Março 15, 2021
Do A Inimiga Da Rainha
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Para Arjun Appadurai, “Histórias e ideologias culturalmente construídas acerca de fluxos de mercadorias são lugar comum em sociedades”. Ao ler essa assertiva inicial de um dos parágrafos das páginas finais do texto de Appadurai, “A vida social das coisas”, de 2008, relembrei-me de duas histórias recentes interessantes envolvendo coisas em minha vida: um vinil de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti (1983) adquirido em um brechó no piso superior de uma construção que abrigava uma lanchonete no térreo, na República, em São Paulo, capital, e um quadro com uma fotografia emoldurada de Tati, modelo fotográfica que tentei paquerar com investidas tímidas e desastradas, anos atrás, amiga de uma querida amiga estilista que, bastante tempo depois, revelou-me que ela dizia não gostar de mim, “não ir muito com a minha cara”.
Eu caminhava pelo centro da cidade, havia já atravessado alguns bairros, desde o Jd. Aclimação, pela Avenida Vergueiro, São Joaquim, Liberdade, o viaduto Santa Efigênia, até chegar quase líquido, de tanto suar, aos pés da escadaria do Teatro Municipal, um dos acessos ao bairro da República. Ali, quase a ponto de chamar um resgate, recobrei o fôlego e segui observando vitrines de lojas, artistas se apresentando no calçadão, transeuntes às centenas, ou milhares, até avistar uma lanchonete com estética aprazível, assentos altos, junto ao balcão, música animada, chopps, lanches e refeições.
Por lá bebi um ou dois chopps até que senti vontade de expelir o líquido dourado. Ao subir as escadas para ir ao banheiro, por engano, entrei por uma porta em uma sala onde duas mulheres conversavam. Parecia uma reunião entre sócias ou um atendimento. Uma delas se apresentou, apresentou-me a loja e voltou a conversar. Fui ao banheiro e voltei. Ao avistar a sessão dos discos, logo vi um vinil interessantíssimo que registra um encontro entre Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal, dois grandes músicos brasileiros. Comprei o disco usados por um valor promocional, e com ele saí pela República rumo à Avenida Rio Branco, onde pretendia almoçar em um restaurante nigeriano – plano frustrado, devido ao fato de que não seria possível efetuar pagamento com cartão no estabelecimento naquela ocasião.
Então, segui até uma padaria mais ou menos próxima, onde serviam também refeições, pouco antes de uma grande sede de polícia civil próxima à região da Cracolândia. O problema foi que eu esqueci o disco na padaria. Apenas percebi isso de volta ao Jd. Aclimação. Não fica muito perto de onde eu estava hospedado a padaria em que esquecera o disco e não teria, afinal, tanto tempo disponível, uma vez que estava na cidade em função de um colóquio de filosofia e literatura, parte da programação do Áfricas em Trânsito, sediado na USP, um evento múltiplo que envolveu uma série de atividades ao longo de alguns meses no ano de 2019 (dos quais participei por uma semana). Continuei a rotina de participação no evento, assistindo às palestras e fazendo a minha própria apresentação em um grupo de trabalho.
Aproximadamente quatro dias depois, retornei à padaria, onde expliquei o que ocorria a um garçom que me pareceu um pouco desconfiado da minha fala. Talvez numa conjunção entre preconceito de cor e desconfiança constante por preconceito aos frequentadores da localidade, já que a padaria fica próxima à região da Cracolândia e é comum a associação entre zonas dos municípios próximas a locais conhecidos por tráfico e/ou consumo de drogas e criminalidade/ violência urbana. Lá de dentro saiu outro funcionário da padaria que já apareceu com o vinil em mãos dizendo: “Fui eu que atendi o senhor naquele dia. Vi o disco, guardei e pensei: ‘Se for importante, ele volta. Aqui está.’”.
O sentimento de alegria foi imenso. Eu não sabia como em tão pouco tempo parecia estar tão apegado a um disco vinil. Eu havia acabado de reencontra-lo! Abracei o disco, agradeci sorridente e saí de lá satisfeito com o resgate bem sucedido. Aquele objeto, em tão pouco tempo, havia praticamente alcançado status de pessoa, alguém importante na minha vida, uma companhia; em poucos dias, senti empolgação, no primeiro encontro, angústia, por tê-lo perdido, aflição, incerteza, insegurança, até que me tomou uma imensa felicidade ao ter reavido aquele objeto-ser. Concordei com Alfred Gell: objetos tem poder de agência nas relações sociais e podem ser considerados como pessoas.
Essa relação entre música, disco de vinil, compositores, objetos-seres, sugeriu-me uma analogia entre esse episódio e o carrinho de Seu Nonô da Feira de São Joaquim: um pequeno universo “particular” da música, com um acervo considerável, não em vinis, mas de CDs. Álbuns, de períodos históricos diferentes, gêneros e estilos musicais diversos, raridades, algumas pérolas que são praticamente exclusividades que circulam apenas informalmente, gravações de músicas de candomblé (de Ketu, de Angola, Jêje).
A fotografia emoldurada foi um presente de uma amiga. Após ter desenvolvido um modelo, vestido e acessório, ela solicitou a um fotógrafo que registrasse Tati, amiga e modelo, posando com a indumentária idealizada e materializada para uma propaganda da sua marca. O meu interesse, na realidade, era na moldura que seria dispensada em bom estado (embora considerasse bem bonita a modelo), já que essa amiga estava em mudança e buscava interessados nos objetos que ela teria que deixar. O momento, no entanto, em que nos encontramos para que pudéssemos nos despedir foi um tanto turbulento, porque naquela data eu mesmo faria uma viagem, motivo pelo qual deparei-me com a necessidade de fazer uma escolha: pegar ou largar.
