Janeiro 15, 2021
Do El Coyote
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Quando no primeiro semestre de 2020 nos deparamos com a notícia de lockdown e quarentena em diversos estados e cidades no Brasil, algumas notícias mostraram que diversos setores, considerados essenciais, tiveram surtos de COVID-19 nos seus ambientes de trabalho. Uma porcentagem muito considerável dos casos era do setor de frigoríficos e matadouros brasileiros. No final do mês de junho, o Portal G1 noticiou que “frigoríficos continuam enfrentando surtos de Covid no Brasil e preocupam a China” mostrando também que em “Rondonópolis (MT), o frigorífico Agra suspendeu as exportações de carne bovina para a China. A unidade ficou fechada por alguns dias, depois que mais de 90 funcionários foram diagnosticados com o novo coronavírus, na semana passada” (G1, 2010). Eles alertavam, ainda, que não se tratava de uma situação nacional já que “o maior abatedouro da Alemanha teve que fechar as portas depois que mais de 1.500 funcionários foram infectados pela Covid” (G1, 2020). O El País também noticiou que:

“a Procuradoria-Geral do Trabalho (PGT) anunciou inspeções em mais de 60 frigoríficos em 11 estados, entre eles Rondônia, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Segundo relatório do Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), oito abatedouros paralisaram suas atividades durante o mês em decorrência da propagação da covid-19” (EL PAÍS, 2020).

Isso fez com que várias cidades interioranas, onde esses frigoríficos estão localizados, como São Miguel do Guaropé (RO), tinha “até o dia 17 de junho, seis mortes e 617 casos de covid-19 confirmados, 280 ainda monitorados pelas autoridades de saúde” (EL PAÍS, 2020). Os portais jornalísticos da grande impresa indicam que as aglomerações desse setor, onde necessitam de muitos trabalhadores em linhas de montagem, sejam os principais fatores, além da falta de higiene nesses ambientes, onde várias fábricas desses setores se recusam a aderir os protocolos.

Demonstramos aqui que, as razões para isso, e de outros fatores dessa disseminação, tem relação com a ligação entre dominação animal (especismo) e péssimas condições de trabalho. Assim como entendemos que a própria pandemia atual é resultado dessa ligação. É sintomático, portanto, que é nesse setor, entre inúmeros setores industriais, que tenha mais contágio.

Especismo (dominação animal) e dominação de classes

Para que possamos não apenas compreender melhor as relações entre os diversos surtos do novo coronavírus em frigoríficos brasileiros e o Especismo (violência com base no pertencimento a uma determinada espécie), mas também nos prevenir contra futuras pandemias (que afetam principalmente os mais pobres e a classe trabalhadora como um todo) já profetizadas pela comunidade científica especializada na área. Antes de qualquer coisa, é prudente compreendermos o conceito de zoonose (doenças de origem animal), seus impactos nos seres humanos e a vulnerabilidade da classe trabalhadora a essas doenças na economia capitalista.  Não foi de forma gratuita que a pensadora feminista e vegetariana Carol J. Adams advertiu que:

A divisão do trabalho nas linhas de montagem deve seu início à visita de Henry Ford à linha de desmontagem do matadouro de Chicago. Ford atribuiu a ideia da linha de montagem às atividades fragmentadas da matança de animais a que assistiu. (…) Embora Ford tenha invertido o resultado do processo de retalhamento – no sentido de que um produto é criado, em vez de ser fragmentado, na linha de montagem – , ao mesmo tempo ele contribuiu para a maior fragmentação do trabalho do indivíduo e da produtividade. O desmembramento do corpo humano não é tanto uma construção do capitalismo moderno quanto o capitalismo moderno é uma construção baseada no desmembramento e na fragmentação” (ADAMS, 2020, p.93-94).

O processo de linha de montagem fordista (direita) e um frigorífico nos dias atuais (esquerda)

Os apontamentos e paralelos feitos por Carol Adams denunciam as relações estreitas entre o desenvolvimento do capitalismo e o modus operandi dos frigoríficos, mas uma análise ainda mais profunda é fundamental para compreendermos o papel da dominação e violência contra os animais em transformar seres humanos em “bestas de carga” e mercadoria aos olhos do capital e de sua lógica. Uma obra em especial, escrita de forma anônima e publicada em 1999 pela editora independente Antagonism Press é crucial para isso. Trata-se do “Beasts of Burden” (Bestas de Carga). Uma das inúmeras conclusões que podemos extrair dessa obra é a de que ao domesticarmos e dominarmos (ao longo da nossa história) os animais e a natureza (como se não fossemos nós mesmos seres naturais e animais), acabamos nos domesticando, dominando e violentando em diversas categorias como classe, gênero, raça, etnia, credo, entre outras.

