Agosto 13, 2021
Do Jornal Mapa
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Mesmo que se considere que a vacina é útil, é possível estar contra o Passaporte Covid, desde que se deseje viver numa sociedade que não deixe ninguém para trás.

De forma a podermos confrontar de forma ágil o que está em movimento, é necessário pôr de lado certezas e interpretações excessivamente estáticas, e saber que, durante muito tempo, a estrada pode ser estreita e o caminho sinuoso e que nos veremos repetidamente confrontados com fenómenos que nos fazem sentir desconfortáveis, mas que nos desafiam a aguçar o nosso olhar e nos preparam para o futuro.

Com estas premissas em mente, entremos no debate sobre a agitação em torno da questão do Passe Verde [Green Pass, ou Certificado Covid] com algumas notas dispersas e provisórias:

A questão do Green Pass vai além do assunto «vacinas sim, vacinas não»

Trata-se da forma como a nossa sociedade e os seus sistemas de poder estão a lidar com a crise pandémica e a gestão da crise sanitária. Mais genericamente, é um exemplo das soluções tecnocráticas que o capital coloca aos seus próprios fracassos (a incapacidade de reconstruir uma narrativa unitária de interesses, o paradoxo em que o individualismo pequeno-burguês corre o risco de ser, aos níveis mais elevados, um bloqueio ao renascimento da criação de valor, a crise devastadora da reprodução social global). É evidente que o Passe Verde era apenas uma das opções possíveis para enfrentar esta fase da crise, e foi escolhido por duas razões: para tentar evitar lockdowns totais ou parciais devido a variantes que interrompessem ou abrandassem de novo a criação de valor, e para acelerar a campanha de vacinação, que tem avançado a um ritmo lento por várias razões (a ineficácia da narrativa mainstream, o medo nada infundado – como vimos no caso da AstraZeneca – relativamente à falta de experimentação, e também uma certa dose inegável de egoísmo social cada vez mais generalizado). Foi portanto decidido a nível europeu impor autoritariamente o Passe Verde como uma solução tecno-política.

A vacina por si só não é a solução

Há meses que dizemos isto. Embora seja inegável que a campanha de vacinação deu frutos em termos de diminuição das mortes e admissões nos cuidados intensivos, é igualmente verdade que não foi de modo algum a solução definitiva para a pandemia, tal como foi inicialmente apresentada. Este fenómeno enfrenta dois problemas de escala. O primeiro é a um nível macro: uma campanha de vacinação totalmente eficaz capaz de prevenir a mutação do vírus teria de ser global e muito rápida. Uma tal operação teria de envolver uma coordenação geral das governações individuais e, naturalmente, de uma – pelo menos parcial – redistribuição global de emergência dos recursos. É evidente que, na conjuntura actual, tal hipótese é impraticável para os capitalistas. Em segundo lugar, num plano inferior, a fim de ultrapassar esta limitação, teria sido necessária uma mobilização geral de recursos, capacidades e prevenção a nível territorial, a fim de evitar e conter novos focos que invalidassem a campanha de vacinação. É por isso evidente que, uma vez mais, o capital, para evitar qualquer tipo de redistribuição, confiou numa solução técnico-científica que demonstrou toda a sua falácia e exacerbou ainda mais a situação sócio-económica. Assim, não é surpreendente que cada vez mais pessoas desconfiem mais ou menos explicitamente da capacidade dos Estados de emergir da crise.

A maioria daqueles que não se vacinaram não são necessariamente negacionistas ou anti-vacinas

O que prevalece são sobretudo os indecisos, aqueles que adiam a vacinação por medo, porque têm outras prioridades neste momento, porque querem compreender melhor o que está em jogo, porque não estão em áreas que foram particularmente afectadas até agora, ou porque há poucos serviços na sua área.

