Novembro 15, 2020
Do A Companha
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Há uns poucos dias, eu estava conversando com um amigo sobre email. Nós dois usamos email para nos comunicarmos tanto no trabalho quanto com nossas amizades todos os dias. No meu caso, os caras do trabalho preferem que eu mande tudo pelo zap (se fosse possível, eles me pediriam até os relatórios via áudio!). É um pesadelo em termos de organização: tanto as buscas quanto o armazenamento ficam prejudicados naquela mistureba de áudios, mensagens confusas, e cartões de natal e páscoa. Sem falar nas questões de criptografia, valores políticos do provedor, coleta de metadados, propaganda, privacidade, relações com o Estado, etc.

Essa conversa que tivemos foi motivada pelo bloqueio do IP do disroot.org que a Microsoft (outlook, hotmail, live, etc) tinha implementado. A galera do disroot pediu mais informações e a MS disse que não podia dizer a razão. Nesse momento, finalmente descobri porque os emails que eu enviava pelo disroot eram recusado pelo hotmail. E além disso, também havia tido problemas com arquivos que eu compartilhava através da nuvem do disroot. O cara na outra ponta recebia um aviso ao tentar baixar o arquivo: “o site a seguir contém apps prejudiciais”. E ele me disse com ares de refém: “O windows defender não me deixa abrir!”.

Pra vocês verem que o email tá vivinho da silva e sendo disputado! Às vezes, me sinto um velho chato falando dos usos e situações propícias ao email (obviamente ele não serve pra qualquer coisa). Mas não é coisa de velho, não. Inclusive esse meu amigo me surpreendeu ao dizer: “contratei um provedor para garantir que minha comunicação tenha as características que eu desejo”. Já pensou? Em pleno século XXI tem gente que paga pra ter uma conta de email? Pois é, se temos a mínima noção dos gastos envolvidos para o funcionamento da internet, então é de se estranhar que exista alguma empresa fornecendo serviço gratuito. Essa é um discussão difícil, raramente pautada; seja porque nós estamos aqui nessa américa latina com os pilas contados no bolso, seja porque a gente se acostumou, foi educado/formatado, com uma internet grátis. Mas eu também não vou puxar a conversa agora (ela parece mais complexa do que “você é a mercadoria”).

Voltando ao tema da postagem, o caráter federado do protocolo de comunicação do email, que permite que diferentes provedores consigam conversar entre si (como as empresas de telefonia, mas não como o zap, que só fala com zap, ou o signal, que só fala com o signal), está sendo minado com esse tipo de bloqueio. As pessoas que prestam atenção na hora de escolher um provedor de email hoje têm buscado alternativas fora das grandeteqs, como protonmail, tutanota, riseup, por exemplo. Porém, se as grandonas bloquearem as pequenas (mesmo que devagarzinho, sutilmente, sem dizer por quê), acabou-se a federação e segue-se o processo há décadas iniciado de monopólio dos serviços, de jardins murados, de fazendas de metadados.

Nas semanas seguintes pretendo falar mais sobre email: vantagens da formatação texto simples sobre HTML e o Deltachat.




Fonte: Mariscotron.libertar.org