Uma observação superficial poderia sugerir que os surtos generalizados do novo coronavírus nos frigoríficos brasileiros se devem a alguns fatores e causas mais imediatas e aparentes como: a) centenas de trabalhadores aglomerados em uma mesma unidade de produção; b) o ambiente refrigerado que dificulta a renovação e circulação do ar; c) a exposição durante o deslocamento pelo transporte público precário e sucateado; d) o acesso à água pelos trabalhadores para a realização de sua higiene; e) ingerência da empresa em cumprir devidamente os protocolos sanitários. Como vimos há pouco, as coincidências e similaridades entre o sistema fabril e os frigoríficos não são arbitrários ou frutos do acaso. Ambos seguem não apenas uma estética similar, mas uma lógica concreta: a domesticação das massas (seja de animais humanos ou não humanos).

No âmago dessa lógica de dominação está a “causa eficiente”[1] da tragédia que acometeu milhares de trabalhadores desse setor. Entretanto, não temos aqui a pretensão de afirmar que o Especismo é a gênese única e exclusiva disso tudo, mas que contribui direta e efetivamente para essa catástrofe. Podemos ver esse mesmo raciocínio no Bestas de Carga onde se diz que:

O desenvolvimento de Estados e classes foram processos contraditórios, complexos e controversos que ocorreram ao longo de muitos milênios. Enquanto a domesticação de plantas e animais foi uma parte importante dessa história, não queremos sugerir que foi a história toda” (BESTAS DE CARGA, 2015, p.15)

E ainda o teórico da Ecologia social, Murray Boockhin nos informa:

“Refiro-me a mentalidade estruturada em termos da hierarquia e domínio, na qual a dominação do homem pelo homem deu origem a concepção de que dominar a natureza fosse o destino e inclusive a necessidade da humanidade” (BOOKCHIN, 2019, p.5)

A ideologia do capital, resultado final da dominação e hierarquia, aglomera trabalhadores em frigoríficos como a pecuária intensiva aglomera a maior quantidade possível de animais para converter sua existência em lucro para as elites, para os latifundiários, para a classe dominante. Nesse processo, tanto o animal quanto o trabalhador são tratados como objeto, como mercadoria, como algo inerte a ser ignorado (não é à toa que muitos trabalhadores alegam que não querem ser tratados como animais ao exprimir sua condição em tom de desabafo). Abraçamos o projeto iluminista do progresso, do avanço tecnológico, da dominação da natureza (e dos animais) e, ao abraçar cegamente esse projeto, também nos destruímos, afinal, somos tanto uma coisa quanto a outra simultaneamente (naturais e animais).

A morte de animais do campo para subsistência ou comércio regional passou para os açougues das ruas cheias e sujas das cidades industriais do século XIX

Objetificação dos animais e alienação dos trabalhadores

Em outra passagem da Política Sexual da Carne, Carol Adams ressalta o processo de objetificação e alienação de trabalhadores e animais pela lógica do capital na pecuária e concluí que:

Uma das coisas básicas que precisam acontecer na linha de desmontagem de um matadouro é que o animal deve ser tratado como um objeto inerte, e não como um ser vivo, que respira. Do mesmo modo o trabalhador na linha de montagem é tratado como um objeto inerte, que não pensa, cujas necessidades criativas, corporais e emocionais são ignoradas. Mais que quaisquer outros, esses trabalhadores da linha de desmontagem dos matadouros têm de aceitar em grande escala a dupla aniquilação do eu: precisam não só negar a sua pessoa como também aceitar a ausência cultural da referência dos animais. Precisam ver o animal vivo como a carne que todos lá fora aceitam que ele é, embora o animal ainda esteja vivo. Assim, eles precisam ser alienados do seu próprio corpo e também do corpo dos animais” (ADAMS, 2018, p.94).

Longe de ser o país do futuro, como sugeria o marketing de governos passados, o Brasil ainda continua a cumprir seu papel submisso e subalterno de colônia do imperialismo estrangeiro a partir do protagonismo da pecuária que, em 2019 teve seu PIB avaliado em um total de 322 bilhões de reais segundo o IBGE e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Não foi por mero acaso que os setores frigoríficos, mesmo diante de suas evidentes limitações em relação à possibilidade de cumprimento dos protocolos sanitários da pandemia foram classificados judicialmente como “atividade essencial”, afinal, vidas humanas e não humanas são mera estatística diante do sadismo da burguesia.

