Maio 6, 2021
Do Reporter Popular
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Texto do Movimento de Organização de Base (MOB-RJ)

Na manhã desta quinta-feira, 6 de maio, a Polícia Civil realizou mais uma operação ilegal na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro, resultando em um verdadeiro banho de sangue. A ação contou com 2 helicópteros, 4 blindados e mobilizou mais de 250 policiais para promover a chacina. A chamada Operação Exceptis vitimou, pelo menos, 25 pessoas na comunidade.

Pelas redes sociais os moradores relataram que houveram mais mortes que as computadas, preenchendo as ruas de corpos no chão, com invasões de casas, celulares confiscados e truculência policial generalizada. Vídeos registraram o som de rajadas, e explosões de bombas foram registradas em diferentes pontos da favela.

Muitos moradores não conseguiam sair de casa, ficando ilhados e ameaçados em meio ao tiroteio, enquanto outros decidiram sair de suas casas sob os tiros para trabalhar, preferindo arriscar suas vidas do que o emprego, tal é a crise econômica e social que passamos.

A operação também forçou o fechamento da Clínica da Família Anthidio Dias da Silveira, além de outros dois postos de vacinação contra a Covid. O tiroteio chegou até o metrô, onde dois passageiros foram baleados dentro de um vagão da linha 2, próximo à estação Triagem. Ambos foram socorridos e sobreviveram.

De acordo com a plataforma digital Fogo Cruzado, que registra dados de violência armada desde 2016, este foi o maior número de mortes durante uma operação da polícia em uma comunidade desde o início dos levantamentos.

Em vídeo que circula nas redes sociais desde cedo, a polícia é flagrada invadindo uma casa e executando um morador que estava rendido e baleado no chão.

ATENÇÃO! OS VÍDEOS A SEGUIR CONTÉM IMAGENS FORTES

A luta contra a violência policial não começou agora, nem terminará tão cedo

Há anos que movimentos sociais comunitários, coletivos de favelas e o movimento negro se mobilizam contra a violência policial nas comunidades, que afeta sobretudo a juventude preta e periférica.

No decorrer de 2020, os protestos contra a violência policial se intensificaram em todo o mundo, com o assassinato de George Floyd nos EUA, morto por um policial branco. Aqui no Brasil não foi diferente e várias mortes geraram revolta da população, sobretudo de crianças, como o caso de Anna Carolina e João Pedro, mortos no ano passado, Ágatha Félix e Maria Eduarda em 2019 e Marcos Vinícius em 2018.

Graças às mobilizações que foram feitas em resposta à essas mortes, conseguimos pressionar a justiça para ter a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 635), que determina a suspensão de operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia do novo coronavírus. Essa foi mais uma prova de que apenas a mobilização popular é capaz de fazer avançar o caminho para uma vida mais digna do povo.

Durante os primeiros meses em vigor, em comparação à média observada entre os anos de 2017 e 2019, a quantidade de mortos em ações policiais caiu 72,5%. Já o número de feridos foi 49,6% menor. Este ano, perto de completar 1 ano desde que a ADPF entrou em vigor, houve redução na maioria dos principais indicadores da violência, como mostram os número coletados pelo Fogo Cruzado.

Durante esse período, o número de disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro caiu 22% em comparação com os 10 meses anteriores à decisão do Supremo. Foram 3.726 registros entre 6 de junho de 2020 e 5 de abril de 2021, e 4.750 registros entre 6 de agosto de 2019 e 5 de junho de 2020. O número de tiroteios com presença de agentes de segurança apresentou queda ainda mais expressiva: 32%. Foram 1.030 tiroteios nos 10 meses de vigência da ADPF, contra 1.523 nos 10 meses anteriores.

Entretanto, sabemos que essa decisão foi paulatinamente deixando de ser seguida. Em 2021, os casos de violência policial voltaram a aumentar significativamente, se iniciando com números alarmantes. Apesar da proibição das operações policiais conquistada pela pressão dos movimentos comunitários, com a luta pela aprovação da ADPF 635, o governo do estado segue mantendo a atuação da PMERJ nas favelas sem qualquer justificativa plausível ou sequer respaldada pela legalidade.

Apenas em janeiro tivemos 127 tiroteios com participação direta da Polícia Militar. Além disso, 11 pessoas morreram vítimas de “balas perdidas” na Região Metropolitana do Rio, segundo dados são do Fogo Cruzado RJ referentes ao mês de janeiro.

Chacina no Jacarezinho causa revolta dos moradores

O ocorrido hoje no Jacarezinho causou revolta imediata de todos os moradores da comunidade, o que fez com que muitos descessem do morro e fechassem a Rua Dom Helder Camara. Nas redes sociais, subiu a hashtag #ChacinaDoJacarezinho, demonstrando a indignação geral da população.

Já há dois atos convocados para amanhã: um às sete horas da manhã na Cidade da Polícia (estação Maria da Graça) e outro às três horas da tarde em Laranjeiras em frente ao Palácio Guanabara.

Diante desse cenário nefasto, onde a política de extermínio do povo pobre é explícita, sabemos que apenas a luta social é capaz de fazer essa matança recuar. É com mobilização popular, desde a base, que conseguimos nos contrapor à essa política e caminhar para a garantia de uma vida mais digna para todas e todos.

Contra o racismo! Por vida digna!

#VidasNegrasImportam #NaLutaPorVidaDigna #ChacinaDoJacarezinho




Fonte: Reporterpopular.com.br