Novembro 28, 2020
Do Facção Fictícia
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“Ninguém no mundo, ninguém na história, conseguiu sua liberdade apelando para o senso moral de seus opressores.”

Assata Shakur

A respeito desses momentos, a recomposição estatista progressista foi um passo atrás. Um retrocesso. Para aqueles que postam na emancipação coletiva, o ponto de referência deve ser sempre o grau mais elevado alcançado pela luta social, e nunca aquilo que é possível conseguir. O possível é sempre o Estado, o partido, as instituições existentes. Mas a emancipação não pode deter-se aí.”

Raul Zibechi e Decio Machado – Os Limites do Progressismo

A história se esquece dos moderados”

Andrew Bird

Porto Alegre, 3 de Maio de 2020

Desde as eleições em 2018, as pessoas e movimentos sociais se perguntam qual seria a forma de uma resistência radical ao governo de Jair Bolsonaro. Como resistir a um inimigo que parece absorver qualquer oposição e transformar toda polêmica em combustível para sua agenda e toda oposição em pretexto para mais repressão? E como apresentar uma oposição que não seja tragada por uma versão pacificadora, conciliadora e sem radicalidade por uma esquerda que se acostumou e se identifica com a gestão estatal e vê na revolta popular um risco à ordem da qual também fazem parte? Alguns episódios mostraram que muitas pessoas estão dispostas a dar o primeiro passo. Em 2019, antifascistas interromperam um ato e entraram em confronto com grupos comemorando aniversário do golpe militar de 1964.

Durante os primeiros meses da pandemia, as melhores repostas foram sendo dadas na prática cotidiana por movimentos sociais, antifascistas e torcidas organizadas encarando e atrapalhando atos pró-governo nas ruas; por entregadores e entregadoras organizando greves inéditas em nível nacional, assim como por moradores de favelas e ocupações em todo o país organizando a solidariedade. São esses exemplos de ação direta por solidariedade entre pessoas pobres e excluídas, e também os enfrentamentos à ordem e seus defensores que gostamos de registrar e celebrar. Tais lutas não fizeram o “possível” enunciado por diversos líderes estatais, que consistia em fazer a administração catastrófica da catástrofe, não esperaram, lidaram com a contingência de maneira a não se deixar paralisar – é nisso que apostamos!

Retomar as Ruas: Antifascista e Torcidas Organizadas

Sem a natureza hierárquica e hegemônica do Estado, que monopoliza o uso da força, da economia, ideologia oficial, informação e cultura; sem a onipresença dos aparelhos de segurança que penetram todos os aspectos da vida, da mídia ao quarto; sem a mão disciplinadora do Estado como um Deus na terra, nenhum sistema de exploração ou violência poderia sobreviver.

Dilar Dirik, Democracia Radical: a Linha de Frente Contra o Fascismo

A luta antifascista emergiu na mídia e nas pautas dos movimentos como há décadas não se via no Brasil, com ampla cobertura das ações e protestos, mas também recebendo ameaças de criminalização e repressão. Desde 2015, como citamos, a tomada das ruas pela direita aos domingos, pedindo impeachment do PT, deu lugar às campanhas para eleger Bolsonaro em 2018. Após a eleição, grupos de direita “inovaram” mais uma vez com seus “protestos à favor” do governo, organizados aos finais de semana para não atrapalhar o fluxo de veículos e mercadorias nos dias de semana e contar com mais fora do horário de trabalho – o oposto dos atos que os movimentos anticapitalistas organizam com intuito de paralisar o fluxo urbano.

No entanto, esse avanço da direita na tomada das ruas não foi apenas uma conquista própria, mas algo construído com a conivência e o apoio direto das polícias e agentes de segurança. Documentos internos da Polícia Militar vazados à imprensa comprovam o óbvio: o comando da polícia trata manifestações pró-governo como atos inofensivos e festivos, recebendo elogios mesmo quando desrespeitam normas de isolamento e o uso de máscaras. Mesmo sendo inconstitucional discriminar manifestações políticas com base ideológica, ligando certas organizações e até partidos políticos a crimes de vandalismo, forças policiais de elite sequer acompanhavam os atos da direita, enquanto protestos de oposição eram vistos como uma “ameaça à ordem” e fortemente reprimidos. É claro que, novamente, vemos as linhas de exclusão que direciona repressão para manifestações populares de esquerda, periféricas, de maioria negra e pobre, enquanto policiais escoltam, protegem e tiram fotos com apoiadores do governo, em sua maioria brancos, dos bairros nobres, fazendo carreatas em veículos de luxo. Isso demonstra como o Estado influencia e tenta controlar quais ações políticas vão ganhar espaço nas ruas e quais serão sempre alvo da repressão.

