Agosto 5, 2021
Do Passa Palavra
228 visualizações


Por Enzo Silva

Caro Jorge Luiz,

Desde a queima da estátua do Borba Gato e o início do debate envolvendo a ação, neste site e em outros espaços, venho refletindo sobre o assunto. O seu artigo, Democracia até tudo queimar, publicado há alguns dias, me estimulou a colocar tais reflexões no papel e tecer algumas breves considerações sobre a atual conjuntura brasileira.

1

A esquerda brasileira chama o atual governo de fascista, e com razão. Sabe que o presidente e sua família mantêm relações com o crime organizado e agem de fato como uma organização criminosa, e o chama de miliciano. Sabe que a meta de Bolsonaro é perpetuar-se no poder e instaurar um regime totalitário.

Vê também que o presidente e seus aliados estimulam, sempre que surge uma oportunidade, motins de policiais militares, e que o presidente participa de atos reivindicando uma “intervenção militar com Bolsonaro no poder”; vê que o governo busca armar, não a população, mas seus aliados, por toda parte.

Sabe que ele tem perseguido servidores públicos que lhe fazem críticas ou que se limitaram a cumprir, inconvenientemente para o governo, suas atribuições. Sabe também que as polícias têm aplicado a Lei de Segurança Nacional contra opositores e monitorado “detratores”; que pessoas têm sido presas ou processadas por dizerem o que pensam sobre o governo.

Sabe ainda que, nos regimes ditatoriais, qualquer contestação é duramente reprimida e que o objetivo desses regimes é desestimular, desestruturar, desarticular e reduzir a oposição à impotência, quando não promover a eliminação física de centenas, milhares, às vezes milhões de opositores. E também sabe que nesses regimes o governo busca estar bem informado sobre tudo o que possa colocar em risco o funcionamento do sistema político e econômico e a autoridade de quem está no comando, bem como a ideologia, as mentiras que sustentam o regime.

Por fim, a esquerda sabe que vivemos num país onde o governo atua em diversas frentes para minar a democracia e transformá-la, de dentro para fora, num regime fascista, e sabe que para isso o governo precisa alardear que o Brasil está um caos, dominado pela corrupção, cheio de “comunistas” infiltrados em toda parte, desestabilizando o país, a fé em Deus e a família e sabotando a economia, ao mesmo tempo em que promove, ele mesmo, o caos e uma sucessão interminável de crises, e desafia a autoridade e credibilidade de instituições que podem pôr-lhe um freio ou tenta cooptá-las por dentro, recorrendo para isso aos mecanismos da corrupção. A pandemia veio como uma oportunidade única nesse sentido, e tem sido explorada desde o início.

A esquerda sabe de tudo isso, mas será que age, se expressa e se manifesta de maneira compatível com esse novo ambiente?

2

O momento que vivemos requer da esquerda a capacidade de promover relações de solidariedade e a união política dos trabalhadores, bem como a sua autopreservação, tendo em vista a pandemia e o processo de fascistização em curso, condições indispensáveis para que eles se afirmem socialmente como classe em luta contra a exploração, o totalitarismo empresarial e, na atual conjuntura, a substituição da democracia por um totalitarismo de Estado. E, caso sejamos derrotados neste último ponto, para uma resistência eficaz contra tal regime.

Nesse cenário, os militantes de esquerda, antes que seja tarde, terão de aprender, entre outras coisas, a ser discretos, a veicular suas ideias e planejar e realizar suas ações de maneira segura, a estabelecer relações de confiança, a preservar suas identidades, a realizar um lento e cuidadoso trabalho de organização, a evitar a prisão (de si e de outros), a manter em segredo informações que possam colocar a todos em risco e, se forem presos, a resistir à tortura e a não fornecer informações à polícia. Já tivemos dois regimes assim no Brasil e, por erros bastante conhecidos, a esquerda teve muitos de seus militantes, dos mais aos menos ativos, dos mais aos menos preparados, eliminados.

Porém, como nos mostra o artigo de Emerson Martins, Uma estupidez monumental, que destoa do tratamento que a esquerda tem dado à queima da estátua do Borba Gato em São Paulo, a ação foi marcada pelo amadorismo e exposta nas redes sociais pelos próprios participantes, levando à prisão de um motorista que não sabia estar participando de algo que pudesse incriminá-lo — posto depois em liberdade provisória, deverá responder a um processo penal e, de agora em diante, será monitorado cotidianamente — e de mais três pessoas, depois de assumirem a participação no ato e entregarem-se voluntariamente à polícia, uma delas tendo sua prisão temporária prorrogada.

Temos aí algo para refletir: tantas gerações de militantes foram educadas para evitar a prisão, pois disso dependia a continuidade da luta, a sobrevivência e a integridade física e mental dos militantes e de pessoas próximas… Evitar a prisão era também evitar o exílio, a perda do emprego, o fim da carreira acadêmica, o fim do casamento, a perda de contato com pais, irmãos, filhos, a incapacidade de defender-se de acusações falsas, de defender a própria honra, de defender a própria família, muitas vezes também punida… Era evitar que outros camaradas passassem pelas mesmas coisas…

Se o que o momento requer da esquerda é a capacidade de aprender a lutar garantindo a sua autopreservação, a queima da estátua do Borba Gato foi, não um passo à frente, como você escreve no seu artigo, caro Jorge, mas muitos, muitos passos atrás. O único passo em frente talvez seja em direção a mais uma derrota da esquerda, por um regime mais repressivo que o atual, o qual só não virá e, se vier, só será efetivamente combatido — e eventualmente derrotado — se tal incapacidade for superada.

