Abril 19, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Carlos Taibo, professor, anarquista e autor de vários livros sobre a Rússia – e que esteve recentemente em Portugal, tendo participado em Braga num debate, na Universidade do Minho,  sobre este tema – tem sido um crítico da invasão russa da Ucrânia, embora estabelecendo também fortes responsabilidades nos países da NATO e da União Europeia, mobilizados sobretudo por interesses económicos. Para Carlos Taibo, “Putin é, entre outras coisas, mas não numa proporção insignificante, produto da arrogância e da ignomínia dos países ocidentais e das suas maravilhosas alianças militares”, manifestando-se de um e de outro lado os apetites imperialistas. Não branqueia a Rússia e escreve, num texto recentemente publicado no seu blogue e partilhado nas redes sociais, “repugna-me e rejeito esta intervenção, assim como me repugna e rejeito as protagonizadas pelas potências ocidentais com o objetivo de preservarem os seus interesses e privilégios.”

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Carlos Taibo

Durante os últimos dois meses, os da guerra ucraniana, tentei ficar longe do ruído dos media. Se os meus cálculos estiverem corretos, concedi algumas entrevistas e evitei talvez uma centena, coloquei na minha página da web – que ninguém lê – uma dúzia de artigos e, finalmente, há um livro modesto por aí de que sou, dizem eles, um autor. Não consegui evitar, porém, dois obstáculos. Se o primeira é a manipulação, em geral bem intencionada, dos meus textos, ou das minhas intervenções orais, a segunda é a catalogação que tanto agrada aos que se entregam a jogos maniqueístas e ao presentismo mais hilariante. Quem não está comigo, quem não bajula essa organização filantrópica que é a NATO, está inevitavelmente – como se sabe- com Putin e os seus tanques.

A mais recente manifestação deste último, do maniqueísmo que me vou permitir classificar de desinformado, é, a meu ver, um artigo de David Sarias intitulado “Putin, o Ocidente e os debates necessários”, publicado em El Independiente. Cito-o , não porque tenha especial importância o que nele é dito ou sugerido sobre mim, mas porque ilustra o vigor de um fenômeno que, embora conhecido, atinge nestas horas dimensões perturbadoras .

Sarias, que me coloca numa lista que inclui Noam Chomsky, Tariq Ali, Hasel-París Álvarez e Beatriz Talegón, atribui-me judiciosamente a condição de antisistema – evitarei as disputas semânticas, embora ricas, que este delicioso adjetivo arrasta -, inclinado a rejeitar o que significa “o Ocidente”. No seu esforço de categorização das aberrações, esquece, porém, que as razões que justificam a minha raiva contra o Ocidente – não sei quais são as dos outros mencionados – são, na maioria dos casos, as mesmas que me fazem rejeitar a Rússia de Putin. A saber, e por exemplo, a hierarquia, a exploração dos seres humanos, a desigualdade, a repressão, a militarização e os desejos imperiais. É assim que sou estranho.

Nestas condições, o mais confortável é, claro, que os anarquistas, e neste caso Chomsky e eu, passemos por apoiantes constrangidos e bastante tolos do camarada Putin. Sarias afirma que os antisistema, à esquerda e à direita, olhamos para o presidente russo como uma vítima e ousa prever, ainda mais, que aos nossos olhos Putin seria, “no fundo”, um saudável “elemento de mudança” para o Ocidente”. Caramba! Há 22 anos que critico fortemente Putin para descobrir que – no fundo, isso sim – não sou mais do que um admirador do criticado. Como me escondi, há duas décadas atrás, quando tentei fingir que estava a opor-me à barbárie de Putin na Chechénia enquanto os nossos governos e os nossos empresários faziam negócios com a Federação Russa. E como me dissimulo agora quando, numa engenhosa finta, afirmo que Putin é, entre outras coisas, mas não numa proporção insignificante, produto da arrogância e da ignomínia dos países ocidentais e das suas maravilhosas alianças militares . Que falta de vergonha a minha, em resumo, quando pareço interessar-me por quem, na Rússia e na Ucrânia, enfrenta os poderosos de ambos os lados da fronteira.

Suponho, de resto, que Sarias, pelo que percebo, vê em mim um tudólogo opinativo – três décadas de trabalho na universidade e uma quinzena de livros densos e dispensáveis, não me servem de nada -, dá por garantido que apoio, ainda que a contragosto, a intervenção militar russa na Ucrânia. Pois que o diga, mas não é assim. Repugna-me e rejeito esta intervenção, assim como me repugna e rejeito as protagonizadas pelas potências ocidentais com o objetivo de preservarem os seus interesses e privilégios. Admito, mesmo assim, que nunca é tarde para, no fundo, se perceber o que cada um defende.

16/04/2022

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Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com