Setembro 16, 2021
Do Passa Palavra
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por Passa Palavra

ESG: o capitalismo stakeholder

No dia 19 de Agosto de 2019, a Business Roundtable, espécie de “clube” de importantes CEOs dos EUA (incluídos os chefes executivos da Amazon, da Apple e da General Motors, entre muitos mais), lançou um comunicado que chamou a atenção: “A Business Roundtable está modernizando seus princípios a respeito do papel das corporações”, anunciava. “Enquanto cada uma de nossas companhias individuais serve ao próprio propósito corporativo, nós compartilhamos um compromisso fundamental com nosso stakeholders”. É importante aqui diferenciar estes dois conceitos: os shareholder são os acionistas (aquele que tem, holder, uma parte, share), já os stakeholders são todos os atores externos à corporação que são afetados por sua atividade (stake, risco, algo que está em jogo, stakeholder). “Cada um de nossos stakeholders é essencial. Nos comprometemos a trazer valor a cada um deles, para o sucesso futuro de nossas companhias, de nossas comunidades e de nosso país”.

A modernização da Business Roundable pode ser comparada com as recentes posições de autoridades do FMI a favor do gasto público e pela luta contra a desigualdade. Mas ela é talvez mais profunda, pois expõe uma mudança no entendimento mesmo da atividade empresarial. Desde os anos 70 a visão de Milton Friedman era hegemônica e entendia a corporação essencialmente como um mecanismo de maximização de lucros para os acionistas, shareholders, cujos interesses deveriam ser tomados como o único motor e guia da atividade empresarial. “O único propósito de uma empresa é gerar lucros para os acionistas”, disse o economista em uma entrevista. Os novos ventos chegaram, no entanto, e a razão empresarial, para estes CEOs reunidos, deve reger-se também para valorizar os recursos humanos, as comunidades, a economia ética, etc., como fatores que se somam ao interesse direto dos acionistas.

Em uma análise rápida, este comunicado parece avançar sobre os direitos vinculados à propriedade privada, pois recomenda dar a funcionários sem o direito pleno de propriedade um controle soberano sobre vastas cadeias de produção e propaganda ao redor do planeta. Serão estes funcionários os temidos globalistas, que atacam a família com doutrinas LGBTI+ e querem implantar o fim da propriedade privada em um mundo dominado pela nova correção política?

Talvez. Mas o que nos deve chamar a atenção neste cenário não é bem o domínio das corporações sobre os terrenos exteriores, os stakeholders em si mesmos, senão as mudanças que estas corporações estão propondo para seu próprio funcionamento interno. Em 2006 a ONU emite um informe chamado “Princípios para Investimentos Responsáveis”, onde o critério ESG foi utilizado pela primeira vez como requisito para ser incorporado nas avaliações financeiras das companhias. Significa “Environmental, Social, Governance”: ambiental, social, governança. Esta sigla tomou uma enorme importância no âmbito corporativo, e hoje funciona como um importante indicador. Encontramos n’“O Guia do Diretor para o Ativismo Acionista”, da consultora PwC (Julho de 2021), que nos últimos 10 anos 90% das falências nas empresas que compõem o índice S&P 500 envolviam companhias com baixos indicadores ESG. Estes novos critérios que devem balizar as atividades corporativas apontam diretamente a um novo público de massas cada vez mais interessado e atento ao mundo empresarial. Trata-se, do ponto de vista dos gestores de cada empresa individual, de adiantar-se aos problemas e assim evitar prejuízos legais e de marketing que possam ocorrer a partir de escândalos (ambientais, sociais, políticos, etc.). Por outro lado, é possível capitalizar esta “precaução” como uma postura ativa: ao invés de apenas cumprir regras, as corporações passam a ser parte da construção destas mesmas regras. Para isso, o engajamento direto do público e dos potenciais acionistas na vida interna das companhias é essencial.

Ativismo acionista e o MST S. A.

