Janeiro 8, 2021
Do Passa Palavra
360 visualizações


Por Passa Palavra

Passaram-se já dois meses desde as eleições nacionais estadunidenses que deram a vitória a Biden. Desde então, Trump e seus apoiadores mais fanáticos, dentro e fora do Partido Republicano, nos gabinetes e corredores dos órgãos governamentais, na mídia trumpista e nas ruas, fizeram de tudo para contestar e tentar reverter o resultado eleitoral: difundiram mentiras e teorias da conspiração, ajuizaram ações nos tribunais, pressionaram autoridades, fizeram ameaças, negociações escusas, cogitaram usar os militares para dar um golpe e, agora, por fim, incitaram a invasão do Capitólio, sede do Congresso americano, no dia da oficialização do resultado das eleições de novembro, obrigando parlamentares a trancarem-se em seus gabinetes e serem evacuados.

* * *

Como noticiado pelo Washington Post, um dos últimos movimentos de Trump foi uma ligação para o Secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, pedindo que ele fornecesse a quantidade de votos necessária para a sua vitória no estado. Diante do escândalo, Trump declarou que as pessoas “amaram” o conteúdo da ligação. Ao mesmo tempo, em outra frente, Trump mobilizava sua base parlamentar e pressionava Mike Pence, seu vice, para que impedissem a confirmação da vitória de Biden pelo Congresso. Pence foi inclusive constrangido em público pelo presidente, que disse que ele não seria mais tão querido se atestasse a vitória do seu adversário. Provavelmente para não se comprometer e para evitar atritos ainda mais fortes com o líder republicano, Pence respondeu que não tem autoridade para bloquear a certificação dos votos pelo Congresso. Noutra frente ainda, mais grave, Trump cogitava e debatia com o seu “núcleo ideológico” a possibilidade de recorrer a uma intervenção militar em estados-chave.

Após esse evento, ocorrido em 3 de janeiro, ninguém menos que Dick Cheney, ex-Secretário de Defesa de George Bush, tomou a iniciativa de assinar uma carta aberta com todos os ex-Secretários de Defesa ainda vivos, direcionada às Forças Armadas, em que expressam grande preocupação quanto à transição presidencial e à pressão sobre os militares em torno da questão. Segundo a carta,

os funcionários civis e militares que orientarem ou executarem tais medidas [mobilização dos militares para uma intervenção no processo eleitoral] podem ser responsabilizados, podendo inclusive enfrentar penalidades criminais, pelas graves consequências de suas ações sobre nossa república.

Trump, então, no dia seguinte, convocou sua militância para um “wild protest”, “protesto selvagem”, ocorrido no último dia 6, mais uma vez fazendo alegações falsas sobre o que diz ter sido uma eleição fraudulenta que deu a vitória a Biden.

* * *

Em meio a esse cenário, os republicanos tiveram outra grande derrota. Simultaneamente ao protesto de 6 de janeiro, chegou ao fim o segundo turno das eleições para o Senado na Geórgia, no curso do qual as candidaturas republicanas foram deliberadamente sabotadas pelo presidente. Dois candidatos democratas foram os vencedores, criando condições para que Biden tenha a maioria no Congresso pela primeira vez em uma década. Na reta final, Trump resolveu participar da campanha no estado, recomendando o voto nos candidatos republicanos, mas o seu comportamento ao longo da campanha, e a pressão exercida sobre Raffensperger, devem aliená-lo ainda mais dos políticos e das autoridades republicanos da Geórgia.

Fato é que Trump não conta com a maioria dos gestores do Estado Restrito, sejam os políticos ou os militares, e nem com os gestores do grande capital privado, como expresso, por exemplo, em editorial recente de The Economist. O republicano conta, porém, com outra força, extraoficial, uma base similar, porém mais articulada do que a de Bolsonaro no Brasil: uma extrema-direita que já dispõe de lenha o suficiente para pôr fogo nos cinquenta estados, e que realizou de forma coordenada grandes demonstrações de força de costa a costa nos EUA, cercando parlamentos estaduais e desfilando com armas de grosso calibre.

* * *

Além do setor militar e dos democratas e republicanos moderados, também esperavam uma transição tranquila os quase 200 signatários de uma carta aberta da Partnership for New York City. Quem são esses signatários? Kathryn Wylde, presidente e CEO da associação; Kristin Myers, do Yahoo Finance; além de executivos da Edelman, Pfizer e BlackRock. Em entrevista para a Yahoo News, Kathryn Wylde disse o seguinte:

Chegamos a um ponto em que a economia e os negócios estão sendo realmente impactados pelo que está acontecendo no mundo político. O desafio à nossa estabilidade política, ao nosso sistema político, ao nosso processo eleitoral pelos membros do Congresso é uma ameaça real para os negócios. Por isso, há uma grande preocupação, e as pessoas só queriam se impor antes da votação crítica que ocorrerá amanhã para que os membros do Congresso entendam que este não é apenas um jogo político que pode permanecer dentro dos limites de Washington, DC. Isto vai afetar todo o nosso país.

Depois da invasão do Capitólio e de outros eventos semelhantes em outras partes do país, no entanto, os capitalistas parecem estar se convencendo de que remover Trump do Salão Oval é urgente para proteger seus interesses: a National Association of Manufacturers, por exemplo, que representa 14.000 empresas americanas, pediu que o vice-presidente Mike Pence “considere seriamente” invocar a 25ª emenda para tirar Trump do cargo, sugestão feita também pela imprensa. Outra demonstração de que os capitalistas estão seriamente preocupados com as repercussões econômicas do caos político que se está instalando nos Estados Unidos.

Esta crise política sem precedentes resulta, na verdade, do declínio econômico dos Estados Unidos. É uma manifestação precipitada desse declínio, e tem parentesco com a tentativa de lutar contra o declínio econômico através de armas políticas, que tem caracterizado as relações dos Estados Unidos com a China. Essa supremacia atribuída ao político sobre o econômico foi inaugurada pelos fascistas, e só depois, numa época mais recente, é que os esquerdistas a copiaram.

* * *

Trump já vinha perdendo apoio político dos gestores e do grande capital, e a partir dos acontecimentos do dia 6, poderá ser afastado antes da posse de Joe Biden e Kamala Harris, pela mobilização da emenda mencionada acima, que permite que um presidente seja removido se for considerado incapaz de seguir no cargo pelo vice-presidente e pela maioria de seu gabinete; uma nova tentativa de impeachment também tem sido considerada. No entanto, o fôlego de Trump aparece nas ruas, com essa massa exótica que pretende combater o “deep state” e os comunistas chineses. Esse é o principal dilema. Trump sai desta crise política com todos os ingredientes de um partido fascista: isola-se dos moderados, consolida o apoio dos dirigentes republicanos mais extremistas e consolida o seu apoio de rua. A partir de hoje os Estados Unidos mudaram substancialmente.

A contenção dessa massa fascista nas ruas caberá ao futuro governo? E o conjunto de movimentos que em 2020 tomou as ruas em torno do Black Lives Matter? Um possível clima de contestação a medidas de repressão e vigilância sob o novo governo poderá criar uma convergência dessa extrema-direita com os “libertarians” e também com uma parcela da esquerda radical anti-democratas, clima propício para um avanço fascista nos EUA. A noção de que o grande inimigo é o Biden e não o Trump está muito difundida na extrema-esquerda. Ora, esta noção reproduz as teses do social-fascismo, com tudo o que elas tiveram de catastrófico, quando pretendiam que o principal fascismo vinha dos socialistas e social-democratas, e que eram eles, e não os fascistas propriamente ditos, os inimigos a combater. Entretanto, os fascistas iam tomando o poder. O que é realmente apavorante é que as pessoas que agora reproduzem essas teses não andaram a ler o Zinoviev nem a Ruth Fischer. Reproduzem-nas de novo, o que mostra que as mesmas condições negativas voltaram a ser criadas na extrema-esquerda.

Isto não preocupa só o Passa Palavra, mas deve preocupar também os camaradas de todo o mundo e, particularmente, toda a classe trabalhadora. O que 2021 pode nos trazer em termos políticos? Será possível isolar os fascistas e superarmos o cenário de derrotas dos últimos anos?




Fonte: Passapalavra.info