Desafiando essa lógica, torcidas e trabalhadores e trabalhadoras precarizadas organizaram diversos atos públicos nas ruas em 2020. Nos dias 3 e 17 de maio, antifascistas em Porto Alegre interromperam protestos bolsonaristas que pediam a volta da ditadura militar aos cantos de “Recua, fascista”. Foram alguns dos primeiros atos do ano – e após muitos meses – a desafiar hegemonia bolsonarista nas ruas.

Como em outros lugares do mundo, a mídia debateu sobre a “necessidade” de se reunir nos espaços públicos para confrontar manifestações em apoio a Bolsonaro e pela reabertura do comércio. Se os patrões e a mídia não veem problema em nos fazer aglomerar no ônibus lotados, nas filas dos bandos esperando nossos benefícios, nos empregos precários e serviços de entrega que crescem enquanto sofremos com o vírus e a falta de recursos, então julgamos necessário nos reunir para bloquear os defensores de um sistema econômico assassino, o fluxo de mão de obra para produção e de mercadorias para o consumo.

Avenida Paulista, 31 de Maio de 2020.

Na cidade de São Paulo, cerca de 70 torcedores do Corinthians organizaram um pequeno ato dia 9 de maio, no mesmo horário e local que um ato pró-governo. A ação barrou o protesto bolsonarista chamou atenção nas mídias sociais, junto com as imagens de Porto Alegre no dia 17, e serviu para convocar mais pessoas para a rua. No fim do mês, torcedores de diferentes times de futebol ocuparam as ruas em São Paulo e frustrar protestos de apoiadores do presidente no dia 31, quando os atos ganharam uma escala nacional. Torcedores da Gaviões da Fiel, uma das maiores torcidas do país, com uma longa ação política desde os anos de chumbo da Ditadura, convocaram as manifestações que contaram com grupos de torcidas rivais, como Palmeiras, São Paulo e Santos. O momento de união das torcidas e outros grupos antifascistas reuniu uma multidão quase dez vezes maior do que o lado bolsonarista. A polícia tentou manter linhas de isolamento, mas um confronto ocorreu entre antifas responderam a provocações de manifestantes carregando bandeiras do Pravy Sektor, partido neonazistas ucraniano, e bandeiras dos EUA. A polícia interveio, direcionando seu ataque aos antifascistas, e protegendo neonazistas na Av. Paulista se tornou o palco de um grande confronto. Antifascistas resistiram e ergueram barricadas bloqueando as vias por um bom tempo.

Torcidas na Av. Paulista em São Paulo, em 31 de maio de 2020.

Entregadores de aplicativos se juntam ao protesto na linha de frente contra repressão policial.

As cenas repercutiram em todo o país, especialmente uma foto que registra um trabalhador de entregas por aplicativo atirando pedras contra a polícia. Sob o slogan “Somos Democracia”, entoado por diversas torcidas organizadas, uma imagem de oposição combativa e organizada era apresentada com os protestos contra o governo e o racismo desde o início de maio. A onda de revoltas que tomou os EUA após o assassinato de George Floyd dia 25 de maio nos EUA impulsionou ainda mais os movimentos que vinham tomando de volta as ruas no Brasil. As barricadas do dia 31 mostram que os sentimentos de repúdio ao racismo, a governos que flertam com o fascismo e a revolta contra suas forças repressivas são basicamente os mesmos de norte a sul do globo.

Antifascistas em São Paulo enfrentam “nacionalistas” com símbolos neonazistas da Ucrânia e bandeiras dos Estados Unidos protegidos pela Polícia Militar.

Ao todo, foram mais de 15 cidades em protesto no dia 31 de maio. No Rio de Janeiro, vimos forte presença de anarquistas e antifascistas aparecendo para confrontar um ato nacionalista pró-Bolsonaro em Copacabana. Houve confronto físico entre antifascistas e nacionalistas. Em Belo Horizonte os atos também começaram com pequenas chamados e se tornaram grandes manifestações. Em muitos casos, como no dia 31 de maio, foi possível bloquear, atrasar e impedir carreatas em apoio a Bolsonaro e pela reabertura do comércio. A torcida Resistência Alvinegra, fez um primeiro ato pequeno na Praça do Papa, com um vídeo onde leram um manifesto pela democracia e contra a agenda fascista de Bolsonaro e seus apoiadores. O chamado surtiu efeito e os atos semanais saltaram de uma dúzia para milhares de pessoas dias 31 de maio e 7 de junho, com diversas torcidas e movimentos sociais marchando para barrar as carreatas da direita, levando bandeiras e cantos antifascistas, homenagens a George Floyd e também João Vitor e Rodrigo Ciqueira, assassinados pelas polícias cariocas, além da vereadora e militante Marielle Franco, assassinada em 2018 por milicianos

