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Com o avanço da covid-19 e o desenvolvimento de vacinas para seu combate, fica evidente o valor social do trabalho das e dos cientistas envolvidos nessa função. Apesar do assunto estar em alta, quem de fato são as pesquisadoras e pesquisadores? Há relações de dominação interna dentro dos laboratórios e universidades?

Sem levar em conta aspectos políticos, a função do pesquisador é, basicamente, avançar a fronteira do conhecimento científico em alguma área específica. Para isso é preciso estar constantemente atualizado/a sobre os últimos desenvolvimentos na sua área de atuação, refletir criticamente e teorizar levantando novas hipóteses, testar e validar as novas ideias para então formalizar e documentar os avanços e descobertas.

O que é demonstrado para a sociedade, em geral, são entrevistas com responsáveis por projetos de grande impacto na sociedade, em sua maioria professores chefes de departamento de grandes universidades, ou seja, o setor mais próximo das estruturas de poder das universidades. Em muitos casos, professores que se especializam na manutenção de seu capital político dentro das burocracias universitárias, e há muito não se dedicam integralmente a suas pesquisas. Desta forma, assim como hoje não se espera que um diretor de indústria saiba como operar o maquinário da empresa que dirige, também não é a figura no alto da hierarquia acadêmica que, de fato, realiza a pesquisa. Essa tarefa é cumprida por suas alunas e alunos, orientandos/as etc. Que afinal quem são?

Hierarquia

O professor responsável por um grupo de pesquisa costuma ter sob sua orientação alunos/as de iniciação científica, de trabalhos de conclusão de curso da graduação, pessoas no mestrado, doutorado e pós-doutorado. Responsável, também, por delimitar as linhas de pesquisa do grupo, o professor tem a palavra final para todas as decisões envolvendo o grupo, já que sua assinatura é exigida em toda e qualquer formalidade relacionada ao grupo. Assim, é comum que vários alunos e alunas participem de um mesmo projeto nas suas diferentes fases, de tal forma que as responsabilidades são divididas conforme a hierarquia colocada entre os orientandos e orientandas.

Essa hierarquia é baseada no argumento do tempo de experiência, no qual, segundo a sequência colocada anteriormente, a iniciação científica é o primeiro passo e o pós-doutorado o último passo antes da posição do professor. Essa forma de organização é refletida pela remuneração de cada posição, que normalmente é proveniente de agências governamentais e tem seus valores tabelados [1], no prestígio político e no posicionamento nas decisões dentro das estruturas de poder do Estado.

Apoiando-se na hierarquia apresentada, os pesquisadores em posição superior repassam tarefas julgadas de menor demanda intelectual* para as posições subalternas, de forma que exista uma base que de fato gerencia e mantém o funcionamento dos laboratórios de pesquisa no seu dia-a-dia. Gerando assim o descompasso observado no qual o professor responsável pelo grupo não possui familiaridade com a operação dos equipamentos do seu laboratório. Além disso, vem crescendo no país a utilização de pesquisadoras e pesquisadores como força de trabalho especializada barata. Com os crescentes cortes de verbas e repasses para as agências de fomento e universidades, a falta de contratação leva esses professores em posições de direção a impulsionar políticas de contratação de estagiárias e estagiários da graduação para cumprirem atividades técnico-administrativas, e professores/as temporários com contratos extremamente precarizados, os quais fazem o trabalho de docência e orientação, enquanto os professores titulares fazem o trabalho político dentro das burocracias e de divulgação para a sociedade.

Outras diversas problemáticas surgem dessa forma de organização, já que são criadas métricas arbitrárias para avaliação do mérito individual, mas existe ainda um agravante que é a falta de incentivo à pesquisa por parte do Estado e do setor privado, muitas vezes ratificada por esses mesmos membros da burocracia universitária que compõem as estruturas de poder, e mantém relações próximas com os gestores do Estado e políticos vínculados aos partidos da ordem. Nesse sentido, no ambiente do trabalho de pesquisa se entrecruzam mecanismos de dominação cultural-ideológica e dominação político-burocrática [CAB, Capitalismo, Estado, Luta de Classes e Violência].

O reflexo de políticas liberais como o Teto de Gastos [2,3] e os cortes de repasses às instituições de fomento [4,5], colocam em xeque a disponibilidade de bolsas para todos os níveis citados, sendo que os valores das bolsas não seguem o reajuste mínimo conforme a inflação desde 2013 [6]. Na verdade escancara outros problemas como a dificuldade para renovação e contratação de novos professores, chegando inclusive ao absurdo de universidades de alto reconhecimento científico declararem o encerramento de suas atividades [7,8].