GameStop e o ativismo acionista

Vejamos o mesmo fenômeno, mas de outro ângulo. Em Janeiro deste ano de 2021 ocorreu um episódio um tanto inédito na bolsa de valores, quando um significativo número de micro-investidores organizados e mobilizados por canais de internet realizaram uma ação coordenada contra investidores profissionais. O principal “campo de batalha” foram os papéis de uma empresa de varejo de videogames, a GameStop, que deu nome ao episódio. A primeira geração que cresceu e foi educada de forma muito íntima pelos jogos digitais se encontrava com liquidez no contexto da pandemia (entre auxílios estatais e o baixo consumo causado pela quarentena). Houve uma conjugação entre aspectos monetários, a recente oferta de aplicativos que viabilizam o micro-investimento de parte de indivíduos (cortando intermediários), e uma campanha que mobilizava duas questões: a primeira era a nostalgia dos bons tempos da infância e a identidade gamer, a segunda foi o “combate contra as elites” levado adiante por uma multidão de anônimos plebeus dispostos inclusive a perder dinheiro apenas para “mandar uma mensagem” ao mundo, ao contra-atacar a aposta agressiva de investidores profissionais desalmados de Wall Street. O método utilizado por estes aventureiros nostálgicos parece ter sido mais efetivo em golpear Wall Street do que os acampamentos realizados 10 anos atrás.

Estamos, é claro, no extremo mais exagerado do fenômeno, num episódio que tocou tão somente os valores nominais das ações em um grande jogo de soma zero. Mas se bem foi necessário mobilizar uma narrativa justiceira, recheada de memes, para angariar um volume efetivo de investidores, a ação foi de muito curto prazo e não incidiu diretamente sobre os rumos administrativos da companhia. Uma ação de mais longo prazo levada adiante por grupos de investidores recebe hoje o nome de “ativismo acionista”. O “Guia” da consultora PwC antes referido descreve assim os propósitos dos ativistas acionistas:

“Alguns shareholders se voltam ao ativismo porque eles sentem que é uma forma efetiva de aumentar o valor das companhias de que têm as ações. Outros o fazem para intervir em práticas de governança que eles acreditam ser negativas para o valor [da companhia] a longo prazo. Ou se preocupam com os produtos e as práticas de negócio da companhia. O ativismo pode tomar várias formas. Mas o seu objetivo é o mesmo: motivar os gestores e as diretorias de empresas a realizar mudanças nas formas como suas companhias são dirigidas.”

A postura mais agressiva de ativismo acionista, segundo o Guia, seria o conflito aberto nos altos níveis, onde alguns ou todos os integrantes da diretoria são substituidos por diretores indicados pelos acionistas ativistas. Já a política menos agressiva seria o engajamento dos acionistas, entrando aqui todo tipo de pressão que um grupo de acionistas pode realizar sobre uma diretoria para conseguir reuniões a respeito das suas preocupações com a empresa. Tudo depende do “poder de fogo” do grupo ativista. O caso da GameStop não colocava em questão os rumos da empresa, esteve mais próximo de uma coordenação (ilegal para alguns) de compradores para afetar os preços de certa ação. No entanto, o ponto de contato aqui é a mobilização coordenada e politizada no contexto do mundo corporativo acionista.

Se por um lado o ativismo acionista é uma preocupação para as corporações, expostas a campanhas públicas que podem afetar o valor de suas ações, as suas operações, a sua posição no mercado, etc., ele é ao mesmo tempo uma forma de dinamizar a adaptação do mundo empresarial às pautas sociais. Até recentemente as bolsas mundiais representavam um universo distante das massas, mas com a digitalização financeira as coisas estão mudando. É interessante ver como o próprio aplicativo que ficou famoso (e depois foi execrado) por gamificar os pequenos investimentos e abrir este mundo à milhões de individuos jovens, se chama Robinhood, numa alusão que sugere uma espécie de redistribuição justa por meio de atos clandestinos. Investir nunca foi algo tão político.

Ativismo acionista e o MST S. A.

Engajado com o MST S.A.

Contar com ativistas acionistas é hoje um fator que pode trazer muitos benefícios às empresas, ainda que isso dependa muito do perfil e das próprias tensões internas de cada organização. Por um lado, estes pequenos acionistas “incômodos” podem oferecer perspectivas e ideias “incômodas” que serão posteriormente utilizadas para gerar mais valor à empresa, como aproveitamento do componente intelectual da força de trabalho de uma multidão dispersa, o chamado crowdsourcing. Por outro, o posicionamento de acionistas ativistas próprios com peso nas redes sociais cria um ambiente de legitimidade e constrói também uma barreira de proteção contra campanhas externas. Em jargão popular, servem como haters “da casa”.

