Março 14, 2021
Do Passa Palavra
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Por Passa Palavra

Passa Palavra: A mídia tem informado que as manifestações ocorrem devido à má gestão do atual governo frente à pandemia no país. Existem outras pautas, e quais são as principais?

Agustí Barua: É preciso dizer que a grande mídia tem fortes interesses corporativos, responde a grupos econômicos fortes, alguns diretamente vinculados aos sujeitos da disputa como o bloco de mídia de Horacio Cartes, que é um dos sujeitos principais nesta disputa. Sim, há a questão da má gestão, o sistema de saúde paraguaio tem uma deficiência gigantesca, isso se atribui diretamente ao Partido Colorado, que por décadas o precarizou. Mas por outro lado é isso, existem múltiplas pautas, praticamente não existe um âmbito específico. São pautas como a condição das mulheres, a questão indígena, a questão das terras, habitação, alimentação, transporte, a questão do salário digno. Existe um espectro de questões que têm um atraso enorme, herdadas, sim, mas muito potencializadas por este governo, que é particularmente abandonador, dedicado à acumulação através da exploração do Estado para seus interesses pessoais.

PP: Além das manifestações de rua, tem havido também algum tipo de paralisação de trabalhadores ou manifestações em lugares de trabalho?

AB: Já temos pelos menos duas décadas de uma significativa desmobilização das organizações sindicais e de categorias. O impacto desta desmobilização na vida dos trabalhadores como sujeitos organizados é visível neste caso. O que se vê é muita, muita gente, principalmente gente jovem, menores de 30 anos, se mobilizando, mas não diretamente como uma identidade de trabalhadores.

PP: Os trabalhadores e trabalhadoras da saúde têm tido algum papel protagonista ou de articulação, nas mobilizações ou frente à crise sanitária?

AB: Por um lado, devido à pandemia, existe uma extenuação de muita gente que trabalha no âmbito sanitário. Por outro, muitas das organizações de trabalhadores da saúde estão cooptados pelos partidos conservadores. E também, a formação profissional gera profissionais que não tendem a pensar para além de seus interesses pessoais ou corporativos. Uma educação conservadora que teme “politizar”, teme o coletivo, o social, dá as costas a isso e se encontra assim muitas vezes sem capacidade de protestar. De todas formas, em muitos hospitais tem havido denúncias contra as deficiências no sistema, mas não se formou um movimento. O Círculo Paraguaio de Médicos e a Associação Paraguaia de Enfermaria, que são sindicatos que não têm relação com o Estado, são sindicatos mais autônomos, esses sim têm sido bastante críticos ao governo.

PP: Como tem sido até agora a repressão às manifestações, e como os manifestantes têm reagido a ela?

AB: A repressão tem sido bastante violenta, ainda mais considerando que em geral as manifestações têm sido pacíficas. Mas existe muitíssimo mal-estar acumulado, e então facilmente as pessoas que estão protestando terminam “escalando” a situação, o que de fato vem ocorrendo. Hoje é o quarto dia e as manifestações não diminuem, se estendem, se articulam. As redes sociais estão tendo um papel importantíssimo. Têm aparecido consignas que até então não tinham massividade, como “ANR nunca más”, que é o partido da ditadura [Trata-se do nome tradicional do Partido Colorado, Associação Nacional Republicana], que praticamente sem interrupção foi governo desde a saída de [Alfredo] Stroessner em 89. E isso tem cada vez mais consenso. É um partido que tem uma base eminentemente clientelista, que fundamenta a adesão de seus correligionários à possibilidade de conseguir trabalho no Estado, ou algum benefício econômico. E apesar disso, parece que agora está começando a ruir.

PP: Em muitos países ocorreram, e ainda ocorrem, manifestações contra medidas sanitárias, especialmente contra os lockdowns e as vacinas. Houve isso também no Paraguai?

AB: Não, esse tipo de manifestação praticamente não houve aqui. Talvez algo isolado, mas em geral não. As pessoas acataram fortemente as medidas sanitárias restritivas, que foram muito precoces, e ao menos no início tiveram muito êxito. Mas quando começou a disseminação comunitária do vírus e os casos graves, se pode ver por um lado a dívida histórica, que já se conhecia, da saúde, e por outro todas as denúncias de corrupção que houve em vários setores do Estado, obviamente vinculados a interesses privados e também setores mafiosos. E também diretamente no setor da saúde, que é o que as pessoas estão vivendo com maior indignação, que neste contexto se tenha endividado o país para ter um dinheiro para a urgência da pandemia, e se visibilizaram denúncias de corrupção muito fortes.

PP: Como estão reagindo as diferentes forças políticas do país? Estão apoiando as manifestações, guardando distância, apoiado o presidente?

AB: O panorama das forças político-partidárias, eu descreveria assim: o partido do governo, o Partido Colorado, está faccionado fortemente. Tem a facção que apoia o presidente Abdo [Mario Abdo Benítez], a facção que apoia o ex-presidente [Horacio Cartes], e não há maior diferença de fundo entre ambas linhas. São setores conservadores, plutocráticos, fortemente autoritários. Por outro lado, a oposição é heterogênea em seu espectro ideológico, a oposição mais liberal está contra [o governo], são quem impulsiona o impeachment. Também a Frente Guasu, um conglomerado de centro-esquerda, e outros partidos menores apoiam o impeachment, mas no momento eles não têm os votos necessários para fazê-lo. A possibilidade, e o sujeito fundamental, é que essa geração jovem que está nas ruas faça pressão, esse é o elemento desestabilizador do tabuleiro. Neste momento Horacio Cartes ainda tem os votos necessários para impedir o impeachment de Abdo. Nesse sentido também a pauta é heterogênea: impeachment do presidente, impeachment do presidente e do vice-presidente, saída de toda a linha sucessória, convocatória de novas eleições… [aqui toca o celular (telemóvel) do entrevistado]

PP: Essa juventude que está nas manifestações, como é que ela foi impactada pela pandemia? Houve aumento do desemprego? A condição de vida da juventude mudou muito, digamos, nos últimos 10 anos?

AB: É uma juventude muito heterogênea, muito trans-classe, é minha impressão. Mas sim, o impacto econômico é gigantesco, e já vinha de antes. A pandemia agudizou, quebrou uma grande quantidade de negócios da classe média.

PP: Como assim?

AB: (…) É uma sociedade muito adultocêntrica, onde a voz dos jovens é desqualificada em geral. Por outro lado, os movimentos sociais mais sigificativos nos últimos 10 anos em Assunção são generacionais, pessoas jovens, estudantes secudaristas, universitários e feministas. Eu acredito que isso se soma bastante às reações que estamos vendo, que são muito massivas, pedindo o impeachment do presidente, do vice, a saída do Partido Colorado, que saiam todos [“que se vayan todos”], ou seja, tudo se somou ao mal-estar acumulado de uma sociedade fortemente tradicional e gerontocrática.




Fonte: Passapalavra.info