Março 15, 2021
Do Jornal Mapa
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No dia 11 de novembro de 2020, dia da Independência de Angola, mais um jovem morreu às mãos da polícia numa manifestação por melhores condições de vida e pela democracia. O seu nome: Inocêncio Matos, jovem anónimo, estudante e no início da sua participação nos movimentos cívicos. João Lourenço (atual Presidente do país) deixou de ter o benefício da dúvida por parte dos movimentos sociais e 2021 adivinhava-se um ano muito ativo em Angola. De facto, janeiro e fevereiro ficaram já marcados por mais momentos trágicos.

Inocêncio

Inocêncio Matos

Depois da morte do jovem angolano, foram realizadas várias manifestações, entre as quais, no dia 10 de dezembro, uma pelo direito a uma melhor vida e outra pelas eleições autárquicas de 2021, que deveria iniciar a tão prometida descentralização do poder político prometida para 2015, pelo então Ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa (atual vice presidente de Angola). O governo tinha prometido eleições em 2019, que só foram anunciadas para 2020 e adiadas pela mesma desculpa de sempre, falta de condições, desta vez por causa da Covid-19. João Lourenço, no dia dos 64 anos do MPLA, acabou por dizer que não existem condições para as eleições em 2021, ano do congresso do seu partido, onde se promete uma renovação superior para preparar as presidenciais de 2022 (ainda sem autarquias).

O governo tentou intimidar e deter os organizadores antes da manifestação de 10 de Dezembro, uma prática comum no país que teve repercussões na imprensa internacional com o que sucedeu com os 15+2, o caso dos ativistas detidos em 2015, acusados de golpe de Estado, quando se reuniram para ler e debater formas de resistência pacificas para exigir eleições autárquicas. Desta vez, a manifestação foi acompanhada pelos órgãos de comunicação social nacional e noticiada internacionalmente, mas quando alguns jovens se dirigiam para casa, no fim do protesto, longe do olhar dos jornalistas, foram atacados pela polícia, que baleou Eduardo João de Castro e prendeu algumas pessoas, como a ativista Finúria Silvano. No dia seguinte, Nuno Álvaro Dala, ativista do processo 15+2, recebeu uma notificação da Procuradoria Geral da República num processo de investigação criminal.

Ação solidária em S. Paulo.

A voz dos angolanos tem sido abafada pela indiferença dos órgãos de poder mundiais e raramente lhes é dado protagonismo. O mais comum é as suas ideias e sua dor serem traduzidas por um especialista – um político, um cientista social, um jornalista, etc. No entanto, os jovens angolanos não só organizam manifestações, como também criam associações socioculturais, organizam recolhas de alimentos, roupas, material e mão de obra para reconstruir casas, dinamizam debates e fornecem informação atualizada , por exemplo, através do facebook Central Angola 7311. Segundo o canal de notícias DW, jovens angolanos criam, também, bibliotecas ao ar livre. Luaty Beirão (Ikonoclasta) tornou-se um exemplo bem conhecido em Portugal desta resistência juvenil, que usa o Rap como forma de expressão e ferramenta de difusão da revolta, tal como noutros países, dando origem a diversos movimentos de hip hop angolano, como o Terceira Divisão. 
Apesar destas dinâmicas, e depois de um ano marcado por campanhas Black Lives Matter nos países «desenvolvidos», continua a ignorar-se as relações coloniais que persistem entre o Norte e o Sul e as perigosas reações de movimentos fascistas, racistas ou nacionalistas. Como pessoas vivas nos dias de hoje, não nos podemos manter em silêncio enquanto o sistema criado há mais de 500 anos continua a provocar o mesmo tipo de violência branca, que ceifa a vida de indivíduos como George Floyd (EUA), Bruno Candé (Portugal) João Alberto Silveira Freitas (Brasil) ou Inocêncio Matos (Angola) ou que exerce variadas formas e graus de violência sobre as suas comunidades.

