Novembro 16, 2020
Do A Inimiga Da Rainha
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Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos, viajando, não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de vida. Ter diversidade, não isso de humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até agora foi só uma maneira de homogeneizar e tirar nossa alegria de estar vivos*.

Ailton Krenak

Ailton Krenak critica vorazmente a ideia colonialista de humanidade proveniente da cultura ocidental que se dá principalmente pela imposição de uma narrativa única de ser humano ideal, que inviabiliza a existência de uns em prol da existência de outros. A clássica separação entre “homem” e natureza que vemos em nossos livros didáticos de geografia, parte justamente de uma ideia de mundo ocidental que baseia-se na criação de binarismos que nos separam da terra, colocando-nos como seres que movem-se na superfície das paisagens urbanas e naturais. A visão antropocêntrica e humanista descarta o entendimento de um mundo múltiplo repleto de singularidades, não somente entre os seres humanos mas também de tudo que seja mineral, animal e vegetal.

Outras perspectivas se fazem então importantes para que tenhamos mais versões sobre o mundo. Mesmo aquilo que nos pareça inerte, como por exemplo, elementos do reino mineral, estão em interação, têm presença e estão em movimento contínuo. Ao acessarmos outras cosmologias, damo-nos conta de uma multiplicidade de visões que compreendem a existência dentro de uma grande constelação de trajetórias simultâneas que estão sempre se entrecruzando no mesmo tempo e espaço.

Tudo está em movimento.

Krenak convida-nos a pensar com ele ao compartilhar as diversas formas de observar uma montanha a partir de uma cosmovisão indígena, que entende humanos e montanhas como parte um do outro, em relação de coexistência:

De manhã cedo, de lá do terreiro da aldeia, as pessoas olham para ela e sabem se o dia vai ser bom ou se é melhor ficar quieto. Quando ela está com uma cara do tipo “não estou para conversa hoje”, as pessoas já ficam atentas. Quando ela amanhece esplêndida, bonita, com nuvens claras sobrevoando a sua cabeça, toda enfeitada, o pessoal fala: “Pode fazer festa, dançar, pescar, pode fazer o que quiser**.

No mesmo sentido, a geógrafa Doreen Massey***, conta-nos sobre algumas paralisantes construções sociais e geográficas que insistem no entendimento de que os lugares são fixos e imóveis. Para que entendamos sobre a impossibilidade desta fixidez em um mundo onde tudo interage entre si e humanos e não-humanos são partes do todo sem hierarquias definidas, a autora, assim como Ailton Krenak, dá-nos um exemplo do reino mineral: as rochas imigrantes e seus sutis e lentos movimentos geológicos são parte de um mundo que está sempre movendo-se em diferentes ritmos mas sempre em interação entre si. Recorrer aos aspectos geológicos do planeta, é também um maneira de entender a fluidez da qual fazemos parte em diversas escalas espaciais e em diversos ritmos temporais.

Ao partirmos do entendimento de que tudo está em transformação constante, animais, plantas, humanos e mesmo os continentes, damo-nos conta de que, por exemplo, quando saímos de casa, não há como retornar e achar que ela estará no mesmo lugar que foi deixada quando dali saímos.

Tudo está se movendo, até as rochas são moventes…

Massey  acusa que a regulação de um mundo que pauta-se pela valorização da trajetória de determinadas culturas homogeneizantes, acaba por configurar um sistema único universal que recusa a grande gama de narrativas de diversas culturas e povos que habitam o planeta. Em sua visão, não há como pautar as construções sociais e culturais a partir de uma essencialidade dominante que vigora num tempo cronológico e evolutivo. Ela também faz uma dura crítica à ideia de globalização como fenômeno inevitável em que um “lugar-local” é fixado no tempo e rotulado como atrasado em relação aos países mais ricos (que na verdade enriqueceram às custas de outros e seguem com suas práticas exploratórias). Dentro de um projeto de globalização hegemônico, os lugares somente interessam sob a condição de uso, manipulação, colonização e exploração e não como o local do encontro da relação entre humanos e não-humanos.

A diferença como propulsora de uma constelação de maneiras de viver e existir, sem separação entre humanidade e natureza, faz parte de um entendimento de mundo compartilhado em todos seus espaços e tempos. Tudo o que nele habita e existe está em interação contínua sem hierarquizações: humanos, plantas, mar, peixes, montanhas, magma estão sempre mutando-se, movimentando-se em uma grande diversidade de ritmos.

A insistência numa abertura para um futuro que nos convide a deixar de insistir em narrativas que propõem direcionamentos e determinismos históricos, e que nos amarram numa ideia de sistema fechado, cronológico e linear, não pressupõe um destino onde chegar. Apenas se concebermos o futuro em aberto poderemos, seriamente, engajarmo-nos numa noção genuína de política que nos sinalize que ainda há tempo de luta, pois não estamos vencidas. A reflexão acerca do passado é uma importante referência para traçar linhas que se concretizem no presente. Quanto ao futuro, tratemos de aceitar sua abertura para concentrar as forças naquilo que hoje queremos que cresça e se multiplique.

Se nada é fixo, tudo está em movimento de transformação, e se assim como nós as rochas também são moventes, como poderemos desenvolver metodologias de luta que nos permitam sobreviver aqui e agora? Encontraremos os caminhos conforme vivenciarmos os processos em meio às ações concretas, e não apenas pela ideia de um mundo ideal que nunca chega. Aprenderemos com a dureza e mobilidade das rochas a ser e resistir, e até mesmo deixar-se erodir para sedimentar em mares ainda por vir.

* Trecho do livro “Ideias para adiar o fim do mundo” publicado em 2019 de autoria de Ailton Krenak, importante liderança indígena, ambientalista e escritor.
** Idem *.
*** Doreen Massey geógrafa, cientista social e feminista britânica. As ideias da autora trazidas para o texto são do livro “Pelo Espaço: uma nova política da espacialidade” que teve sua primeira publicação em 2008.

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Texto e ilustração: Marina Mayumi




Fonte: Ainimiga.noblogs.org