Não é novidade alguma que trabalhadores ligados às indústrias de exploração animal estejam em constante exposição, ameaça e vulnerabilidade diante de epidemias zoonóticas (de origem animal). O jornalista científico David Quammen, em 2012 já nos advertia o seguinte:

O tema da doença animal e o tema da doença humana são, como veremos, fios de uma mesma corda. (…) O Ebola é uma zoonose. A peste bubônica é outra. E também foi uma zoonose a chamada gripe espanhola de 1818-9, que teve como fonte, em última análise, uma ave aquática e que, depois de passar por algumas combinações de animais domésticos (um pato no sul da China, uma leitoa em Iowa?), emergiu e matou nada menos que 50 milhões de pessoas antes de recair na obscuridade. Todas as influenzas humanas são zoonoses. E o mesmo pode se dizer da varíola dos macacos, da tuberculosa bovina, da doença de Lyme, da febre do Nilo Ocidental, da doença de Marburg, da raiva, da síndrome cardiopulmonar por hantavírus, do antraz, da febre de Lassa, da febre do Vale do Rift, da larva migrans ocular, do tifo rural, da febre hemorrágica boliviana, da doença da floresta de Kyanasur e de uma nova moléstia esquisita chamada de encefalite de Nipah, que matou suínos e suinocultores na Malásia. Cada uma dessas zoonoses reflete a ação de um patógeno que pode passar de outros animais para uma pessoa. (…) cerca de 60% de todas as doenças infecciosas humanas hoje conhecidas passam rotineiramente ou passaram há pouco tempo entre outros animais e nós” (QUAMMEN, 2020, p.17-25) .

Ainda, a militante Ana Mota revela as conexões entre dominação de classe, gênero e especismo:

“No Brasil, em 2012 o setor frigorífico que incluí o abate, desossa e produção de produtos de carne, empregava 388.387 trabalhadores, sendo 41% mulheres. As mulheres são as que mais sofrem com assédio moral e constrangimento dentro do setor frigorífico. Idas ao banheiro são controladas, assim como seus corpos, em nome do lucro, existe um limite para gravidez dentro do setor. As mulheres também são as que mais sofrem com acidentes, são casos de lesões por esforços repetitivos e de transtornos psicológicos, como depressão e ansiedade. Geralmente, mulheres possuem duplas ou triplas jornadas de trabalho, muitas são mães solo e só aceitam o trabalho exaustivo, para alimentarem seus filhos. A média de remuneração dos trabalhadores do setor frigorífico é de R$ 1.280,29, sendo que mais da metade recebe menos de dois salários mínimos. O setor frigorífico é marcado por trabalhadores e trabalhadoras jovens, que sem esperanças, escolhem o serviço pesado de matar animais não humanos” (MOTA, 2020, p.85-86).

A Central Única dos Trabalhadores CUT denuncia que, em 2018, frigoríficos são multados por descumprir leis trabalhistas

Podemos concluir então que, embora a dominação, exploração e violência contra os animais (Especismo) não seja a única gênese do problema sanitário da pandemia e das suas consequências para trabalhadores de frigoríficos, é mais que claro e evidente que o modo como tratamos (e dominamos) a natureza e os animais (lembrando que estamos incluídos nessas duas categorias) contribui decisiva e efetivamente para tamanha tragédia que certamente marcará as páginas mais tristes de nossa história. Já não há mais tempo a se perder ou razão suficiente para a esquerda em geral continuar ignorando a Ecologia (melhor ainda: a Ecologia Social, o ecofeminismo, o ecossocialismo e outros projetos ecológicos radicais). A comunidade de militantes veganos revolucionários e antiespecistas vêm se esforçando bastante não apenas para dar o protagonismo necessário que esse debate merece, mas também para construir um poder popular que respeita e leva a sério a questão animal e sua interseccção com outras dominações e a luta de classes, não como bandeiras identitárias, mas como demandas fundamentais sem as quais não será possível superar as crises ecológicas (e sanitárias) e o capitalismo.

Referências

ADAMS,
Carol J. A Política Sexual da Carne: uma
teoria feminista vegetariana
. São Paulo: Alaúde Editorial, 2018.

“Bestas de Carga: panfleto vegano socialista”. São Paulo: Colunas Tortas, 2015.

BOOKCHIN, Murray. Por uma ecologia social. Biblioteca anarquista, 2019.

“Como frigoríficos propagaram-se o coronavírus em pequenas cidades do país.” brasil.elpais.com, 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-29/como-frigorificos-propagaram-o-coronavirus-em-pequenas-cidades-do-pais.html. Acesso em 14-01-2021

“Frigoríficos continuam enfrentando surtos de Covid no Brasil e preocupam a China.” g1.globo.com, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2020/06/28/frigorificos-continuam-enfrentando-surtos-de-covid-no-brasil-e-preocupam-a-china.ghtml. Acesso em 14-01-2021

MOTA,
Ana Gabriela & SANTOS, Kauan Willian dos (Orgs.). Libertação animal, libertação humana: veganismo, política e conexões no
Brasil
. Juiz de Fora, MG: Editora Garcia, 2020.

QUAMMEN,
David. Contágio: infecções de origem
animal e a evolução das pandemias
. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.


[1] Termo clássico usado em
Aristóteles para designar a “causa primeira”, a “origem mais fundamental” de
algo.
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Fonte: Elcoyote.org