Junho 16, 2022
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

Em pleno século XXI uma potência nuclear iniciou uma guerra de conquista e anexação de territórios contra um país vizinho, sem falar na pilhagem de bens, colocando-nos perante algo que julgávamos definitivamente ultrapassado. Desde a época napoleónica que não havia na Europa guerras de conquista. Mesmo a permanente agitação militar em África tem consistido em guerras civis e, nos casos da Eritreia e do Sudão do Sul, em guerras de secessão, mas nunca de conquista. E as desastradas e desastrosas guerras prosseguidas pelos Estados Unidos contra o Iraque e o Afeganistão destinaram-se a alterar regimes políticos e não a conquistar territórios nem integrar populações.

Perante aquele facto extraordinário, que está a suscitar repercussões políticas e económicas mundiais, o que faz uma porção considerável da esquerda, ou do que dela resta e ainda usa esse nome? Absolve ou, mais hipocritamente, atenua a responsabilidade do regime russo, com o argumento de que, com esta guerra, ele se oporia a um conjunto de potências ainda mais forte e agressivo. A falácia não é ocasional nem ingénua. Vejamos-lhe o pedigree.

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Os argumentos que hoje se invocam para defender Putin foram formulados pela primeira vez na década inicial do século passado, simultaneamente em dois lados opostos do globo, num movimento que, em comum, haveria de gerar o fascismo. «Há nações que estão numa situação de inferioridade relativamente a outras, tal como há classes que estão numa situação de inferioridade relativamente a outras classes. A Itália é uma nação proletária», escreveu Enrico Corradini em Outubro de 1910. «A Itália é a proletária do mundo». Já num livro publicado quatro anos antes o japonês Kita Ikki defendera que a guerra do seu país contra a Rússia «não fora travada para satisfazer as ambições dos militares nem o desejo de lucro dos capitalistas, mas fora na verdade travada para o […] espírito do povo», concluindo, coerentemente, que seria necessário promover o imperialismo nipónico através de uma estratégia que estimulasse a agitação contra o colonialismo ocidental na Ásia. A nação proletária é o mito fundador do fascismo, que desde a sua origem o usa como justificação. Assim como o proletariado pretendia emancipar-se economicamente, também a nação proletária se iria emancipar, e depois da primeira guerra mundial este mito serviu ao fascismo de álibi para as aventuras bélicas.

As potências vencedoras em Novembro de 1918, especialmente o Reino Unido e a França, usaram o tratado de Versailles para impor à Alemanha uma considerável restrição de soberania e, ao mesmo tempo, onerá-la com o pagamento regular de colossais reparações de guerra. A grande maioria daqueles alemães que levaram Hitler ao poder pretendia acima de tudo ver-se livre do tratado de Versailles, e era este um dos principais temas da propaganda nacional-socialista. O tratado de Versailles e o tratado de Saint-Germain haviam servido igualmente para proibir a unificação das duas nações germânicas, a Alemanha e a Áustria. Ora, o apoio que os seguidores de Hitler encontraram na Áustria, e que finalmente permitiu o Anschluss, ou seja, a unificação dos dois países num só Reich, mostrou a força da oposição popular às exigências dos vencedores de 1918. Se a Alemanha e a Áustria haviam sido relegadas à condição de nações proletárias, o Führer prometia que elas deixariam de o ser.