Então estamos vendo um crescente engajamento de mão dupla, onde as corporações deixam de ocupar uma posição passiva frente às investidas das massas virtuais, e passam elas mesmas a instigar as massas a participar na vida corporativa. Isso só é possível por meio da abertura da operação nas bolsas a indivíduos, “pessoas físicas”, investidores que não serão orientados por intermediários de perfil técnico, sóbrio e maximizador. Eis a importância da “modernização” da Business Roundtable. Se até recentemente as corporações convocavam à participação das massas por meio de suas marcas e ações sociais, encarnadas no ato do consumo, o consumo consciente, o novo paradigma está baseado na participação acionária.

Um sinal poderoso destes novos tempos é a abertura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ao mercado financeiro. Já em 2020 a organização havia captado um milhão de reais, em uma proposta feita apenas a “investidores qualificados” que contassem com mais de um milhão investidos em suas carteiras. O investimento mínimo era de cem mil reais. Para participar nesta nova onda do engajamento corporativo, o MST recentemente anunciou uma nova rodada de captação de recursos, disponibilizando a opção de investimento mínimo de cem reais, ao alcance de universitários mal-remunerados. Diz assim um comunicado da organização:

“Estamos construindo um movimento de financiamento direto entre as pessoas que tem poupança e as cooperativas de famílias assentados pela reforma agrária. Queremos criar uma oportunidade para que as pessoas que tenham alguma poupança de seu trabalho, possam aplicar e ajudar a ampliar a produção de alimentos saudáveis, através da agroecologia, etc. As cooperativas fazem os projetos de investimento produtivo necessários para ampliar a produção de alimentos, e as pessoas emprestam. Esse movimento chamamos de FINAPOP. (financiamento popular de produçao de alimentos saudáveis) […] Cada pessoas física ou jurídica pode aplicar em cotas de no mínimo 100 reais… Assim você pode emprestar apenas 100 reais, ou por exemplo 100 mil reais, que seriam mil cotas. Todo esse movimento é regulado em lei, para que todos tenham as garantias necessárias, e é fiscalizado pela CVM [Comissão de Valores Mobiliários].”

Vale a pena contar com os CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) do MST em minha carteira de investimentos? Segundo os especialistas escutados pelo portal de notícias UOL, a resposta é sim. Os antigos detratores do mercado financeiro, que o acusava de corroer a “economia real” por meio da especulação, deverão calar-se para não gerar obstáculos políticos para a nova etapa do antigo movimento dos sem-terra. Os mais novos simpatizantes, já acostumados com as ferramentas digitais, não se sentirão tão fora de lugar ao contribuir com a produção de produtos orgânicos através de seus celulares, com oportunidades para que possam inclusive contribuir para sua poupança.

Algumas décadas atrás o debate na esquerda era sobre a neutralidade do Estado, e se era possível realizar batalhas políticas dentro de sua arena que fossem vantajosas para a classe trabalhadora. Será que este debate está silenciosamente sendo transportado para o âmbito do mercado financeiro? Ainda que a passos tímidos, vemos como a esquerda contribui para uma nova expansão do Estado Amplo sobre o Estado Restrito [1], o universo empresarial sobre as instituições estatais, solidificando um regime democrático que tem as empresas como âmbito de atuação dos indivíduos. À diferença do cenário dos anos 90, de plena vigência do Consenso de Washington e da globalização promovida pela aliança atlântica, vivemos um momento de aguda polarização política nos mais diversos países do mundo. A nova forma de engajamento corporativo parece responder a isto: se naquele momento se tratava de “fazer cumprir” regras e políticas internacionalmente válidas, em certa homogeneidade corporativa de um bem comum e global, a atual proposta de ativismo acionista propicia uma arena ideal para integrar o faccionalismo e a polarização política, onde a identificação com cada corporação não responde a uma imagem genérica e universal, mas pelo contrário, mobiliza pautas específicas, identitárias, contenciosas. A pergunta que fica encaixa bem no mundo dos negócios: a que preço?

Notas

[1] Ver Democracia Totalitária. Teoria e Prática da Empresa Soberana, de João Bernardo, editora Cortez, 2004.

As imagens que ilustram este artigo são de filmes baseados na novela de Louis Pergaud, A Guerra dos Botões.




Fonte: Passapalavra.info