogspot.com/.
[135] “Prezidium,” UNIAN Fotobank, 11 de Maio de 2015, https://photo.unian.net/photo/664249-prezidium; “Repressii erefii protiv russkikh,” A-Radio, 19 September 2019, https://www.youtube.com/watch?v=7TEQOSepWRQ.
[136] “Russkaia delegatsiia na konferentsii ‘Mech Evropy’ i marshe ‘Radikal’nogo Al’iansa’,” Russkii Tsentr, 16 de Junho de 2019, http://russ.center/ru/russkaya-delegaciya-na-konferencii-mech-evropy-i-marshe-radikal-nogo-al-yansa.
[137] “Russkie soratniki na Festung Budapest 2019,” Russkiy Tsentr, 19 de Março de 2019, http://russ.center/ru/russkie-soratniki-na-festung-budapest-2019.
[138] “Russkaia delegatsiia na konferentsii ‘Mech Evropy’ i marshe ‘Radikal’nogo Al’iansa’.”
[139] “Konferentsiia Intermarium v Kieve,” Russkii Tsentr, 1 de Julho de 2019, http://russ.center/ru/konferenciya-intermarium-v-kieve.
[140] “Kuznetsov Andrei: imenno v emigratsii proiskhodit ta splavka rossiiskoi oppozitsii, kotoraia byla na ukrainskom maidane,” Eurorussians, 8 de Setembro de 2015,http://eurorussians.com/russian-rebel-army/.
[141] “Zakliuchenie komissii ‘Izucheniia agentov vliianiia’ pri Mezhdunarodnoi assotsiatsii ‘Institut Natsional’noi Politiki’ po Korotkikh Sergeiu Arkad’evichuKorotkykh Serhiy ArkadiyovychKorotkykh Serhii Arkadiiovych, 13 avgusta 1974 g.r.,” Institute of National Politics, 30 de Outubro de 2020, https://www.institutenp.com/zakluchenie-korotkykh-30-10-2020.
[142] “Aktsiia: Pasport dobrovol’tsu,” Russkii Tsentr, 21 September 2019, http://russ.center/ru/akciya-pasport-dobrovol-cu; “Ukraine’s Ministry of Veterans Affairs Embraced the Far Right – With Consequences to the U.S.”
[143] Yudina, “The New Exile Strategy of Russian Nationalists.”
[144] Robert Horvath, “Russkii Obraz and the Politics of ‘Managed Nationalism’,” Nationalities Papers 42:3 (2014): 469-488, aqui pp. 469 e 476.
[145] Anna Grytsenko, “Ukrainskie sviazi Boevoi organizatsii russkikh natsionalistov: kontakty i konteksty v do- i postmaidannoi Ukraine,” Forum noveishei vostochnoevropeiskoi istorii i kul’tury 13:1 (2016): 180-193.
[146] Anna Grytsenko, “Ot Donbassa do ‘Azova’: Ukrainskoe dos’e BORN,” Politychna krytyka, 24 de Fevereiro de 2015, https://politkrytyka.org/2015/02/24/ot-azova-do-donbassa-ukraynskoe-dose-born/.
[147] Pavel Nikulin and Egor Skorovoda, “Okolo ‘Azova’,” Mediazona, 26 de Dezembro de 2014, https://zona.media/article/2014/12/26/parinov.
[148] Grytsenko, “Ukrainskie sviazi Boevoi organizatsii russkikh natsionalistov.”.
[149] Grytsenko, “Ukrainskie sviazi Boevoi organizatsii russkikh natsionalistov.”
[150] Grytsenko, “Ukrainskie sviazi Boevoi organizatsii russkikh natsionalistov.”
[151] Grytsenko, “Ukrainskie sviazi Boevoi organizatsii russkikh natsionalistov.”
[152] “Kovalenko Eduard Vladimirovich,” Politrada, n.d., https://politrada.com/dossier/Eduard-Vladimirovich-Kovalenko/
[153] Anton Shekhovtsov, “Pro-Russian network behind the anti-Ukrainian defamation campaign,” Anton Shekhovtsov’s blog, 3 February 2014, https://anton-shekhovtsov.blogspot.com/2014/02/pro-russian-network-behind-anti.html.
[154] “Ukrainian Anti-War Political Prisoner Eduard Kovalenko Appealed to International Organisations for Support,” Stalker Zone, 10 de Janeiro de 2019, www.stalkerzone.org/ukrainian-anti-war-political-prisoner-eduard-kovalenko-appealed-to-international-organisations-for-support/.
[155] Halya Coynash, “Fake ‘Ukrainian fascist’ jailed for pro-Russian separatist rally,” Human Rights in Ukraine, 22 de Maio de 2017, https://khpg.org/en/index.php?id=1494888580.
[156] Roman Goncharenko, “Kontroverse um Aachener Friedenspreisträger,” Deutsche Welle,9 de Maio de 2019, https://www.dw.com/de/kontroverse-um-aachener-friedenspreistr%C3%A4ger/a-48678625.
[157] Denis Kazanskyi, “Zachem Rossiia zabrala po obmenu ukrainskogo fashista iz UNA-UNSO,” Denis Kazanskyi, 3 de Janeiro de 2020, www.youtube.com/watch?v=U2q8FAznF_w.
[158] Halya Coynash, “Why Russia demanded the release of a ‘Ukrainian fascist’ as part of the prisoner exchange in occupied Donbas,” Human Rights in Ukraine, 9 de Janeiro de 2020. https://khpg.org/en/1578530655.

As imagens presentes no artigo são reproduções das obras de  László Moholy-Nagy (1895-1946)




Fonte: Passapalavra.info