Entretanto, no outro lado do mundo o Japão mobilizara-se na primeira guerra mundial ao lado da Entente com o objectivo de ampliar a sua influência nas ilhas do Pacífico e obter a hegemonia política e económica sobre a China republicana, mas estas esperanças ficaram frustradas. Dois anos depois de a conferência de Versailles ter satisfeito as pretensões territoriais nipónicas, a Grã-Bretanha cedeu às pressões norte-americanas e pôs termo à sua aliança com o Japão. Com efeito, o manifest destiny, o destino manifesto que levara os colonizadores anglo-saxónicos a expandir-se da costa atlântica dos Estados Unidos até à costa pacífica, dizimando os nativos ou confinando-os em reservas, levara-os depois a progredir pelo Oceano Pacífico, a forçar a abertura do Japão ao comércio, a colonizar as Filipinas, e em 1928 os Estados Unidos mantinham na China cerca de cinco mil e duzentos militares, mais de metade dos que o Japão estacionara na Manchúria. Era esta a base real evocada pela versão anti-imperialista do expansionismo nipónico. Contra a hegemónica nação plutocrática iria erguer-se uma nação proletária. E assim, quando o fascismo imperial japonês delineou a Grande Esfera da Co-Prosperidade, que levou ao confronto militar com os Estados Unidos e as potências coloniais europeias no Pacífico, ele contou com o apoio não só de uma parte substancial da população nipónica, mas ainda de uma parte significativa dos povos colonizados pelos europeus e pelos norte-americanos, para quem a invasão japonesa não seria uma invasão, mas uma libertação. Um colonialismo anticolonialista não é menos paradoxal do que uma nação proletária.

Se aplicarmos àquela época os critérios que levam hoje tanta gente de esquerda a encontrar justificações para a agressividade bélica manifestada por Putin, ou mesmo a aplaudi-la, então essa esquerda deveria igualmente festejar Hitler e o Anschluss, assim como deveria enaltecer a expansão imperial nipónica no Pacífico. Tanto o Führer no Reich como o fascismo militar no Japão ou, mais modestamente, o Duce no Mediterrâneo cobriam o seu imperialismo com um discurso anti-imperialista. A segunda guerra mundial era apresentada pelos fascismos como um combate das nações proletárias contra as nações plutocráticas, exactamente o que fazem hoje todos os que, de uma ou outra maneira, justificam a invasão russa da Ucrânia.

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Se, como tenho defendido, o fascismo resulta do cruzamento ou da convergência dos ecos sociais da esquerda no interior da direita e dos ecos nacionalistas da direita no interior da esquerda, então assistimos agora a um novo fôlego do fascismo, quando vemos uma esquerda a apoiar o regime de Putin e este regime a amparar-se também nessa esquerda. Mas a facilidade com que a convergência se operou indica que o terreno estava já formado pelos grandes temas do pós-modernismo — a ecologia e os identitarismos.

Aliás, a convergência entre direita e esquerda na renovação do fascismo atingira um novo patamar com as reivindicações populistas formuladas por ambas essas franjas políticas em movimentos sociais recentes e culminou nos anos da pandemia com a oposição às vacinas e às medidas sanitárias. Como tratei desta questão num dos capítulos do ensaio São Marx, rogai por nós, posso passar adiante.

Agora, no entanto, a degradação fascista dessa esquerda desceu mais baixo porque, ao apoiar Putin, ela abdicou do sentido imediato de equidade que inspirara e servia de justificação fundamental a toda a esquerda. Se os artifícios e jogos de palavras conferiram à dialéctica uma péssima reputação, ela piora quando o agressor é apresentado como um agredido e o invasor é transformado em vítima. A tragédia do nacionalismo consiste em provocar um círculo vicioso, e o nacionalismo do agressor estimula o nacionalismo do agredido, que por sua vez reforça o do agressor e assim sucessivamente. Mas a esquerda putinesca, quando denuncia o funesto recrudescimento do nacionalismo na Ucrânia, omite que ele é suscitado e incentivado pelo imperialismo russo.

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Nessa esquerda formaram-se dois grandes campos.