Nos Estados Unidos, paradoxalmente, a campanha de vacinação encontrou as maiores dificuldades precisamente nos distritos negros onde o número de mortes e infecções Covid foi mais elevado. Muitos estudiosos salientaram a correlação entre a revolta da Black Lives Matter e a pandemia, mas estas foram as áreas onde houve maior desconfiança em relação à vacina. Podem existir várias razões que devem ser analisadas e compreendidas, desde a ausência e atrasos nos serviços à desconfiança em relação a um sistema de saúde ineficaz e talvez racista com que se entra em contacto em certos territórios, outras necessidades mais urgentes, a tendência para o fatalismo, etc. … etc. …. Em Itália também estamos perante uma situação semelhante: as regiões com maior número de não vacinados são a Calábria e a Sicília, e se fossem feitas as mesmas estimativas sobre as cidades, provavelmente descobriríamos que os distritos populares seriam os que registavam a menor taxa de vacinação. Para não mencionar os migrantes, os sem-abrigo e todos aqueles que são excluídos ou têm acesso difícil ao sistema de saúde. Por conseguinte, é evidente que o Green Pass irá funcionar também como um sistema de exclusão social para sectores da população que já estão a passar pelas dificuldades da crise.

O Passe Verde não é certamente a solução

É verdade que uma parte dos indecisos pela possibilidade de deixar de ter acesso a certos serviços optou por quebrar o impasse e reservar a vacina. Mas a escolha de polarizar o discurso público a este nível poderia levar a que muitos outros decidissem não o fazer face à coerção do governo. Nesta altura, para além da óbvia exclusão social que estas pessoas enfrentariam, um problema mais geral viria à luz. De facto, somos confrontados com o paradoxo de que os grupos etários menos vacinados são também os mais em risco e que aqueles que têm o Passe Verde podem tornar-se num vector silencioso de contágio para estas mesmas pessoas. O outro lado está bem ciente disto e decidiu que se trata de um risco aceitável. Puro darwinismo social na sua versão mais brutal.

É evidente que a forma como a discussão sobre esta questão está hoje a decorrer faz com que, do ponto de vista discursivo, se trate de um debate inteiramente dentro da esfera do capital

Relançamento da criação de valor versus liberdades individuais. Neste momento parece haver pouco espaço para um discurso diferente nesta polarização, mas continua a ser verdade que o Green Pass é uma medida excludente e tecnocrática e que é objectivamente necessário que qualquer pessoa que se considere anti-capitalista se lhe oponha. Além disso, mais uma vez, um olhar superficial sobre a composição das últimas manifestações contra o Passaporte Covid leva-nos a dizer que, pelo menos em parte, existem subjectividades no seu interior com as quais seria importante relacionarmo-nos a fim de construir caminhos de ruptura do existente.

Concluímos estas breves notas com uma série de perguntas, como um inquérito aberto sobre os fenómenos a que estamos a assistir:

O que está a acontecer é apenas o produto de um egoísmo social generalizado e de interesses económicos muito específicos ou há mais?

As actuais agitações sociais situam-se num terreno institucional? De que forma?

É possível, pelo menos em parte, introduzir nestes movimentos temas e palavras de ordem que vão para além da oposição entre Vax e Não Vax e propor questionar a gestão de cima para baixo da crise?

Temos assistido a uma confusão contínua dentro do conhecimento tecno-científico. Podemos considerar que este campo está a sofrer uma re-politização progressiva. Como nos podemos inserir nestas brechas, à luz, entre outras coisas, das manifestações a que estamos a assistir, para imaginar uma recomposição que vá no sentido de afirmar a prioridade de uma vida digna sobre a produção e o consumo?

Pode-se ser contra o Green Pass, mesmo quando se acha que é correcto ou pelo menos útil tomar a vacina para o cuidado colectivo de todos, mas se quer viver numa sociedade que não deixa ninguém para trás.

É evidente que o espaço é estreito, como dissemos no início, e sê-lo-á durante muito tempo, mas não será a partir de certezas graníticas que reconstruiremos uma possibilidade de oposição de sentido antagónico em massa. É uma questão de confrontar humildemente, experimentar, colocar-se em jogo, manter certos pontos firmes, mas com a consciência de que é necessário sujar as mãos.


[tradução do texto Green Pass: andare oltre un dibattito infruttuoso] via https://www.infoaut.org/




Fonte: Jornalmapa.pt