Abril 13, 2021
Do Jornal Mapa
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Era objectivo do autor desta coluna cagar de alto em André Claro Ventura, mas a verdade é que a coisa se torna tão presente e tão patética que fica difícil. Enquanto lhe continuam a estender todas as passadeiras (e o último exemplo foi Miguel Sousa Tavares – a meio de Novembro na TVI – que, habituado a dirigir entrevistas truculentas desde mil nove e oitenta e coisa, se deixou enredar por um tipo que de forma hábil nega tudo aquilo de que o acusam ou que lhe atirem à cara – porque na verdade tem todas as caras que quiser), o homem lá vai fazendo a sua campanha. Mas mal o partidinho dele se abeirou de uma porçãozinha de poder – dois deputados na Assembleia Regional dos Açores, num quadro de maioria relativa para o PS e um parlamento rarefeito saído das eleições de 25 de Outubro – começaram os desentendimentos. Mês e meio antes, o ideólogo do Caga jurava ao Público (5.Set.) que «neste momento qualquer coligação seria muito negativa para o C**ga».

Com os resultados ainda quentinhos começa a barafunda – o vice-presidente do Caga/Açores, Orlando Lima, demite-se do partido acusando os outros de «lamentável postura centralista», mas as negociações mais ou menos secretas e o ámen de barões do PPD como Morais Sarmento levam a que se chegue a uma espécie de acordo que federa a direita toda e que tem ali como grande bandeira a redução do número de «subsidiodependentes» – parece que nos Açores vivem à grande com uma média de 76 euros de Rendimento Social de Inserção por mês. Pode ser que «neste momento» a coisa já seja muito positiva para o Caga, mas o certo é que o impoluto Rui Rio levou menos de um ano a deixar cair as linhas vermelhas e a ser elogiado pelo deputado único da extrema-direita em São Bento, que até já se via a liderar um processo de revisão constitucional – ficou a marinar por causa dos sucessivos estados de emergência.

O certo é que o homem consegue cometer a proeza de dar de manhã uma entrevista à Lusa e à tarde desmentir a sua resposta sobre o casamento gay (porque se arrepende? Porque lhe dão ordens? Porque tem medo da sua base?). E assim consegue atenção em duplicado – mas começa a ser evidente, mesmo para quem não o era, que o tipo não passa de um troca-tintas que dirá tudo e o seu contrário. Nisto já ninguém se lembra da patuscada que foi a II Convenção do Caga, realizada 19 e 20 de Setembro – com a promessa da maior manifestação de rua alguma vez vista no Alto Alentejo. Umas dezenas de delegados lá andaram quinze minutos pela Praça do Giraldo, com as colunas da Harmonia Eborense a colocarem a «Grândola» em loop e qualquer trabalhador rural alentejano a lembrar-se do que são verdadeiras marchas. Cagança e garganeira não lhes falta, aos do Caga. Já a imagem que fica da reunião magna daquela gente é de profunda impreparação política, golpes de teatro e maluquinhos da tola, pelo menos a aquilatar pelas moções apresentadas – a que ficou mais famosa defendia a retirada dos ovários às mulheres que interrompam a gravidez – e que acabaram por ser retiradas do site do partido. Bem esteve Jerónimo de Sousa no final de Outubro que, perante uma risada de tal personagem no hemiciclo de São Bento, lhe atirou: «Está a achar graça? Eu não lhe acho graça nenhuma.» É o chamado «embrulha e leva para casa».

Utilizemos o espaço que sobra para registar que os identitários de Loures voltaram, numa noite louca de desbunda, a fazer das suas. A coisa deve passar-se assim: o teórico e o primo saem de Sacavém, vão às escolas secundárias de que se lembram (Sacavém, Portela, Olivais) e escrevem sempre as mesmas frases: «Viva a Europa branca», «Fora com os pretos», sempre com a mesma grafia (deve ser o primo, enquanto o teórico dita). Fizeram-no a 30 de Outubro, mas já tinham feito o mesmo a 11 de Junho. Desta vez foram mais audazes e desceram até à Católica e ao ISCTE. Cada conjunto de frases é ornado com o símbolo dos identitários (um V invertido numa circunferência, assim como se fosse um queijinho do Trivial Pursuit… Dizem que é a 11.ª letra do alfabeto grego, lambda). Entretanto, passado o verão, nunca mais se ouviu nada por parte da Resistência Nacional nem por parte da Nova Ordem de Avis, tudo levando a crer que terá também sido uma noite de desbunda de dois maluquinhos entediados.

Não temos grandes esperanças, mas acontecimentos como a derrota eleitoral daquele outro tipo alaranjado lá das Américas ou a abada que os fulanos do Vox levaram ao apresentar a sua moção de censura em Madrid refreiem as ambições desta gente.


Texto de Vladimir


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro|Fevereiro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt