Dezembro 25, 2020
Do Passa Palavra
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Por Alan Fernandes

Há poucas semanas Bom dia, Verônica estreava na plataforma de streaming Netflix. Tendo sido a adaptação de um thriller brasileiro de Raphael Montes e Ilana Casoy, a série apresenta o drama de uma escrivã que quer se envolver com maior frequência nos recentes casos que chegaram à delegacia de homicídios em que trabalha. A trama começa com um suicídio em plena delegacia, de uma mulher que havia sido vítima de um abuso sexual em decorrência de um encontro que teve com um cara misterioso em um site de relacionamentos.

Esse caso abre uma investigação sobre como o suspeito faz para constantemente encontrar vítimas e desaparecer sob os olhos das autoridades. Paralelamente, com a fama que a escrivã e investigadora atraiu para si, ela acabou por se envolver com uma dona de casa chamada Janete, que em sua residência sofria de um relacionamento abusivo (muito bem explorado pela série, por sinal) e era constantemente forçada a agir como cúmplice de uma série de crimes de seu companheiro, que até o fim da temporada é o grande drama que vai interessar Verônica, e levará a consequências catastróficas.

Como uma adaptação de uma obra cujo co-autor Raphael Montes já se vangloriou de não ceder às censuras de temas considerados polêmicos, “Bom dia, Verônica” procura trabalhar escancaradamente a temática da violência de gênero. O desenvolvimento e o desfecho, portanto, são sinceros e sem rodeios.

Diferente do que pontuou uma colunista da UOL, não penso que o problema da série seja a duração das cenas em que ocorrem violências de gênero. O conteúdo insano presente na série é pedagógico: desafia milhares de mulheres a questionarem em que medida não estariam em suas casas vivenciando ao menos uma parcela dessa tortura sistemática chamada misoginia.

Há dois tipos de misoginia apresentados na série: uma física, os abusos sexuais e até assassinatos cometidos; e a tortura psicológica (e às vezes também física) sofrida por Janete em casa. A primeira é apresentada pelas câmeras para mostrar qual o interesse do assassino em suas vítimas; a segunda, e acho que essa sim demanda mais minutos de atenção, é o recurso usado para construir o perfil psicológico da personagem de Janete, confusa, culpada, atormentada pela sua própria sombra. Sem este recurso, provavelmente a série não cativaria tanto quanto me cativou e como foi também o diferencial para outros filmes com cenas de violência excessiva, como Cidade de Deus ou, usando uma referência estrangeira, o filme Corra! (Get Out!)

A crítica

O que me parece faltar na série — e mesmo assim não é suficiente para tirar seu mérito — é uma disposição em apostar além da jornada de anti-herói. Ao longo da série Verônica percebe que todos seus superiores trabalham incessantemente para não resguardar a segurança e a justiça para as vítimas com quem a escrivã se vê responsabilizada. Ao final da série, após diversas tentativas, acaba por tomar um caminho paralelo ao da própria instituição onde trabalhava. Nem que para isso precisasse assassinar os criminosos — isto é, fazendo justiça com suas próprias mãos.

A série — e falo somente dela, pois não me atrevi a comparar com o livro antes de generalizar — não só não aposta em saídas coletivas para as mulheres como tenta impregnar na protagonista a ideia de que só tomando sua jornada solitária ela poderá fazer justiça. As instituições, tanto a polícia como os outros órgãos em que reside este complô que impede o andamento das investigações foram corrompidas. O problema é muito mais de má gestão do que a própria existência dessas instituições, por isso por um grande tempo Verônica faz de tudo para procurar justiça por meio das regras da corporação. Em vão. A conclusão que fica é que só paralelamente à justiça tradicional o problema de gênero poderia ser resolvido. Não abre um precedente perigoso? Também a sensação de que denunciar não adianta nada o é. Essa é uma questão que fica em aberto.

Todo o problema da jornada solitária é ainda mais latente quando Janete, por exemplo, é dependente emocional e economicamente de seu companheiro. É ainda mais impossível pensar em outro horizonte quando não se apresentam redes de apoio. Além de Verônica, a única pessoa que se prestou a apoiá-la foi sua irmã, vinda de outra região para visitá-la. Mesmo assim teve uma passagem curta e pouca importância para o desfecho, porque sua iniciativa própria de ajudar a irmã foi frustrada pelas ameaças do companheiro de Janete. Se as redes de apoio e solidariedade foram um grande vácuo na vida de Janetes e Verônicas, também à esquerda e sobretudo aos antipunitivistas devem interessar.




Fonte: Passapalavra.info