E o cenário se agrava ainda mais porque aquele totalitarismo empresarial, mencionado acima, promove globalmente, tanto nos países democráticos quanto nos ditatoriais, sob governos de direita ou de esquerda, um nível nunca antes visto de coleta, armazenamento, cruzamento e análise de dados a nosso respeito, bem como sistemas de vigilância cada vez mais sofisticados e difíceis de burlar, colocando-nos a todos numa situação de gravíssima vulnerabilidade e, pior, estimulando mesmo que nos coloquemos voluntariamente numa tal situação.

Há de se perguntar, pois, se ações como a da queima da estátua do Borba Gato, da forma como foi feita, com as motivações dos seus participantes e com tais repercussões, colaboram ou não para as lutas dos trabalhadores.

3

Além disso, vivemos sob um governo que está em guerra aberta contra a cultura, desarticulando e privando de recursos tanto a produção científica e o ensino quanto os artistas e suas instituições, e deixando que vire pó a memória cultural de um país continental, de diversidade cultural ímpar, conhecido em todo o mundo por uma riqueza cultural e artística imensurável.

Como bem colocado no artigo de Emerson Martins, a queima da estátua do Borba Gato revela um desconhecimento completo acerca daquele objeto enquanto obra de arte e do artista que o concebeu, mais um sintoma da aversão da esquerda ao conhecimento e ao debate estético, entendidos como algo elitista, descolado da realidade dos trabalhadores: mas, se é assim, que lhes resta? A indústria cultural de massas e sua estética da barbárie, agora exacerbada pelas redes sociais e muito bem manejada pelo bolsonarismo das lives improvisadas e dos memes.

Assim, pergunto: a queima da estátua do Borba Gato colabora ou não para a cultura popular e para as lutas dos trabalhadores, num momento em que o governo trabalha arduamente para sabotar a instrução geral da população, seu contato com o conhecimento científico, seu acesso à memória artística e cultural do país, enquanto, por outro lado, difunde-se uma cultura e uma estética da barbárie, suporte e veículo indispensável para o regime que se pretende instaurar, regime este que, segundo João Bernardo, foi eminentemente estético e transformava a revolta num espetáculo encenado nas ruas destinado ao reforço da ordem?

4

Voltamos à questão do perigo, para a esquerda, de ceder ao fetiche da estética da revolta e romantizá-lo. Trata-se de um dos pontos de convergência da extrema-esquerda com a extrema-direita, conformador do fascismo. Faz-se novamente necessário, portanto, insistir na distinção que se deve fazer entre revolta e revolução e na necessidade de articular manifestações de rua com lutas nos locais de trabalho, sejam eles espaços físicos, pressupondo a cooperação de trabalhadores ocupando as mesmas instalações, ou virtuais, pressupondo uma cooperação semelhante, só que fragmentada em plataformas digitais.

Faz-se também necessário insistir na questão dos cuidados digitais e da preocupação com a segurança na militância: ações impensadas, meras provocações, feitas não apenas de maneira insegura mas também consoante o fetiche da superexposição nas redes sociais, não apenas possibilitando mas se empenhando na identificação dos envolvidos e deixando inúmeras provas e indícios, servem apenas para difundir uma cultura de militância completamente avessa aos cuidados, digitais ou não. É disso que precisamos no momento?

Pior, reduzindo a luta anticapitalista a um espetáculo e a uma encenação, a um ato simbólico, a um “gesto heroico” representativo da revolta, contribuem para desviar o foco da extração (bem mais discreta) de mais-valia relativa, que acomete trabalhadores inseridos num contexto de renovação do quadro tecnológico, aumento da produtividade e ganhos salariais, e da extração (não tão discreta) de mais-valia absoluta, que atinge trabalhadores inseridos num contexto de perenidade do quadro tecnológico e redução salarial ou aumento da jornada de trabalho.

Os trabalhadores continuam sujeitos a uma exploração mais ou menos opressiva, mas, se tiverem propensões mais esquerdistas, podem pelo menos se contentar com o fato de haver alguém “fazendo alguma coisa”, mantendo acesa a chama da revolta, pensando residir aí a fagulha da revolução ou, pelo menos, depositando aí a esperança de uma nova esquerda. Pelas mesmas razões algumas pessoas acreditam em Deus e depositam as suas esperanças na segunda vinda de Cristo ou, conforme o gosto de cada um, na segunda vinda de Lula.

5

O pior de tudo é que a esquerda esteja interpretando tais acontecimentos como uma retomada da radicalidade política. Acontecimentos que, novamente, do ponto de vista da autopreservação da militância, representam um grande fracasso, e forneceram, ainda, outra oportunidade para o bolsonarismo alardear que o país vem sendo desestabilizado pelos “comunistas” e precisa de um regime que imponha a ordem, enquanto Bolsonaro desarticula por dentro a ordem existente.

Além do mais, fica difícil defender a cultura das investidas do governo, que a destrói de propósito, quando são os próprios esquerdistas quem a destrói sem saber, por ignorância. Trata-se, a meu ver, caro Jorge, de um erro, e um erro muito grave.

O radicalismo — radicalismo de verdade, que atinge a raiz dos problemas e não cede a qualquer tendência conciliadora, adepta do compromisso — não será renovado se não formos capazes de olhar ao redor e perceber que a situação exige um comportamento muito diferente, e passar da constatação à ação.

Em destaque, uma obra de Georg Grosz (esq.) (1893-1959); a outra ilustração é de Otto Dix (dir.) (1891-1969)




Fonte: Passapalavra.info