O resultado é o sucateamento do ambiente de pesquisa com a perda de profissionais altamente capacitados para funções de baixa complexidade e mínimo retorno social, como é o caso do mercado financeiro, ou a fuga de pesquisadores para outros países. A alternativa na iniciativa privada, por parte das indústrias, não se apresenta como realidade, já que apenas algumas grandes multinacionais realizam algum tipo de desenvolvimento tecnológico no país, sendo muitas vezes apenas adaptações de projetos desenvolvidos na sua matriz, o que é vulgarmente conhecido como “tropicalização do projeto” – sem contar o processo de desindustrialização por que passa o país, com o sistemático fechamento de fábricas. É comum, também, a recusa do pesquisador e pesquisadora na indústria por ser considerado ‘qualificado demais’ para uma vaga [9], o que pode ser traduzido como um profissional muito caro para a empresa. A pandemia de covid-19 potencializou ainda mais esse cenário, aumentando a quantidade de desalentados, pessoas que simplesmente desistiram de procurar trabalho [10].

Barreira de classe

Nesse panorama, as pessoas interessadas no desenvolvimento científico que ainda encontram alguma esperança, muitas vezes se sujeitam a cumprir parcialmente ou completamente os projetos sem qualquer subsídio financeiro. Sendo essa mais uma barreira de classe imposta, já que muitas/os pesquisadoras/es não encontram alternativa se não jornadas duplas, com empregos paralelos, para conseguir a renda necessária para se manterem. Isso fomenta a lógica elitista das universidades brasileiras, tendo em vista que as e os pesquisadores que permanecem precisam se submeter às demandas das estruturas de poder para manter suas pesquisas e, quem sabe, entrar nesse grupo restrito de privilegiados. Com a diminuição da permanência estudantil, quem aguenta toda essa precarização são os membros das elites que já possuem acordos ideológicos e meios financeiros externos para se manter pesquisando. Também demonstra o caráter racista e patriarcal desses setores, com mulheres e pessoas negras nas ocupações mais precarizadas do ambiente da pesquisa.

Assim como no conjunto da classe trabalhadora, a saúde mental das e dos jovens pesquisadores é atacada, também, pela diminuição ou total falta de reconhecimento no seu trabalho. Uma vez que o capital acadêmico pode ser reduzido, de forma simplificada, à produção de artigos científicos e citações em revistas de renome, existe uma pressão, por vezes exigência, para a produção de artigos como resultado dos projetos de cada pesquisador.

Apesar de as pesquisadoras e pesquisadores terem seus nomes publicados junto à sua produção, é uma regra tácita a inclusão do nome do professor responsável, muitas vezes como primeiro autor. Com isso, por orientar diversos estudantes, o professor possui uma produção acadêmica impossível de ser alcançada pelas pesquisadoras e pesquisadores que de fato estão produzindo os trabalhos. Resultando assim na concentração do conhecimento de áreas específicas em poucos grupos que serão privilegiados nas disputas por recursos. Assim como se privilegiam na reprodução ideológica e das linhas de pesquisa defendidas por eles.

Essa concentração de poder no conhecimento, em conjunto com a escassez de recursos, facilita a cooptação por parte da iniciativa privada para a execução de projetos do interesse exclusivo de algumas indústrias, sendo o interesse público deixado para segundo plano. Esse esquema é cada vez mais incentivado pelo Estado, que garante redução tributária às empresas que realizarem projetos em parceria com universidades. O que foi justificado como uma aproximação entre universidade e indústria, na verdade, se mostrou como repasse direto de recursos públicos para a iniciativa privada e posicionamento dos grupos de pesquisa como reféns dos interesses de empresas.

Pelo povo e para o povo

Como demonstrado nos trabalhos de combate à pandemia de covid-19, a pesquisa não pode ser guiada pela rudimentar lógica capitalista. A ciência deve ser feita pelo povo e para o povo, para que não se torne mais uma ferramenta de exploração por parte dos de cima, mas sim uma ferramenta de emancipação popular. Como já disse Malatesta, “Em nosso programa está escrito não somente pão para todos, mas também ciência para todos. (…) A ciência, como o pão, não é um dom gratuito da natureza. É preciso conquistá-la com esforço, e nós lutamos para criar condições que possibilitem a todos esse esforço.” [11]

Referências:

*Aqui é possível falar sobre a delegação de atividades julgadas de menor intelectualidade e também sobre as que exigem um nível mais alto da/do estudante. Por exemplo, dentro do laboratório, dezenas de vezes fazemos trabalho de mestrandos/doutorandos e temos que buscar o conhecimento por conta própria, o que demanda tempo de estudo e pesquisa não-remunerados, pois é como se fosse nossa obrigação dar conta de toda a estratégia da pesquisa, independentemente do nível acadêmico em que nos encontramos, e por fim, em boa parte as e os estudantes envolvidos no laboratório nem chegam a ser mencionados em alguns estudos, apenas os coordenadores de maior nível acadêmico. O que é super precário para uma pesquisa que demanda as diferentes experiências e níveis para construir um estudo e experimento.




Fonte: Anarquismosp.wordpress.com