Decidi por levar a fotografia comigo em viagem. Isso foi algo interessante. De modo imprevisto, eu passei a ter que prestar atenção a mais um volume, o quadro com a fotografia emoldurada de Tati. Na ocasião, estive em viagem para participar da etapa final de um processo seletivo para professor de um instituto federal de ensino, no estado de Pernambuco, em Petrolina – uma cidade às margens do Rio São Francisco, na divisa com o estado da Bahia, ligada, por uma ponte, a Juazeiro da Bahia. Petrolina está localizada a aproximadamente 500km de Salvador, na Bahia, e a aproximadamente 715km de Recife, capital do estado de Pernambuco, do qual faz parte. A vaga era para professor de sociologia do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF-Sertão/PE).
O quadro me acompanhou por uma parte considerável dos caminhos. Eis que eu ia caminhando pela orla do Velho Chico, apelido do Rio São Francisco, com aquele quadro de proporção aproximada 30x40cm, como se fosse alguém sob minha responsabilidade a me acompanhar, sob meus cuidados e dependente de mim. Enfim, foi algo a mais para ocupar espaço no HD interno de memória, mas tudo correu bem e a moldura chegou comigo até Salvador ao fim do percurso. Mais uma vez, uma coisa, nesse caso, assim como no caso anterior, uma obra de arte, esteve a me acompanhar por trajetos relativamente longos, cruzando estados, com status de pessoa.
A assertiva inicialmente mencionada é continuada por Appadurai com as seguintes palavras, na p. 68: “[…] tais histórias adquirem qualidades especialmente intensas, novas e impressionantes quando as distâncias espaciais, cognitivas ou institucionais entre produção, distribuição e consumo são grandes”. Senti essa intensidade em ambos os casos, porém tratei de histórias que se passaram no plano do consumo – ciente de não ter acompanhado as biografias dessas coisas desde o princípio, compreendi estar na etapa do consumo: do vinil, certamente como uma obra de arte, que será parte de um acervo ou coleção; do quadro com a fotografia, essa sim que passará por uma renovação ao ser dividida, desemoldurada, fotografia para um lado, moldura para outro. Essa moldura servirá para fazer o contorno e a proteção de outra fotografia, pintura ou ilustração.
Quanto às etapas anteriores do seu processo, talvez pudéssemos tecer algumas deduções acerca dos materiais e locais nos quais, e a partir dos quais são feitos, pensar sobre o composto que origina o vinil, a prensagem do disco, isto em paralelo à história das músicas que nele estão gravadas, nas histórias das composições e dos compositores, da experiência de gravação; por outro lado, deduzir, do tipo de madeira de que é feita a moldura, a região onde foi coletada a partir da árvore – em que regiões é possível encontrá-la, do tipo e origem do papel fotográfico, do processo de impressão da fotografia na gráfica, paralelamente ao movimento necessário para a realização do ensaio fotográfico (editorial de moda), da participação do fotógrafo e de seus equipamentos, da modelo e seus humores, da estilista, dos materiais que utilizou para chegar ao resultado final, entre roupas e acessórios que compuseram toda a montagem do set e da cena fotografada.
Enfim, não acompanhamos, ao longo deste pequeno exercício reflexivo (e relato pessoal fruto de notas de diário de campo que me acompanha na vida, além de ser parte da pesquisa), por todas as etapas de sua vida social, os objetos-seres aos quais eu efetivamente me apeguei. Entretanto, pudemos atestar, a partir de uma perspectiva social e cultural, que essas coisas ganham vida ao interagir conosco em ambientes diversificados: estão em relação com as pessoas e os ambientes além do que, certamente, motivam ações. Mais que isso, podem ser consideradas como pessoas, se pensarmos a partir de leituras de alguns autores renomados da antropologia mundial, dentre os quais nos aproximaremos mais ao longo desta dissertação, de Arjun Appadurai, Alfred Gell, Bruno Latour, Igor Kopytoff e Tim Ingold. Referencial teórico este fortalecido pelo estudo de trabalhos de Els Lagrou, Fabíola Silva, Lúcia Hussak Van Velthem, Sylvia Caiuby Novaes, Viviane Vedana, Fernando de Tacca, Daniel Miller, Haword Morphy, Lucas Marques, dentre outras leituras fundamentais para a condução das observações, reflexões e argumentações, desde o campo até a escrita (que, a bem da verdade, a partir de determinado ponto, ocorreram vis a vis).
Como o olhar e a percepção do pesquisador na vida pessoal, fora do âmbito da pesquisa, são fortemente afetados pela ressonância da teoria antropológica, pela imersão e saída do campo de pesquisa? Como isso pode ser constatado, detectado, em andanças por outras paragens, a mirar e escutar outras paisagens visuais e sonoras, a entrar em contato com outras pessoas, outras coisas, outros objetos? Quais efeitos sentimos na subjetividade, em nossa psique e no espírito? Há mesmo um “lugar” fora da pesquisa, se notadamente questões sobre o campo, sobre a pesquisa, sobre a escrita, acompanham-nos por onde quer que andemos, onde quer que estejamos?
Foi a fim de responder a estas perguntas, e por elas inspirado, que redigi essas palavras. Para fins de contextualização, explanação de reverberações, impactos, modos de afecção (“afetação”) decorrentes das relações entre pessoa, pesquisa, campo, teoria e vida. E, obviamente, os materiais, as coisas, objetos-seres, não-humanos.

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Texto e fotografia: Lucas Barreto de Souza – Graduado e mestre em antropologia (PPGA/UFBA)




Fonte: Ainimiga.noblogs.org