Belo Horizonte, 31 de Maio

Nas semanas seguintes, mais cidades foram se juntando aos protestos antifascistas e contra o racismo. Em Salvador, a onda de protestos pelo Brasil e nos EUA levou grupos como Reação Antifascista Salvador, torcidas organizadas, sindicatos e quilombos a organizar um grande ato dia 7 de junho. Em Curitiba, uma manifestação com presença massiva de antifascistas marchou pelas ruas do centro da cidade no dia 1 de junho, que queimou a gigantesca bandeira nacional hasteada em frente ao palácio do governo e entrou em confronto com a polícia.

Mesmo com todos os seus problemas e conflitos internos, as torcidas organizadas possuem uma enorme capacidade de mobilização e diálogo com diversos setores da sociedade. Basta olhar o exemplo recente das torcidas organizadas Chilenas se juntando às linhas de frente em defesa dos protestos de 2019. Em 2013, a ocupação em defesa do Parque Gezi em Istambul, Turquia, também contou com um tremendo papel das torcidas que deixaram as rivalidades internas de lado para defender o parque e a ocupação da Praça Taksim das ofensivas policiais. Como aponta Mark Bray no livro Manual Antifa, a cultura e organização antifascista ganhou popularidade nas últimas décadas entre torcidas de futebol estadunidenses que organizadas por imigrantes que trabalhavam para combater a homofobia e transfobia. E na Europa, o autor considera que “alguns dos mais ferozes conflitos antifascistas aconteceram no contexto do futebol”. Essa tradição remonta à década de 1970, quanto grupos fascistas usavam torcidas e os jogos como espaço para recrutar novos membros e antifascistas modernos logo agiram para combater e impedir esse processo. É importante notar essa tradição retomando fôlego também no Brasil, onde o futebol e a relação das torcidas com os movimentos sociais é antiga e forte.

Infelizmente, vimos um refluxo nos atos, especialmente em São Paulo, a cidade com as maiores torcidas envolvidas nos protestos nacionais. Após os confrontos do dia 31 de maio, o governo do estado e o comando da PM tentaram mediar entre os movimentos antifascistas e os organizadores de atos pró-governos para que não organizassem protestos no mesmo horário na Av. Paulista novamente. Movimentos como o Povo Sem Medo, ligados ao candidato a prefeito Guilherme Boulos, a rede Somos Democracia e outros movimentos negros decidiram respeitar a decisão do Tribunal de Justiça que proibia os atos acontecerem juntos no dia 7 de junho. O sentido de organizar um ato para barrar fascistas que não poderia de fato barrar fascistas acabou sendo perdido.

A repressão direta ou a censura velada não demorou a atingir outros estados. Partidas futebol estavam acontecendo sem a presença de público, porém, torcidas organizadas podiam enfeitar o estádio com suas bandeiras. Em Belo Horizonte, no entanto, a torcida Resistência Alvinegra foi proibida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de estender sua bandeira que continha a imagem de Marielle Franco e a palavra “Antifa”. A bandeira era a mesma que esteve presente nos protestos de rua nos meses anteriores. A justificativa da entidade demonstra que em seu regulamento, a palavra “antifa” está no mesmo nível que expressões racistas e xenófobas.

Bandeiras Antifascistas removidas do Mineirão.

Está cada vez mais claro o receio das autoridades em permitir o crescimento de expressões e movimentos combativos como o antifascismo. Viemos agora de uma onde de levantes na América Latina, com Equador, Colômbia e Chile, se levantando contra os custos de vida e condições no neoliberalismo. Parte da esquerda e muitos movimentos anticapitalistas viram inspiração naquela luta, se perguntando levantes começariam por aqui também. O próprio Jair Bolsonaro expressou em 2019 que o governo está atento à onda de protestos nos países vizinhos, e em 2020 mostrou sua preocupação quanto a radicalização das ações nas ruas e seu medo do Brasil “virar o Chile” em resposta aos efeitos da crise do coronavírus. No entanto, as manobras do governo mostram um desejo de reproduzir o modelo neoliberal chileno, dando total liberdade para que o Capital aprofunde a exploração da mão de obra e do meio ambiente, enquanto o Estado corta e reduz serviços sociais para a população. E de fato, tanto a crise causada pela pandemia quanto as mortes causadas pela polícia geram protestos e confrontos, como no dia 15 de junho após a morte do jovem Guilherme, assassinado por policiais que trabalhavam como seguranças privados.

Como efeito, Bolsonaro e seus parlamentares aliados buscaram imitar Donald Trump e fazer declarações considerando antifascistas uma “ameaça terrorista doméstica”. Seu objetivo pode até não ser atingido usando a lei para criminalizar o antifascismo, mas sabemos bem quais lições a história nos mostra: Bolsonaro vai estimular os ânimos de suas bases dispostas a praticar atos de violência nas ruas contra minorias e dissidentes com a conivência da polícia. Grupos de extrema-direita radicalizados já fazem seu trabalho sujo legitimado pelo discurso do presidente: invadindo hospitais para tentar “provar” que não estão cheios de pacientes, como Bolsonaro insinuou em um pronunciamento, violando caixões para comprovar boatos de que não existem pessoas mortas, mas apenas pedras dentro deles para simular funerais, agredindo profissionais da saúde em hospitais ou organizando protestos por mais recursos para atender pacientes. Vimos grupos como o “300 Pelo Brasil”, acampando em Brasília e marchando até o STF com tochas e estética explicitamente inspirado nas marchas “Unite the Right”, de Charlottesville, nos EUA em 2017. Mesmo tento seu movimento reprimido e alguns dos seus membros presos, tanto os “300” quanto outros grupos menos organizados comprovam que o legado do governo de Jair Bolsonaro, além dos estragos de dentro das instituições estatais, deixará um legado de muito fascismo, racismo e ódio nas ruas.

Mas em todos os cantos das Américas, o recado está sendo dado: não vamos tolerar os avanços do fascismo e do populismo, nem mais mortes pelas mãos da polícia (a instituição mais fascista que caminha sobre esses solos) e as ruas, não pertencem àqueles que fazem “protestos à favor de governos” e fazem o trabalho sujo de gangues que a polícia (ainda) não é capaz de fazer diante das câmeras. Seguiremos tomando as ruas com as bases, com as torcidas — mesmo quando partidos e movimentos tradicionais sequer esboçam qualquer coragem de se juntar a nós.

Breque dos Aplicativos

Durante a pandemia, vários setores iniciaram greves para barrar a perda de ainda mais direitos e conseguir melhores condições de trabalho. Setores fundamentais como metroviários e os correios fizeram greves vitoriosas quando se viram mantendo serviços considerados essenciais enquanto trabalhavam mais tempo, mais pesado e sem equipamentos ou condições para preservar sua saúde. Associações de inquilinos também organizaram movimentos pela anistia e greve de aluguéis, com um pouco menos de repercussão na mídia, mas ainda assim realizando um trabalho fundamental. Mas um novo grupo surgiu chamando a atenção pela dimensão, pela força e pela criatividade em organizar quem estava isolado e desafiar um dos novos negócios que mais cresceu durante a pandemia: os Entregadores Antifascistas

Breque em São Paulo.

Profissionais trabalhando com suas motocicletas ou bicicletas para aplicativos de entrega de comida e produtos diversos sentiram um aumento significativo na demanda por seus serviços. Os pedidos por produtos entregues em domicílio foram decretados como essenciais para que milhões de pessoas pudessem ficar em casa. Enquanto isso, quem não podia ficar em casa, como os 9 milhões de novos desempregados no primeiro semestre de 2020, buscava seu sustendo no mercado informal – que já emprega mais de 40% da força de trabalho brasileira. As empresas internacionais como a Uber e Rappi, e a brasileira Ifood cresceram até 50% absorvendo serviços e nova força de trabalho recém-dispensada ou demitida das empresas que paralisaram ou faliram devido à pandemia, elevando a taxa de desemprego à 13,3% no país. No entanto, mais pedidos não significa mais dinheiro entrando para quem trabalha. Além de receber menos, entregadores estiveram sujeitos a mais riscos para a saúde.

Se opondo a essa lógica oportunista das novas empresas digitais, que invisibilizam as relações de trabalho tornadas individuais, surgiu o grupo Entregadores Antifascistas em São Paulo. Galo, um de seus fundadores gravou um vídeo desabafando sua frustração sozinho, no dia do seu aniversário, em março de 2020 após ser bloqueado pelo aplicativo por não terminar uma entrega por conta de um pneu furado. O vídeo viralizou nas mídias sociais e a projeção inspirou o Galo a criar um abaixo-assinado com mais de 600 mil assinaturas para exigir que os motoboys tivessem direito a refeição, itens de proteção e outros direitos básicos negados pelas empresas que tratam os motoboys como “empreendedores” e “parceiros”, não como funcionários. Quando outros se juntaram à causa, criaram o grupo Entregadores Antifascistas, uma forma de organização sindical ainda informal e movimento que também busca ser uma cooperativa autônoma. Dezenas deles participaram dos atos antifascistas em São Paulo no dia 7 de junho, onde gravaram mais um vídeo manifesto que circulou na imprensa e na internet, convocando mais entregadores e entregadoras a se organizarem com o movimento.

Logo após participar dos atos das torcidas e movimentos antifascistas, convocaram o “Breque dos App” para o dia 1 de julho, uma greve nacional de entregadores e entregadoras que atingiu 13 estados na luta por melhores salários, direitos e condições de trabalho. Para contornar as medidas punitivas que as empresas aplicavam contra indivíduos ou pequenos grupos que protestavam ou paralisavam suas atividades, a solução foi fazer um movimento ainda maior para pressionar, chamar atenção para a causa e a situação da categoria. Bloquearam avenidas com centezas de motocicletas, mas também a porta da sede de várias empresas de entrega. Um segundo grande dia de greve foi realizado dia 24 de julho.

Breque dos Aplicativos em São Paulo.

O exemplo de luta dos Entregadores Antifascistas nos lembra que, mesmo com a “uberização” das relações de trabalho que aprofundam a precariedade e a informalidade que já dominam países como o Brasil, é uma ilusão acreditar no discurso de que quem vende sua força de trabalho tem “autonomia”, é “empreendedor” ou está em pé de igualdade para se relacionar com empresas como “parceiros”. Nas palavras do próprio Galo: “Não somos empreendedores, somos força de trabalho!”. Por trás dos aplicativos e seus algoritmos existem proprietários com o controle total sobre a ferramenta, o serviço e o pagamento de quem mais trabalha. Ainda existe a velha divisão entre empregadoras e empregados, entre quem manda e quem obedece, quem trabalha por pagamentos mínimos e quem lucra fortunas. A “modernização” trazida pelas empresas e sua “GIG Economy” não passa de um “feudalismo digital” que se aproveita da falta de legislação para acabar com salários fixos, direitos, seguridade, aposentadorias e só pagar a motoristas, entregadoras e outros profissionais apenas por kilômetro rodado ou entrega feita, sem qualquer regra fixa – como na transição para a economia capitalista. Somente uma luta organizada de baixo para reunir indivíduos dispersos e isolados pela informalidade, criando uma nova linguagem de ação capaz de atacar e causar prejuízos aos patrões poderá chegar a alguma mudança, compartilhando experiência de luta radical, consciência de classe rumo a transformações sociais profundas.

Breque dos Aplicativos em Belo Horizonte: ocupações em apoio aos motoboys e motogirls.

Ações Solidárias e Apoio Mútuo: Nós Cuidamos de Nós!

Além dos impactos direto na saúde e na vida de milhões de pessoas, as previsões para um futuro próximo já apontam que a pandemia vai colocar mais até 66 milhões de pessoas na fome em todo mundo. No Brasil, além dos já mencionados 9 milhões de empregos perdidos, um dos primeiros problemas as serem enfrentados com a paralisação parcial da economia com as pessoas ficando em casa é a fome. Claro que a gestão Bolsonaro contribuiu para esse quadro: em seu primeiro ato como presidente, extinguiu órgãos responsáveis pelo combate a fome, como o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). No ano seguinte, afirmou a membros da imprensa internacional que “não existe fome do Brasil”.

Junto da crise sanitária e econômica, houve um aumento de até 40% no preço dos alimentos básicos. Em São Paulo, por exemplo, produtores viram uma queda de até 80% na venda de verduras e legumes para os bares e restaurantes da capital nos primeiros meses da pandemia. Até de 70% de algumas produções foi jogada no lixo por “não ter como distribuir”, enquanto milhares de pessoas nas cidades não sabiam como alimentar suas famílias. A lógica de mercado leva produtores a jogar fora alimentos antes de dividi-los com quem tem fome e torna ineficiente a distribuição de recursos em momentos de crise. Se não há relações de compra e venda e um retorno em lucro, não é útil levar alimento a quem mais precisa.

Em muitos casos, empresas tentam fazer publicidade disfarçada de caridade, doando produtos alimentícios industrializados e processados para colocar sua marca em reportagens de TV. Com imagens produzidas por elas mesmas, usaram do jornalismo corporativo para ocupar minutos milionários do horário nobre como publicidade gratuita para atribuir uma imagem de “solidariedade” a suas marcas.

Para mostrar que é possível nos organizar com uma outra lógica, no período de março a julho, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) organizou a doação de 2.300 toneladas de alimentos para comunidades em todo o país. A agricultura familiar é responsáveis por até 80% da produção de frutas e 60% das verduras consumidas pela população. O MST usa o mesmo modelo para produzir e vender alimentos abaixo do preço de mercado e ainda doar arroz, feijão, pinhão, erva-mate, fubá, farinha de milho, frutas e verduras em escala nacional durante a pandemia.

MST: 3 toneladas de alimentos doados durante a pandemia.

Mas não são apenas exemplos grandiosos em escala e que fizeram a diferença. Diversas iniciativas chamaram a atenção por desenvolver princípios anarquistas de apoio mútuo nas periferias, em ocupações urbanas e nas favelas, distribuindo alimentos e até fazendo higienização comunitária. Uma delas merece atenção especial pela dimensão e amplitude. Na favela Paraisópolis, uma das maiores de São Paulo, moradoras e moradores organizaram sua própria rede de atendimento de saúde, capacitando e equipando 240 moradores em 60 bases para atuarem como socorristas em casos de emergência. Além disso, realizaram a distribuição de refeições para apoiar quem estava doente, quem ficou em casa e não pode mais trabalhar e também quem não tinha opção além de sair para ganhar seu sustento.

Ação solidária do MOB no Morro dos Macados, Rio de Janeiro.
Membros da FOB em ação de higienização comunitária. “Só o Povo Salva o Povo.”

Solidariedade não é um serviço ou um “trabalho”, mas uma atividade essencial para todo movimento revolucionário ao longo da história. Pessoas educadas dentro do Capitalismo conhecem apenas a falsa escassez criada pela propriedade individual da terra. Em crises sanitárias ou econômicas, acreditam que a solução é uma competição ainda mais intensa por recursos, por dinheiro e até por saúde. Somente exemplos de ações diretas, voluntárias, solidárias e autônomas podem vencer a competição e o isolamento.

Como recordam camaradas da Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil (FOB), a Gripe Espanhola, última grande pandemia global, pode nos ensinar sobre valores anticapitalistas para a crise atual. Um século atrás, a Gripe Espanhola matou mais que os quatro anos de I Guerra Mundial e devastou as grandes cidades brasileiras, matando 35 mil pessoas, cujos corpos se amontoavam nas ruas e em valas comuns de cidades como Rio de Janeiro, então capital do país. Na mesma época, explodia a primeira grande greve geral, a Greve Geral de 1917, a Insurreição Anarquista de novembro de 1918 no Rio de Janeiro, ambas protagonizadas pelo movimento sindical anarquista que era hegemônico na época e conquistou importantes vitórias e direitos para toda a classe trabalhadora.

Nos manter saudáveis e com vida é uma tarefa ao mesmo tempo defensiva e ofensiva, como as demais formas de organização que vimos em ruas e bairros ocupados nos protestos contra o racismo e a polícia nos EUA (e nos movimentos de ocupações de praças e prédios nas últimas décadas). Precisamos de formas de cuidado que sejam solidários entre as classes oprimidas e hostis aos planos do Estado e do capital – não apenas uma muleta para a precariedade planejada e intencional de seus serviços. As torcidas organizadas já aprenderam e difundem essa lição ao promover a distribuição de cestas básicas ao mesmo tempo em que organizam protestos para barrar a extrema-direita nas ruas. Assim como o MST, que produz alimento saudável e barato enquanto enfrenta a maior concentração de terra do mundo e um dos maiores índices de violência no campo

Como qualquer um poderia prever, mesmo trabalhando para que pessoas tenham acesso à terra e pessoas no campo e na cidade tenham comida em casa, o MST segue sendo um dos principais alvos do governo federal e dos estados. Em Minas Gerais, o desalojo do assentamento Quilombo Campo Grande no dia 13 de agosto, deixou sem casa 450 famílias que ocupavam e produziam por mais de 20 anos em um terreno abandonado por seu proprietário que devia fortunas em impostos. Policiais Militares derrubaram a escola comunitária e incendiaram plantações, de forma semelhante às táticas do Estado Islâmico para expulsar agricultores de suas terras na Síria.

Famílias resistem ao despejo do Quilombo Campo Grande entre o fogo ateado pela polícia em suas plantações.

A história confirma que momentos de luta social radical, pandemias e a ação direta por solidariedade entre pobres e excluídos não são nenhuma novidade nessas terras. Agindo em solidariedade sob uma perspectiva revolucionária, coletivos e movimentos não pretendem apenas “preencher” o vazio dos serviços Estado nem muito menos servir como uma forma de caridade. Pretendemos mostrar que novas relações e princípios podem e devem surgir para solucionar os problemas causados pela tirania capitalista e superar a lógica que causa tais problemas.

Conslusão: O Velho Normal

Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos.

– Davi Kopenawa Yanomami, “A queda do céu”, 2016

“Quando engenheiros me disseram que iriam usar a tecnologia para recuperar o rio Doce, perguntaram a minha opinião. Eu respondi: “A minha sugestão é muito difícil de colocar em prática. Pois teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio, a cem quilômetros nas margens direita e esquerda, até que ele voltasse a ter vida”. Então um deles me disse: “Mas isso é impossível”. O mundo não pode parar. E o mundo parou.”

Ailton Krenak, “O Amanhã Não Está à Venda”, 2020

O capitalismo não parou, mas vimos o impressionante efeito da breve desaceleração das atividades econômicas e industriais nas grandes cidades durante alguns momentos de isolamento social. Porém, não existe um “novo normal”. A normalidade não será tão “nova”, mas apenas uma reedição da velha: a corrupção, a ganância e as eternas ameaças do autoritarismo e das crises de um sistema condenado a fazer da crise sua forma de governo.

Ruas vazias em Brasília no início da pandemia.

Assistimos Donald Trump perder a eleição nos Estados Unidos para um outro racista abusador que tem uma policial como vice – e até janeiro de 2021 não especulamos se Trump vai tentar usar para resistir à derrota nas urnas nas cortes ou convocando milícias para promover mais violência nas ruas. Sua derrota afeta diretamente o futuro da política externa de Bolsonaro, sempre colocada como subserviente aos interesses imperialistas estadunidenses na América Latina.

Enquanto isso escândalos envolvendo Bolsonaro não param de surgir: o governo desviou 7,5 milhões de reais arrecadados para produzir testes da covid-19 uma organização da esposa do presidente e o vice-líder do governo no senado foi detido pela Polícia Federal com 33 mil reais na cueca durante uma busca que investiga o desvio de 8 milhões de reais desviados da compra de equipamentos para tratar pacientes com o coronavírus. O novo normal, com vírus ou com o populismo bolsonarista, se mostra muito semelhante toda uma era de normalidade de outros governos e crises. O mesmo serve para os negócios: 33 brasileiros se tornaram novos bilionários durante e os super ricos ampliaram suas fortunas a pandemia enquanto metade da população ativa está desempregada pela primeira vez na história do país. Pessoas morrem sem atendimento ou testes enquanto corruptos vivem vida de luxo financiada com dinheiro destinado ao combate ao coronavírus.

Como aponta o anarquista Uri Gordon, precisamos considerar os efeitos das perspectivas de colapso do capitalismo sobre nossas políticas radicais. Não apenas considerar que não mais temos pela frente “um mundo de prosperidade autogerida pela classe trabalhadora”, mas um enfrentamento das consequências de permitirmos que a burguesia espalhasse a tirania do capital pelo mundo por tanto tempo. Como aponta o autor, veremos três opções possíveis: “uma nova ordem social baseada na liberdade e igualdade, diferentes ordens sociais modificadas a partir da atual, mas que mantenham a opressão e a desigualdade, ou o colapso total de qualquer ordem social. Em outras palavras, um comunismo libertário de base, um eco-autoritarismo ou a guerra civil”. O perturbador é perceber que já vemos amostras desses três mundos futuros lutando pela sua existência nesse momento e bem debaixo de nossos pés.

A história não segue uma linha reta do progresso natural das sociedades e os espectros tirânicos, que alguns acreditam terem sido deixados para trás com a modernidade, assombram como o “bacilo da peste” que Albert Camus usou para nos advertir. A ironia em sua metáfora é justamente que não livramos o mundo nem de espíritos totalitários e obscurantistas, nem de pandemias infecciosas – ambos são ameaçadores da mesma forma que séculos atrás. E tanto o espectro fascista quanto as próximas epidemias já estão a caminho, segundo especialistas, podendo ser deflagradas por vírus contidos em biomas ameaçados, como a Amazônia. O desastre que vivemos e conecta todas as pessoas no mundo hoje não é um capítulo descontinuado na história. Ele é produto da exploração capitalista e do agronegócio, da domesticação e da devastação da vida animal e vegetal, do nível cósmico ao microbiológico. As forças autoritárias que aproveitam desse momento para refinar suas táticas e tornar mais brutais suas leis, são as mesmas que já vinham emergindo nas últimas décadas, agora e cada vez mais sob a sombra do populismo nacionalista de direita que engole todos os continentes. De políticos como Trump e Bolsonaro a grupos autoritários como o Estado Islâmico e as milícias fascistas, autoritários vão tentar dividir o mundo em uma guerra civil global nacionalista.

Não devemos nos apegar apenas às semelhanças de nossos chefes de estado. As Américas compartilham muito mais do que o nome de um traficante de escravos: a história de resistência dos povos ameríndios, escravizados, mulheres e toda classe trabalhadora é muito maior e tem muito a nos ensinar nesse momento. Ao contrário de grande parte da esquerda que, pareciam mais encantados com a imaginação de um suposto “novo normal” do que atenta às desordens que já estavam em curso, acreditamos que se não usarmos nossas habilidades e nossa capacidade de organização para fortalecer laços comunitários e nossa capacidade organizativa para a luta social, podemos ter certeza que autoritários fortalecerão seus mecanismos dentro e fora dos Estados. As ações solidárias entre comunidades e de combate ao fascismo nas ruas prefiguram cenários possíveis para toda luta antiautoritária de agora e do futuro, onde o meio pelo qual buscamos um novo mundo já mostra como deve ser esse novo mundo: quem se organiza em sua vizinhança e em sua terra para tirar dela sua comida e sua saúde não cairá junto aos centros do capitalismo em colapso global; quem promove a solidariedade não precisa entrar em uma competição em torno de recursos tornados escassos pela propriedade individual; quem organiza a autodefesa não ficará a mercê de polícias, exércitos e outros capangas do Estado e dos patrões para se defender de agressores fascistas e todo tipo de opressão racista ou patriarcal que encontrarmos.

A invasão europeia em 1500 gerou diversas pandemias mortais nas Américas – muitas intencionalmente usadas como armas biológicas pelos europeus. Provavelmente, povos Incas, Guaranis e muitos outros que habitavam essa terra também se perguntavam: “quando é que tudo vai voltar ao normal?” Cinco séculos depois, constatamos que não existe retorno ao que o Capitalismo destruiu. Viveremos por paisagens sempre marcadas por todos os mundos destruídos sobre essas terras, sempre rumo a um novo cenário. Se existe algo que podemos aprender os povos originários das Américas é não esperar pelo “retorno” do que existiu, mas enfrentar e buscar superar o que veio para tornar pior a vida nesse mundo.

Aqui, lembramos do filme “Serras da Desordem” (2016) dirigido por Andrea Tonacci, que mistura ficção e documentário para acompanhar o índio Carapirú, sobrevivente do massacre do povo Awá-Guaja praticado por pistoleiros em 1978. Capirú passou a vagar sozinho por 10 anos percorrendo 2 mil quilômetros de distância de onde fugiu. A catástrofe evocada no filme é da imagem da perda de um mundo sem que outro possa vir e substituí-lo, deslocando-se em uma inadequação e falta de entendimento permanente. Em um momento do filme conseguimos ler a manchete de um jornal da época do encontro com Carapirú que diz: “Ele dança, pinta e ri. Mas está triste”.

A pandemia era algo que muitas esperavam como uma catástrofe anunciada, quando finalmente a peste chegou não foi da forma como ninguém pode imaginar. Afinal, o mundo não se comporta de acordo com nossas expectativas e aqueles que anseiam verdadeiramente a revolução disso deveriam (não) saber. Ainda não conseguimos e nem sabemos lidar com esse tempo, pois algo da vida anterior se perdeu para sempre, tentamos diariamente elaborar o confronto com o imponderável, as mortes de parentes, amigos, desconhecidos e fazer o luto, continuar nos empregos, sobreviver, abraçar alguém, lidar com a destruição e a angústia. Ainda tentamos estar juntos (ainda que muitas vezes separados), absorvendo as experiências de sujeitos e coletivos nesse processo, lutando e aprendendo a lutar até que possamos enfim respirar.

“O bacilo da peste não morre, nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis, na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada… viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

– Albert Camus, “A Peste”.




Fonte: Faccaoficticia.noblogs.org