Há quem se oriente para reflexões de carácter geopolítico, assumindo como factos consumados as declarações e os discursos públicos de um dos lados, para legitimar os factos bélicos reais do outro lado. Parecem alegações de advogados em recursos para os tribunais superiores e são, tal como elas, fastidiosas e vazias. Espremidos ao essencial, esses argumentos resumem-se ao perigo que sofreria a Rússia se a NATO se aproximasse das suas fronteiras, quando precisamente a invasão da Ucrânia fez a Rússia precipitar-se para as fronteiras da NATO, e fê-lo duplamente, porque levou dois países tradicionalmente neutrais, a Suécia e a Finlândia, a pedirem o ingresso urgente na NATO. O pretexto de que a conquista da Ucrânia se destinaria a impedir a NATO de ampliar-se àquele país cai pela base quando verificamos que a guerra multiplicará muito a extensão da fronteira da NATO com a Rússia. Quem acredita numa justificação assim é capaz de acreditar em tudo. Quando escrevi Fascismo ou estupidez? não pensava que a estupidez chegasse a este ponto. Uma esquerda que deixou de olhar para os factos e esgrime com palavras resume-se à impotência. É uma esquerda em colapso.

Mas existe também uma esquerda moralista — aliás, sempre existiu — uma espécie de religião laica apegada a palavras de ordem surgidas noutros contextos. Fala-se de deserção, mas pôde haver uma deserção em massa na primeira guerra mundial porque ocorria em ambos os lados e foi propiciada pelas revoltas nas trincheiras e nas forças navais. Tratava-se então de um confronto entre imperialismos simétricos, e já as características da segunda guerra mundial foram muito diferentes, porque ao conflito entre potências sobrepunha-se o combate contra o fascismo e o racismo nacional-socialista. Por isso, em vez da deserção, desenvolveram-se movimentos de resistência em que o aspecto político e o militar se confundiram. Sem dúvida o nacionalismo inspirou originariamente esses movimentos, porque todo o nacionalismo de um lado suscita nacionalismo do outro. Mas em alguns países, como a França, foi a requisição de trabalho forçado para laborar nas fábricas do Reich que converteu a resistência num movimento de massas, juntando assim uma vertente de classe aos aspectos ideológicos e militares, e então os efeitos da resistência ultrapassaram os limites nacionalistas. Outro caso dessa tripla sobreposição ocorreu nas guerras coloniais portuguesas de 1961 até 1974. A deserção, cada ano mais numerosa, convergiu com a emigração clandestina massiva para trabalhar nos países europeus mais desenvolvidos, a ponto de ambos estes movimentos se confundirem, o que não impediu alguns desertores de irem oferecer os seus serviços aos exércitos de guerrilha anticolonialistas. É que não eram simétricos os campos em luta, como o haviam sido na primeira guerra mundial. Cada guerra, surgida em circunstâncias económicas e sociais específicas, suscitou diferentes reacções. Quando aparece agora uma esquerda a repetir palavras de ordem de há mais de cem anos, nada podia demonstrar melhor o seu carácter obsoleto.

Para cúmulo do sarcasmo, ambos estes campos, o da esquerda geopolítica e o da esquerda moralista, juntam-se quando agitam a bandeira da paz para reivindicar que os outros países deixem de apoiar a Ucrânia com armas e demais material bélico. Sem dúvida, no momento em que o atacado não tiver meios para se defender, a paz reinará. O czar Nicolau I proclamou o mesmo quando abafou em sangue a revolta dos polacos contra o domínio russo. «A paz reina em Varsóvia», disse ele, e a esquerda dessa época respondeu-lhe que se tratava de uma «paz dos cemitérios». Mas hoje é esta paz dos cemitérios que a esquerda putinesca reivindica.

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Fica assim marcado um antes e um depois. Da nossa parte, da parte daqueles para quem as palavras revolucionário e anticapitalista ainda têm algum sentido, não há nem haverá diálogo, não só agora, mas nunca, com os defensores desta agressão e desta invasão.

A guerra na Ucrânia provocou muitos mortos e há-de provocar muitíssimos mais. Nesta soma de catástrofes, a clivagem entre o antes e o depois é outra morte, a da esquerda que encontra justificações para Putin e assim se suicidou enquanto esquerda.

A fotografia em destaque é de Vasiliy Zhlobsky, a outra é de Oleg Petrasyuk.




Fonte: Passapalavra.info