“se uma comitiva de deputados e observadores é tratada deste modo, não podemos sequer imaginar como serão tratadas as pessoas das comunidades locais”

Em Angola, as questões territoriais e de distribuição de recursos tornaram-se fatais em janeiro passado. O massacre da Lunda Norte, ocorrido no dia 30 de janeiro na vila de Cafunfo, aconteceu quando as forças de segurança angolanas reprimiram brutalmente um conjunto de pessoas que se manifestavam contra as condições de extrema pobreza em que vivem. O descontentamento social partiu sobretudo de jovens, estudantes, e ex-trabalhadores da empresa mineira Endiama (antes chamada Diamang, empresa de extração de diamantes), que reclamam não estarem a receber as suas reformas e/ou não terem oportunidades de vida. Uma comissão de observadores, composta por 5 deputados da UNITA mais 2 ativistas independentes, deslocou-se ao local para apurar os factos, mas foi detida ilegalmente, isolada sem mantimentos nem contactos durante 3 dias e impedida de chegar à zona de Cafunfo, apesar do apoio e solidariedade das comunidades locais.

cartaz cartaz

O relatório 1 que escreveram conta detalhadamente como sucederam os episódios de violência e morte, que incluíram a profanação dos cadáveres e o seu depósito em valas comuns ou no rio, por parte das mesmas forças policiais. É de notar que, se uma comitiva de deputados e observadores de Direitos Humanos é tratada deste modo, não podemos sequer imaginar como serão tratadas as pessoas das comunidades locais. No dia 8 de fevereiro, ainda em retaliação, forças estatais terão assassinado outro cidadão na Lunda Norte, ao mesmo tempo que detinham em Luanda o líder do Movimento do Protectorado da Lunda Tchokwe, José Mateus Zecamutchima. Este movimento de libertação das regiões das Lundas reclama, entre outras coisas, que Portugal tinha prometido, num Acordo de Protetorado celebrado entre nativos Lunda-Tchokwe e Portugal, nos anos 1885 e 1894, dar estatuto de autonomia internacional àqueles territórios. Segundo estes, quando se negociou a independência de Angola entre 1974/1975, apenas os movimentos de libertação nacional tiveram direitos e a situação de protetorado foi ignorada.

Nesta luta dos povos africanos, encontramos a ideia de que a dor de um é a dor de todos e que, para a eliminar ou partilhar, se trabalha em cooperação. Ou, como se diz na filosofia Ubunto, trabalha-se em Shosholoza.. Os jovens angolanos têm colaboração regular com ativistas de todo o mundo, de Portugal ao Brasil, pasando pelo Reino Unido, Holanda, França e outras ex-colónias, como Moçambique, que está abandonado pelos polícias do mundo às mãos do DAESH, na zona de Cabo Delgado, no norte do país, numa guerra prestes a tornar-se mais visível. É preciso «abrir caminho aos que vêm atrás» e afirmar que vemos e recordamos o que se passa lá longe no Sul, para que estas injustiças sociais não se repitam mais.

É preciso uma tragédia para chegar a ti e a mim
é preciso uma tragédia para ver o que está longe daqui

Lista dos mortos do massacre de Cafunfo – 30 Janeiro 2021

Zango Zeca Muandjaji
António Avelino Bumba
Jorge Justino Muawanda
Tchifutchi Tomás
André Tchinjanga
Mutunda Mambo
Raimundo Manuel
André Muene Kapango
Borge Angelino
Castro Cassombo
Juca Avelino
David Mbalu Muamugina
Mukuenda Tomás Luampishi
Júlio Elias
Adacar Kaita
José Kawambiye
Sheta Eduardo
Nelson João Kapoia
Manuel Swete
Dinis Simba
Joel Julinho Lázaro
Afonso Sazeca

Zito Zeca Muchima
Muyemba
Muteba
Alfredo
Kaxala
Wilson


Texto de M.Lima [m.lima@jornalmapa.pt] e Pula Babulo
Fotografias retiradas de fb.com/CentralAngola7311


Artigo publicado no Jornal Mapa, edição #29, Novembro 2020 | Fevereiro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt