Janeiro 31, 2021
Do Reporter Popular
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* O texto é uma opinião do coletivo Resistência União e Arte – Erexim.

No dia 23 de janeiro de 2021, por volta das 18h, a cidade de Erexim (norte do Rio Grande do Sul), viu mais uma cena brutal de violência cometida pela polícia. O abuso de autoridade e a violência, mais uma vez, mostraram sua cara, dessa vez, contra dois homens que, ao fugir da polícia foram metralhados. Sem julgamento, eram apenas suspeitos, porém, foram executados após se acidentarem no carro em que estavam. As cenas foram registradas por um portal de notícias locais e você pode assistir clicando aqui.

O que está em jogo aqui, ao revés dos inúmeros comentários nas redes sociais parabenizando a atuação da polícia, é a maneira como estes dois rapazes foram tratados. Mesmo se tratando de dois supostos criminosos, que teriam aparentemente atirado contra a polícia e mantiveram um ato de fuga, ainda assim, o tratamento que lhes foi dado não se justifica em hipótese alguma.

Nos vídeos que circularam nas redes sociais, é possível observar a maneira como um dos mortos, após ter sido alvejado pela polícia, é literalmente arrastado por policiais como um saco de batatas, e jogado no veículo da Brigada Militar. Uma cena forte de se ver, mas que demonstra a maneira como o povo pobre é tratado nesse país. Ali mesmo, estes dois homens foram julgados e condenados, um deles tendo pagado com a própria vida, o outro foi hospitalizado.

Ao assassinado, não lhe foi dado a possibilidade de um atendimento médico correto, que pudesse salvar sua vida. Seu único direito era o de morrer, de uma forma cruel e sem defesa. Mas a vida de um “marginal” vale mais ou menos que a de um policial? E se tivessem matado um policial, como seria? Como dito mais acima, a atuação da polícia foi exaltada por inúmeras pessoas, as quais manifestaram uma grande satisfação pela morte de um dos envolvidos. Frases como “tem que matar mesmo”; “se fosse gente boa, estaria em casa tomando chimarrão com a mãe”, “parabéns aos policiais, fizeram um ótimo trabalho”; “assisti o vídeo, carregaram que nem porco na caçamba. Que sirva de exemplo pra maloqueragem que reside na cidade”, “tava demorando”, entre outras do mesmo nível ou pior, marcaram os comentários dos vídeos que circularam na rede.

Queremos chamar atenção para o apoio que essa atuação cruel da brigada militar recebeu. Em se tratando de uma cidade do interior do RS, extremamente conservadora em muitos aspectos, até que não nos surpreende ler tais comentários. Entretanto, destacamos a frieza também dos comentários, em que no contexto político atual, escancara a identificação com um modelo de sociedade extremamente violenta, em que a violência policial de cada dia além de ser naturalizada é exaltada como única e exclusiva solução de contenção da própria violência.

Se olharmos para a situação do restante do país, veremos que não é muito diferente do ocorrido em Erexim. A partir disso é impossível não questionar: Quanto vale uma vida?

A polícia brasileira é a que mais mata do mundo, por consequência é também a que mais morre em serviço. A violência no Brasil tem cor e classe social: tanto suas vítimas quanto os seus agentes são em sua maioria, negros. Os e as policiais que estão nas ruas, em grande parte oriundos das classes mais baixas, são submetidos a treinamentos rudes, humilhantes e viris com objetivo de desconstruir a própria pessoa e construir um militar, que é aquele que age inescrupulosamente em nome da segurança e da ordem.

Toda essa brutalidade tem origem na ditadura militar e é fundamentada na construção de um inimigo imaginário, que sabemos bem quem é. Há uma explícita distinção no comportamento da polícia ao atender uma ocorrência em um condomínio fechado e em uma periferia, por exemplo.

A violência policial corresponde a política de extermínio da máquina de morte do Estado, que quando não mata diretamente, expõe a morte: os índices de homicídios só aumentam, a população carcerária só aumenta, a miséria entre a população periférica só aumenta e cada vez mais, a violência faz parte da sociedade brasileira, que ao invés de repudiar tamanha barbárie, comemora e aplaude a truculência de seus carrascos; reflexos do racismo estrutural vigente, reflexos de uma sociedade racista que é a nossa.

Sonhos interrompidos, famílias destruídas, vidas tiradas sem nenhum pesar. Repito a pergunta feita anteriormente, quanto vale uma vida? 6 mil vidas perdidas por ano nas mãos da polícia e parte da população aceita isso como normal e justificável: “bandido bom é bandido morto”, “morreu porque mereceu”. 200 mil vidas perdidas pela negligencia do Estado enquanto governantes e empresários caçoam da população e favorecem ricos às custas dos pobres.

Arma na mão para garantir a paz, reprimir para ensinar e punir quem aprende. E assim seguimos, cada vez mais doentes, cada vez mais perdidos e desalmados, olhando somente para nossos próprios umbigos e aplaudindo aqueles que nos açoitam enquanto ainda não nos açoitam, porque a dor do outro não é nossa dor, porque lamentamos prejuízos materiais mas banalizamos vidas perdidas. O lucro acima de todos, malditos aqueles que não sabem lucrar e viva o capitalismo do desastre.

* O texto acima é uma opinião do coletivo Resistência União e Arte – Erexim. Eles utilizam o termo Erexim para se referir a cidade pelo nome kaingang que significa “campo pequeno”.




Fonte: Reporterpopular.com.br