Maio 23, 2021
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

Ao ler o Flagrante Delito publicado no sábado, Primeiro de Maio, dedicado ao Feminismo soariano, lembrei-me de um célebre poema (célebre em Portugal) que António Gedeão escreveu durante o fascismo, Calçada de Carriche:

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Para os brasileiros que não o saibam, convém explicar que calçada é uma rua muito inclinada (Lisboa é uma cidade entre colinas e um belo rio); Carriche é um bairro no limite de Lisboa; passeio é o que no Brasil chamam calçada; lancheira é a caixa em que os operários levam a refeição; desenxovalhada, neste contexto, quer dizer decidida, o que os brasileiros chamam sem frescuras; magalas são soldados e desembestada é correndo, à pressa. Há bons poetas, naquele país.

Há muito bons poetas em Portugal, mas é um povo sentimental e dado à piedade, como o fado mostra. Ora, Calçada de Carriche tem um ritmo único ao longo de todo ele, e a chave para a compreensão desse ritmo é dada pelas estrofes que repetem puxa que puxa larga que larga, ou seja, é o ritmo de uma máquina. Todo o poema obedece ao ritmo de uma máquina, e Luísa é só uma engrenagem da máquina. Este é o cerne do poema, e é a partir daí que ele pode ser entendido.

Por isso o poema deve ser dito por uma voz fria e ligeiramente cruel, a frieza da máquina, deixando a compaixão para quem o ouve ou lê. Uma voz como aquelas que recitavam Brecht durante a república de Weimar. Apesar disto, a interpretação antiga de Mário Piçarra, entre as que conheço, ainda me parece a melhor, pelo ritmo que consegue sustentar. Pena que a voz seja nostálgica.

Quanto à Calçada de Carriche, ela hoje é assim

Mas na época do poema seria mais ou menos assim:

Muita coisa se passou entre estas duas fotografias e, para se entender o salto na história, nada melhor do que outro poema. Apesar da diferença de sotaques e de vocábulos — e ainda há quem diga que a língua é a mesma! — peço aos brasileiros que ouçam e vejam Mário Viegas recitar um poema de Maria Velho da Costa (marquei o início no minuto 7:25).

Mário Viegas foi um dos melhores actores e recitadores portugueses, morreu de Aids há umas dezenas de anos. Quando ainda havia só três empresas ocupadas e em autogestão, o jornal Combate, de que fui um dos fundadores, organizou uma sessão de apoio aos trabalhadores dessas empresas e também de recolha de fundos para a sua luta. Participou um grupo de cantores, que incluía nomeadamente Vitorino e José Mário Branco, e um recitador, Mário Viegas. Foi a primeira sessão pública de apoio à autogestão.

A autora do poema, Maria Velho da Costa, era esposa do sociólogo Adérito Sedas Nunes, destacado ideólogo da classe dos gestores, que foi um personagem significativo na transição do salazarismo para a democracia. Dediquei a Sedas Nunes algumas páginas no meu livro Labirintos do Fascismo, para aí remeto quem estiver interessado. Mas Maria Velho da Costa posicionava-se à esquerda e salientou-se, nos últimos anos do fascismo, ao colaborar na publicação das Novas Cartas Portuguesas («Novas» para que não se confundissem com as Lettres de la religieuse portugaise). Tudo somado, Maria Velho da Costa deixou uma obra literária marcante e destacou-se na luta contra o fascismo e pela emancipação das mulheres.

O poema recitado por Mário Viegas reproduz bem a época, o ambiente e o papel desempenhado pelas mulheres no processo revolucionário português de 1974 e 1975. Foi uma das coisas que mais nos surpreendeu, a mim e aos outros camaradas do Combate, ver como da noite para o dia, aquelas mulheres do povo, que durante todo o fascismo pareciam não ter voz, surgiam, se afirmavam e tomavam as coisas nas mãos. A primeira fábrica a entrar em autogestão tinha um pessoal exclusivamente feminino, era uma pequena indústria, com uma dúzia de operárias, nenhuma delas com qualquer passado político. A segunda empresa a entrar em autogestão, bastante maior, tinha igualmente um pessoal quase todo feminino, também sem nenhum passado político. Se bem me lembro, só havia ali alguns homens nos escritórios e na parte administrativa. Depois, o mesmo sucedeu em todo o país, nos latifúndios do Sul tal como nas indústrias do Norte, embora as camponesas do Sul tivessem frequentemente uma experiência política na área do Partido Comunista.

Comecei este artigo com o poema de António Gedeão, Calçada de Carriche, que exprime, nas palavras e no ritmo dos versos, a vida dessas mulheres sem voz, «puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga». Como é que os milhões de Luísas que subiam as calçadas se transformaram subitamente nesses milhões de mulheres que encheram o poema de Maria Velho da Costa e embargaram de emoção a voz de Mário Viegas, como é que as Luísas passaram a encher as calçadas e as ruas, as empresas e as casas naqueles dois anos?

E onde estão elas hoje?

A fotografia de destaque mostra um episódio de repressão pela GNR na zona industrial do Barreiro, ao sul de Lisboa, do outro lado do Tejo, na década de 1940. Não sei quem é o fotógrafo, nem sei se alguém sabe.




Fonte: Passapalavra.info